EM TORNO DOS MANDAMENTOS

"Aquele que cumprir os mandamentos e os ensinar aos homens
será chamado grande no Reino dos Céus." (Mateus, 5:19)

O Decálogo, ou os Dez Mandamentos, recebido mediunicamente por Moisés, no monte Sinai, apesar de constituir um conjunto de leis eternas, imutáveis, e de elevado cunho moral também sofreu adulterações no decorrer dos séculos, tendo sido apresentado aos homens versões diferentes:

A versão original está contida no (Êxodo, 20:3-17) e tem o seguinte teor:

• I -Não terás outros deuses diante de mim;

• II - Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma semelhante ao que há em cima nos Céus, nem embaixo na Terra, nem nas águas debaixo da Terra. Não te encurvarás a elas, nem as servirás, porque, eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso que puno a iniqüidade dos pais nos filhos, na terceira e quarta gerações daqueles que me aborrecem, e uso de misericórdia em milhares de gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos:

• III - Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o eu tomar o Seu nome em vão:

• IV - Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas no sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus: Não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os Céus e a Terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto, abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou;

• V - Honra o teu pai e a tua mãe, para que se dilatem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá;

• VI - Não matarás;

• VII - Não adulterarás;

• VIII - Não furtarás;

• IX - Não dirás falso testemunho contra o teu próximo;

• X - Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Outra versão, constante do catecismo oficial das igrejas, reze, o seguinte: (Segundo Catecismo da Doutrina Cristã, 1930)

• I - Amar a Deus sobre todas as coisas;

• II - Não tomar Seu Santo nome em vão;

• III - Guardar domingos e festas;

• IV - Honrar pai e mãe;

• V - Não matar;

• VI - Não pecar contra a castidade;

• VII - Não furtar;

• VIII - Não levantar falso testemunho;

• IX - Não desejar a mulher do próximo;

• X - Não cobiçar as coisas alheias.

Tudo indica que a alteração foi introduzida principalmente, porque no mandamento genuíno a condenação da idolatria (adoração ou veneração de imagens, de escultura), é taxativamente proibida; por isso, contraria, frontalmente, a prática de algumas igrejas que adotam o culto externo de imagens, e também porque o mandamento original ordenava que se guardasse o dia de sábado, ao passo que as igrejas consagram o dia de domingo.

Jesus, no entanto, sintetizou esses dez mandamentos, em apenas dois:

• I - Amar a Deus sobre todas as coisas;

• II - Amar o próximo como a si mesmo.

Quem observa esses dois mandamentos, obviamente estará cumprindo todos os demais, pois quem ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, não mata, não rouba, não pratica adultério, não cobiça as coisas do próximo e não se presta a falsos testemunhos.

Cumpre também esclarecer que o texto do II mandamento, que diz: "Porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso que puno a iniqüidade dos pais nos filhos, na terceira e quarta gerações daqueles que me aborrecem, e uso de misericórdia em milhares de gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos", também foi adulterado, pois, nas traduções feitas pelas Igrejas católica e protestante, esta parte do mandamento foi alterada, de modo a corroborar a doutrina da encarnação única da alma. Onde está "na terceira e quarta gerações", modificaram o texto para "até a terceira e quarta gerações".

Com tal alteração, a Justiça Divina torna-se monstruosa, pois que filhos, netos, bisnetos, tetranetos inocentes teriam que receber penalidades pelas transgressões dos pais, avós, bisavós e tetravós.

Na forma correta, são demonstradas, de modo velado, a Reencarnação e as expiações e provas. Na primeira e segunda gerações, como contemporâneos de seus filhos e netos, os Espírito culpado ainda não reencarnou, mas um pouco mais tarde - na terceira e quarta gerações - ele já voltou e recebe as conseqüências de suas transgressões. Desta maneira, o próprio culpado e não outrem, paga seus débitos.

Devem-se, portanto, excluir a primeira e segunda gerações e expressar na terceira e quarta gerações, como, na realidade, é original.

Jesus Cristo deixou bem evidenciado, em seus ensinamentos, que o pai não paga o pecado dos filhos, nem os filhos pagam as transgressões dos pais. Cada um é responsável, pelos seus atos, por isso, desfruta do livre-arbítrio.

Conseqüentemente, esse trecho do II mandamento somente poderá ser analisado à luz das reencarnações, pois, na terceira e quarta gerações, os filhos serão bisnetos ou tetranetos e, desta forma, quando sofrem, não estarão pagando os pecados dos pais, mas os próprios pecados cometidos em gerações anteriores.

Deus deixaria de ser Pai de suprema justiça e misericórdia se consagrasse uma lei dessa natureza iníqua e unilateral.

Alguns dos preceitos dos Dez Mandamentos não foram observados por Jesus Cristo, com a rigidez com que constam:

Decálogo, principalmente o que discorre sobre a observância de fazer qualquer obra em dias de sábado. Conforme se depara Evangelhos, o Mestre, em dias de sábado, curou um paralítico, restaurou a mão ressequida de um homem, expulsou um Espírito que fazia uma mulher viver curvada, curou um cego de nascença, além de ter permitido que os seus discípulos fizessem colheita de espigas em dias de sábado, em flagrante Contraste com o que o Decálogo estabelece.

É patente que o espírito do mandamento em apreço era meramente de consagrar uma necessidade social, qual seja, a de propiciar um dia de descanso obrigatório aos servos, aos animais e aos homens, em geral, não devendo ter aquele caráter rígido com que era observado pelos Judeus.

Nós, Espíritas, também sabemos que os seis dias da criação do mundo, conforme é universalmente comprovados pela Ciência, foram seis períodos geológicos, de milhares e milhares de séculos, e não seis dias de vinte e quatro horas, como muitas pessoas acreditam.

Demais, o próprio Jesus afirmou que o Pai jamais deixa de atuar um só instante, não carecendo, pois, de descanso.

Paulo A. Godoy