O DIA DE SÁBADO
E AS TRADIÇÕES

"O Sábado foi feito em contemplação do homem,
e não o homem em contemplação do sábado."
(Marcos, 2:27)

O chefe da sinagoga, indignado por haver Jesus feito uma cura em dia de sábado, tomou a palavra e disse ao povo: "Há seis dias destinados ao trabalho; vinde num desses dias para serdes curados e não nos sábados." O Mestre, respondendo, disse-lhe:

"Hipócritas, qual de vós não deixa de soltar o seu boi ou o seu jumento em dia de sábado, para lhe dar de beber? Por que, então, não deveria eu libertar esta filha de Abraão dos laços com que os Espíritos trevosos a tiveram presa durante dezoito anos?

Os Judeus contemporâneos de Jesus Cristo guardavam os dias de sábado com verdadeiro rigor religioso. Não toleravam que nesses dias se fizesse algo que representasse um esforço, nem que se praticasse nenhuma ação. Era um dia destinado exclusivamente ao descanso.

Por isso, não admitiam ver Jesus curando paralíticos e ordenando-lhes que levassem as camas, nas quais se postavam, nos logradouros públicos, a fim de esmolarem.

O Mestre, no entanto, não encarava as coisas por esse prisma de rigor: permitia que seus discípulos fizessem atos físicos e fazia curas nas praças da cidade; quando porém, admoestado pelos Escribas e Fariseus, ou pelos sacerdotes, dizia: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado", o que significa dizer que a ordenação do descanso nesse dia era meramente uma questão social, a fim de propiciar descanso aos homens, aos animais e aos escravos. Desta forma, o sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para se escravizar aos sábados.

Diante dos protestos dos sacerdotes, Jesus curou, em dias de sábado, um homem que tinha uma das mãos mirrada; um paralítico que jazia num dos logradouros da cidade, e a mulher que, há dezoito anos, vivia curvada, sob a influência de Espíritos malfeitores .

A fim de dar uma mostra do pouco ou nenhum apreço que dava à observância dessa ordenação, o Mestre apelou para uma passagem do Antigo Testamento, quando disse: "Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer, senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam?" (Marcos, 2:25-26)

Desta maneira, o Mestre abominava toda e qualquer espécie de apego às tradições, principalmente aquelas que mantinham o povo acorrentado ao obscurantismo. Esse, aliás, foi um dos escopos do seu advento na Terra: causar a derrocada de tudo o que representasse formas de superstições ou fanatismo, que oferece obstáculo à livre manifestação do Espírito, constituindo entraves à sua evolução rumo a Deus.

Jesus Cristo contrariou muitas das ordenações implantadas por Moisés e contidas no Antigo Testamento: Diante da Mulher Adúltera, passível de apedrejamento, segundo a ordenação de Moisés, sentenciou: "Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecados."

Admoestado pelos Escribas e Fariseus pelo fato de os seus discípulos não lavarem as mãos antes de comerem o pão, o que era uma ordenação severa da época, disse: "O que macula o homem não é o que lhe entra pela boca, mas o que dela sai, os impropérios, a maledicência e as palavras ofensivas."

Infelizmente, algumas religiões do ramo cristão herdaram muitas práticas obsoletas das antigas tradições religiosas. Paulo de Tarso propôs-se combater alguns desses costumes, dentre eles o batismo da água e a idolatria; entretanto, muitos deles prevalecem até o presente.

O Espiritismo, que representa o cumprimento da promessa de Jesus sobre o advento do Espírito de Verdade, vem agora solapar o terreno sobre o qual se fundamentam velhas tradições, esclarecendo os homens no tocante à necessidade de se desvencilharem do obscurantismo, recomendando que adotem a fórmula prescrita por Jesus Cristo: "Conhecei a Verdade e ela vos libertará."

Paulo A. Godoy