LEVOU CATIVO O CATIVEIRO

"Subindo ao Alto levou cativo o cativeiro e deu dom aos homens." (Epístola aos Efésios, 4:8)

Referindo-se a Jesus Cristo, escreveu Paulo de Tarso em sua Epístola aos Efésios: "Subindo ao Alto levou cativo o cativeiro."

Esse trecho da Epístola significa que os homens sempre foram cativos de ensinamentos obsoletos, ministrados pelos Escribas de todos os tempos. Através desses preceitos, os homens ficavam bitolados e atrelados à letra que mata, relegando, para plano secundário, o Espírito que vivifica, Portanto, Paulo deixou escrito em sua Epístola, de forma velada, que até o advento de Jesus Cristo havia uma forma de cativeiro das consciências, fonte geratriz de superstições, de fanatismo e de obscurantismo. Com o advento do Messias e a revelação dos Evangelhos, aconteceu a implosão desse cativeiro, pois, com a luz que passou a espargir dos seus ensinamentos, o Cristo deu aos homens o dom de discernir, de analisar, de ponderar. Deu-lhes meios de poderem distinguir a verdade da impostura.

Infelizmente, nos vinte séculos decorridos após o advento de Jesus, ainda continuam a prevalecer muitos resíduos desses ensinamentos obsoletos, mas agora a Humanidade desfruta das luzes dos Evangelhos, para aquilatar o que é verdade e o que representam a mentira e o engodo.

Na mesma Epístola, o apóstolo diz: "Ora isto - ele subiu - senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da Terra?"

O Credo dos Apóstolos, amplamente difundido no meio de uma grande religião cristã, com fundamento nesse trecho da Epístola aos Efésios, afirma que Jesus Cristo, antes de subir aos Céus, desceu aos Infernos. No entanto, como a teoria da existência do Inferno está um tanto desgastada, e sem muita aceitação, uma versão desse Credo substituiu o termo "Inferno"por "Mansão dos Mortos".

Entretanto, nos dias atuais, ninguém mais, em sã razão, acredita na existência do Inferno como lugar circunscrito e localizado no interior da Terra, onde as almas pecaminosas permaneceriam, por toda a eternidade, submetidas a um amargo processo de "penas eternas". Sendo Deus o Criador de todas as coisas, se existisse o Inferno, também seria Sua obra. E, como é, vontade do Pai é que nenhuma de suas ovelhas se perca, é lógico que Ele jamais poderia criar regiões tenebrosas, localizadas e circunscritas, para permitir que ali fossem ergastulados, por todo a eternidade,os seus filhos que erraram, por alguns momentos no decorrer da vida terrena.

A fim de esclarecer o que significam as partes baixas da Terra, o ínclito Allan Kardec afirma no livro O Céu e o Inferno: "O Inferno dos pagãos continha, de um lado, os Campos Elísios, e do outro, o Tártaro: o Olimpo, morada dos deuses e dos homens divinizados, ficava nas regiões superiores. Segundo a letra no Evangelho, Jesus desceu aos Infernos, isto é, aos lugares baixos para deles tirar as almas dos justos que lhe aguardavam a vinda.

Os Infernos não eram, portanto, um lugar unicamente suplícios: estavam tal como para os pagãos nos lugares baixos morada dos anjos, assim como o Olimpo, era nos lugares elevados. Colocaram-na para além do Céu estelar, que se reputava limitado. A Terra, para eles, era o centro do Universo."

É óbvio que o dizer de Kardec - "para tirar dali as almas dos justos que lhe aguardavam a vinda", não se referia às almas que estariam no tão decantado Inferno, mas aos justos que estavam na Terra por ocasião da vinda de Jesus, os quais haviam assimilado a sua mensagem e esperavam, ansiosamente, pelo advento do prometido Messias. Ao fazer uma promessa viva a esses seus seguidores é que o Cristo disse em (João 14:1-3) que iria à frente para lhes preparar a morada, dentre as muitas moradas da Casa do Pai. É evidente que essa retirada dos justos, que aguardavam o Cristo de Deus, não seria inopinada, mas constituía um prolongado processo, uma vez que as leis de Deus não dão saltos. Seria tremenda aberração acreditar que o Inferno existia nos moldes apregoados pelas Teologias terrenas, e nele permaneciam, enclausuradas, as almas dos justos.

A Teologia cristã, pelo que informa o dr. Canuto Abreu em sua obra O Evangelho por Fora, acredita que Abraão e todos os patriarcas e heróis, que faleceram antes de Jesus, aguardavam o Messias redentor nos planos inferiores e só com Ele puderam sair desses planos, a fim de subirem ao Terceiro Céu com o Cristo, o Libertador dos Ergastulados, o Salvador das Almas, no Inferno, ou em Cheol ou em "Hades".

Na concepção da Teologia habraica, os "planos"habitados pelas almas fora do corpo eram três: O primeiro Plano ficava debaixo do nosso Planeta e, em hebreu, se chamava Cheol.

Os antigos consideravam a Terra uma extensão plana com quatro cantos, não passando os mares de simples "lagos", maiores ou menores, além dos quais havia sempre crosta terráquea. Sob a extensão plana estava o Cheol.

O segundo "plano" estaria situado na atmosfera terrestre, entre a crosta e o firmamento, povoado de anjos bons e maus, de almas humanas, em missão de penitência, e de gênios inferiores às almas humanas.

O terceiro "plano" situar-se-ia "acima" do firmamento e compreendia diversas "moradas", cada qual num astro, escaladas em sete céus, isto é, em sete mundos, cada qual mais adiantado e melhor que o inferior da escala. Ali ficavam os arcanjos, os Serafins e Querubins. No sétimo Céu, ou Sol, estava o "trono do Altíssimo".

A Septuaginta, ou versão alexandrina da Bíblia, verteu o termo "Cheol" para "Hades", que na Teologia grega era também região subterrânea, povoada das almas dos mortos.

O "Hades" também tinha seus compartimentos, com várias situações, uns piores e outros melhores.

É evidente, pois, que não existe o Inferno nos moldes concebidos pelas Teologias terrenas, e constitui uma tremenda aberração a idéia de que as almas dos antigos patriarcas e heróis hebreus, dentre eles Abraão, Isaac, Jacó e outros, estivessem nos planos inferiores, aguardando a vinda do Cristo Redentor para poderem dali sair. Tratava-se de Espíritos que desceram a Terra em missões fulgurantes no meio do povo judeu, os quais após a desencarnação, voltaram, rapidamente, para as regiões elevadas de onde procederam.

O profeta Isaías (61:1), vaticinando o advento de Jesus Cristo, profetizou que "o Espírito do Senhor estaria sobre ele, porque o Senhor o havia ungido para pregar boas novas aos mansos, enviando-o para restaurar os contritos de coração, para proclamar a liberdade aos cativos e abrir as portas das prisões, libertando os presos".

Ainda aqui, a profecia de Isaías, lida por Jesus na Sinagoga de Nazaré (Lucas, 4:17-21), não se referia aos cativos que estivessem nos planos inferiores, onde as prisões seriam abertas pelo Cristo. O grande profeta referia-se, em seus vaticínios, aos que viviam sob a tutela de ensinamentos retrógrados, que acreditavam num Deus irado e vingativo, unilateral e injusto. O Mestre veio para libertar os homens que viviam com a consciência obnubilada, sujeitos aos que apregoavam os ensinamentos distanciados da verdade. Foi por isso que Ele proclamou, alto e bom som: "Conhecei a verdade, e ela vos fará livres".

Dois dos evangelistas (Marcos e Lucas), bem como o livro dos Atos dos Apóstolos, afirmam que o Espírito de Jesus subiu aos Céus, decorrido algum tempo após a sua crucificação, mas silenciam, completamente, no tocante à sua descida aos Infernos. Isso é natural pois, não existindo o Inferno como região subterrânea, limitada e localizada, o espírito de Jesus jamais poderia ali descer.

Paulo de Tarso era Judeu e obviamente alimentava a crença na existência dos sete Céus. Prova disso encontramos em sua II Epístola aos Coríntios (12: 1-6), onde ele descreve que conheceu um homem que foi arrebatado até o terceiro Céu, onde ouviu coisas inefáveis.

Tendo nascido na província romana de Tarso, Paulo também portava a cidadania romana, Por conseguinte, não devia desconhecer o dogma sustentado pelo paganismo sobre a existência dos Campos Elísios (lugar de gozo) e do Tártaro ( lugar de sofrimentos) situados nas partes baixas, e do Olimpo (morada dos deuses e dos anjos), situada nas partes elevadas.

Assim sendo, conclui-se que as palavras de Paulo de Tarso, contidas na Epístola aos Efésios (os Efésios eram um povo politeísta, que integrava a comunidade pagã), tinha que ser compatíveis com o conceito que esse povo tinha sobre os lugares de gozo e de sofrimento. Por isso, o apóstolo não falou em "Inferno", em "Hades" ou em "Cheol"; Paulo preferiu falar em partes baixas.

Na realidade, Jesus desceu à Terra, a fim de convocar os homens de boa vontade, que aguardavam a sua vinda como Messias redentor, para liberta-los do cativeiro, do obscurantismo, das superstiçôes e do apego às vãs tradições.

Discorrendo sobre os Evangelhos apócrifos, atualmente desprezados, Léon Denis, em seu livro Cristianismo e Espiritismo, escreveu: "Esses Evangelhos não eram destituídos de valor aos olhos da Igreja, pois que num deles diz Nicodemos que ele vai buscar a crença na descida de Jesus aos Infernos crença imposta a toda a Cristandade pelo símbolo do Concílio de Nicéia, e de que não fala nenhum dos Evangelhos canônicos"

Reiteradamente, Jesus Cristo, ao referir-se aos lugares onde os Espíritos, que foram maldosos na Terra, deveriam expiar parte de suas faltas, falava em Geena, nome aplicado ao Vale de Henon ao Sul de Jerusalém, onde se praticava toda a sorte de idolatria e de imoralidades; mais tarde, as autoridades judaicas transformaram esse local em depósito de cadáveres de animais e de gente, além de detritos da cidade. Geena não era, portanto um lugar situado sob a superfície da Terra, porque apresenta um espetáculo terrível, ali, conforme Jesus diz em (Marcos, 9:47) "o fogo jamais se consumia e os bichos (vermes) jamais deixava de corroer."

Paulo A. Godoy