O DRAMA DO FILHO PRÓDIGO

"E ele partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente." (Lucas, 15:13)

Quem lê a Parábola do Filho Pródigo, narrada por Jesus em (Lucas, 15:11-32), conclui que não houve maiores preocupações por parte do pai em repartir parte de sua fortuna entre dois filhos, deixando que um deles passasse a viver a própria vida.

Ninguém quase se dá conta da aflição, da angústia, quereria avassalado o coração do pai amoroso, menos pela partilha de seus bens, mas, principalmente, por ver a partida daquele ente querido, que iria enfrentar, em terras longínquas, uma nova vida, sem um rumo certo, e de quem, dificilmente, iria receber notícias. E o desespero da pobre mãe em separar-se daquele filho amado, com quem convivera tantos anos no mais estreito afeto.

Mas o filho, como sucede com tantas criaturas menos precavidas, partiu, jubiloso, para enfrentar um mundo diferente, que, em seu modo de ver, não lhe ofereceria maiores problemas, dado que portava bens materiais que garantiriam uma vida cômoda. Mal desconfiava ele do drama que o agüentava.

Dono de muito dinheiro, não antevia maiores problemas.

Granjeou falsos amigos. Deu decisivo mergulho no mundo das comodidades, dos gozos, das orgias, da intemperança, do descomedimento. Não pôs um freio em seus gastos, não previu um descalabro financeiro; julgou que aquelas comodidades e mordomias jamais teriam fim.

E, como acontece com os insensatos que não constroem a vida sobre a rocha inabalável, o moço distanciou-se da caridade, do amor, da cooperação fraterna; tornou-se avarento, perdulário, edificando sua vida sobre a areia movediça das vantagens transitórias do mundo. Esqueceu-se de Deus e não granjeou amigos sinceros, que viessem a ampará-lo nos momentos difíceis.

Sua intemperança logo obteve resultados negativos. A fortuna esvaiu-se; surgiram as enfermidades motivadas pela alimentação precária. Ficou magro, esquálico, acometido de doenças, e, para poder sobreviver, teve que procurar serviço, o que na época era difícil dada a crise e o desemprego que avassalavam aquela nação. Finalmente conseguiu um emprego para apascentar porcos e tomar conta de um chiqueiro.

Sua fome era tanta que, muitas vezes, desejava comer as bolotas de alimento atiradas aos porcos, mas ninguém lhas dava.

A solidariedade e fraternidade, que reinavam em seu antigo lar, haviam-se transformado num drama. Em vez dos pais e de irmão, ele tinha, agora, como companheiros diuturnos, os animais. O antigo e confortável lar transmudara-se em imundo chiqueiro. A paz de que estava acostumado a desfrutar, era, agora, o barulho a gritaria estridente dos animais, dos quais cuidava.

No entanto, esse sofrimento redundou em arrependimento e remorso, tal qual fantasma aterrador, assolou o seu Espírito.

Lembrou-se, com saudades, do risonho lar, e a dor o levou a refletir melhor.

Voltaria para a casa do pai, pediria perdão, prontificaria a trabalhar como humilde obreiro, em igualdade de condições, os demais assalariados, pois pensava: "Os trabalhadores de de meu pai vivem melhor do que eu aqui."

E tomou a decisão. Voltou para o lar paterno cheio de arrependimento. Entretanto, não houve a decepção que esperava foi recebido com intenso júbilo, com muita alegria. O pai entrelaçou-o contra o coração; ordenou que lhe colocassem, novamente, no dedo o anel de primogenitura; que lhe vestissem a melhor roupa, despojando-o dos andrajos com que viera.

Uma grande festa foi realizada, para festejar a volta daquele filho "que estava perdido e foi achado, que estava morto e reviveu" .

Esta parábola guarda íntima similitude com o que acontece na Terra com as criaturas que se tornam egoístas, perdulárias, avarentas e maldosas. Que esbanjam os talentos que o Pai Celestial lhes confiou para o desempenho da jornada terrena, Que preferem adentrar a porta larga das comodidades terrenas, que são transitórias e invariavelmente conduzem ao descalabro físico e moral.

Quando essas criaturas se arrependem e desejam voltar para Deus, o Pai Magnânimo e Misericordioso jamais as condena às penas eternas porquanto há mais alegria nos Céus por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que perseveram, segundo o dizer judicioso de Jesus Cristo.

Como compensação o Pai lhes concede novas reencarnações regeneradoras, a fim de propiciar-lhes os meios, os modos de aprenderem, em vidas porvindouras, a tornarem-se filhos pródigos diferentes, que sejam pródigos na distribuição de bens morais e espirituais, que compreendam a dor alheia e que procurem antes acumular um tesouro nos Céus, onde os ladrões não roubam e a traça e a ferrugem não consomem.

Paulo A. Godoy