JOÃO BATISTA - ELIAS E PROFETA

"E perguntaram-lhe: Então, quem és? És tu Elias? E disse: Não sou. És tu o profeta? E respondeu: Não! (João, 1:21)

"Eu vos digo que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Então emendaram os discípulos que lhes falara de João Batista." (Mateus, 17:12-13)

"E se quereis dar créditos, é este o Elias que havia de vir. Quem tiver ouvidos, ouça." (Mateus, 11:14-15)

"E João testificou, dizendo: Vi o Espírito descer do Céu como uma pomba, e repousar sobre ele." (João, 1:32)

"E João, chamando dois dos seus discípulos, enviou-os a Jesus, para dizer-lhe: És tu o que havia de vir, ou esperaremos outro?" (Lucas, 7:19)

As citações evangélicas acima nos propiciam um ensinamento de relevante alcance, ensejando-nos apreciar como até os Espíritos elevados, que passaram pela Terra, e cujos nomes ficaram registrados nos livros sagrados, como profetas e missionários, apesar de serem entidades de ordem elevada, não deixaram de sofrer a influenciação de toda a ordem, que o organismo físico oferece.

João Batista nega ser profeta e repele a idéia de ser a reencarnação de Elias. No entanto, o próprio Jesus Cristo, com sua autoridade insofismável, proclama, solenemente, ser João Batista o maior dos profetas e deixa bem claro ser ele a reencarnação do profeta Elias.

João Batista aponta Jesus à multidão, comprovando ser Ele o Cordeiro de Deus, dá testemunho de que viu o Espírito descer sobre Jesus, corporificado na forma de uma pomba, identificando a sua personalidade messiânica; afirma não ser digno de desatar as correias de suas alpercatas; no entanto, alguns meses depois ciente e consciente de ser o precursor da vinda do Cristo, envia dois dos seus discípulos, a fim de indagarem se Ele era realmente o Messias prometido, ou se deveria aguardar outro?

Torna-se evidente, pois, que os médiuns de todos os tempos abrangendo os profetas de Israel, vivem ou viveram duas fases distintas: uma, como medianeiros do Alto, agindo sob a influência de Espíritos desencarnados; outra, em que deliberam, falam e agem sob seus próprios influxos.

João Batista, sob a influência espiritual, proclama ser Jesus o tão esperado Messias; no entanto, agindo de "per si" e resolve enviar dois de seus discípulos, para indagar do Mestre se Ele era realmente o Messias, ou se deveria aguardar um outro.

Fatos quase semelhantes têm acontecido com outros grandes missionários que Deus tem feito baixar à Terra.

Sob a influenciação de Espíritos desencarnados, Moisés recebeu o Decálogo, ou Dez Mandamentos, nos quais está explícita a necessidade do amor ao próximo e o "não matarás"; Elias fez com que a alma do filho da viúva de Zarafate voltasse ao corpo do menino (I Livro dos Reis, 18:21-22); Salomão tornou-se um dos mais sábios reis da Terra e prescreveu seus famosos Provérbios, que representam perene advertência contra o pecado; o Rei Davi legou à Humanidade os seus cânticos, que são autênticos libelos contra o mal; o apóstolo Pedro afirma ser Jesus o Cristo, Filho do Deus Vivo.

Agindo sob deliberação própria, Moisés, ordenou o massacre de verdadeiros contingentes de homens; Elias ordenou a decapitação dos sacerdotes de Baal (I Livro dos Reis, 18:40); Salomão cometeu uma série de desatinos; tornou-se imoral e chegou ao extremo de adorar deuses estranhos (I Livro dos Reis 11: 18); o rei Davi cometeu adultério e ordenou assassinato (II Livro dos Reis, 11: 14-27); Pedro negou o Cristo. (Mateus,26:69-75)

Foi devido a esses conflitos entre os ensinamentos e os atos de alguns missionários, que Jesus Cristo recomendou a necessidade da "oração e vigilância". Embora Moisés, a fim de refrear a tendência de um povo embrutecido, tenha considerado justas as medidas por ele tomadas; Elias tenha agido com boa-fé; Salomão tenha-se ofuscado com o seu poder e glória; Davi tenha tido momentos de fraqueza; Pedro tenha-se atemorizado, face à eventualidade da morte física, nem por isso podemos conceber a idéia de que os atos, assim cometidos, tivessem merecido o beneplácito de Deus, apesar das narrativas integrarem um livro considerado sagrado.

Descendo à Terra para o desempenho de seu glorioso Messiado, Jesus foi acompanhado de uma plêiade de Espíritos elevados. Dentre esses assessores, pode-se assumir que Maria Madalena e Paulo de Tarso achavam-se investidos de incumbências específicas, mormente Paulo que, segundo o dizer de Jesus, era o seu vaso escolhido. Os fatos, no entanto, demonstram que Maria Madalena, devido à falta de vigilância e à penetração pela porta larga da ostentação e vaidades terrenas, quase fracassou em sua missão. Paulo de Tarso, por sua vez, empolgado por um precário zelo religioso, que ia ao extremo do emprego da violência, também quase falhou, não fora a grandiosa manifestação da Estrada de Damasco, quando o Espírito de Jesus o convocou para o desempenho da fulgurante missão, para a qual havia Vindo à Terra.

Em ambos os casos, a ação direta de Jesus se fez sentir, para que os dois Espíritos missionários não viessem a fracassar nas tarefas, para cujo desempenho haviam descido à Terra. No caso de Paulo de Tarso, o Mestre teve que destruir todo um sistema de ação de entidades trevosas, integrado por entidade desencarnadas e encarnadas. No caso de Madalena, Jesus teve que anular a influência de uma legião de Espíritos possessores que a mantinham subjugada.

Observamos aqui, mais de uma vez, que mesmo os Espíritos de ordem elevada, quando encarnados, na Terra, e sujeito, império da carne, podem sofrer a interferência de forma negativas, e se não empregam a fórmula oração e vigilância recomendada pelo Cristo, estarão sujeitos ao fracasso em suas missões.

Em Lucas (22:31-32) Jesus adverte o apóstolo Pedro que sentia essa necessidade, quando assevera: "Simão, eis que Satanás, (ler Espíritos das trevas) te pediu que cirandes como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e quando te converteres, confirma teus irmãos." Na II Epístola de Paulo aos Coríntios, Paulo também deixa transparecer que as forças das trevas eram persistentes, quando disse: "E para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar."

O termo Satanás, aqui empregado, é sinônimo de mentira, de obscurantismo. de maldade e de intolerância. Embora não sendo uma figura real, simboliza o império das trevas, onde os Espíritos que se distanciam da Verdade e da Luz, se tornam prisioneiros voluntários de sua própria invigilância, até o dia em que se predispõem a se aproximarem da Luz e da Verdade, atendendo decididamente ao amoroso convite formulado por Jesus Cristo, nas páginas rutilantes dos Evangelhos.

Paulo A. Godoy