O ÓBOLO DA VIÚVA

"E, estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro,
observava a maneira como a multidão lançava ali o seu
dinheiro, e os ricos deitavam em muito." (Marcos, 12?41)

Estando Jesus Cristo assentado perto da balaustrada do Templo de Jerusalém, observava como a multidão fazia as suas oferendas, depositando moedas de todos os valores na arca do tesouro, também chamada Gazofilácio.

Os ricos da cidade depositavam moedas de grande valor. Os menos aquinhoados pela fortuna ali atiravam moedas de menor valor, e mesmo de valor insignificante.

No fim da fila, uma pobre viúva, com seu filhinho andrajoso e esquálido no colo, pegou das duas únicas moedas que possuía e as jogou na arca do tesouro.

O Mestre viu ali uma bela oportunidade de ensejar um ensinamento de relevante importância. Dirigindo-se aos apóstolos, disse: Ela deu mais do que todos os outros juntos. Os outros deram do que lhes sobejava, mas ela, de sua pobreza, deu tudo o que tinha, mesmo o que era imprescindível para o sustento de seu filhinho.

Acreditamos que, dentre todas as passagens evangélicas, esta é uma que mais se salienta, tal a amplitude do ensinamento que propicia a todos.

Os homens, assoberbados por preconceitos de todos os matizes, e de tendências materiais, julgam que é pelo muito dar que serão recompensados ou atendidos na vida futura. Imaginam mesmo que, quanto maior for o montante da oferta, conseguirão melhormente atrair a atenção e as bênçãos de Deus e dos benfeitores espirituais. De maneira idêntica, acreditam que as pompas e as formalidades ajudarão ainda mais, no sentido de atraírem as benesses dos Céus.

Na Terra, muitos homens estão acostumados a obter tudo a peso de ouro e na razão direta de suas posses materiais, por isso, julgam, com o mesmo gabarito, a justiça de Deus. Acreditam que, quando as ofertas forem bastante generosas, e todos aplaudirem, tocando trombeta pela benignidade de seus corações, também Deus os recompensará na vida futura. Esquecem-se da admoestação de Jesus, de que os que receberem os aplausos na Terra, nada mais lhes será devido nos Planos Elevados da Espiritualidade, os quais se denominam Céus. Esquecem-se de que Deus não se deixa levar por respeitos humanos.

Disse Jesus que o Sol brilha para os justos e para os injustos, e a chuva beneficia bons e maus. O Sol esparge os seus raios vivificantes sobre o monturo e sobre as flores; sobre o casebre e o palácio, sobre os ricos e os pobres; por isso, o Criador de todas as coisas também derrama sua complacência sobre todos porém com muito maior desvelo sobre os doentes da alma, sobre os estropiados do corpo, sobre os lares da miséria, e sobre todos que amargam uma vida repleta de dores e de privações .

A viúva do ensinamento evangélico, tímida, quase que ocultamente, pois somente Jesus e os seus discípulos presenciaram o seu gesto, depositou, na arca do tesouro do Templo, a sua oferenda obscura e insignificante, fruto do seu labor e indispensável para o Sustento de seu pobre filhinho. No entanto, como magna lição, o Mestre considerou a sua oferta superior ao conjunto de todas as demais dádivas que ali foram colocadas pelos abastados da cidade. Ela depositou o que lhe era substancial, ao passo que os outros deram do que lhes sobejava, e que não Ihes fazia falta alguma.

Jesus Cristo recomendou que a esmola deve ser dada ocultamente, de forma que nem a mão esquerda saiba o que faz a direita, o que significa dizer que deve ser feita sem alarde, para não humilhar os que a recebem.

Outrossim, também esclareceu que aquele que dá esmola, mas manda ressoar as trombetas, a fim de merecer os aplausos dos homens, também nada mais lhe resta receber na vida futura, porquanto já recebeu as honrarias peculiares às coisas da Terra. Aqui cabe uma assertiva evangélica: "Aquele que se humilha será exaltado, e o que se exalta será humilhado."

A pobre viúva deu tudo o que possuía de bens materiais: duas moedas das mais insignificantes. Para os homens a sua oferenda foi irrisória, mas para Deus ela foi de valor incalculável, porque o Pai Celestial não leva em consideração o montante da oferta, mas a intenção com que ela é dada. No caso da viúva, ela quis ajudar aqueles que julgava ainda mais necessitados do que ela.

O gesto da pobre viúva representou magnífico exemplo de desapego às coisas da Terra e, concomitantemente, propiciou conhecer, uma vez mais, que o Evangelho é decididamente um repositório de luz e de verdade, o qual veio para iluminar os horizontes do mundo e a mente dos homens.

É sumamente difícil encontrar alguém que se desprende de todo o seu patrimônio, com o objetivo de amparar o seu próximo, porém, mesmo sendo difícil, a História expõe a existência de casos isolados, com especial destaque para a figura venerável de Francisco de Assis, o "poverelo de Assis", e alguns dos seus companheiros.

Aqui cumpre ressaltar que o Evangelho não foi revelado à Terra com o fito de transformar os homens num aglomerado de mendigos; de fato, todos os homens devem amealhar alguns bens com a finalidade de enfrentarem os imprevistos e as necessidades da família, quando atingirem a fase da velhice.

Existe no Evangelho (Lucas, 19:1-9) a descrição da visita que Jesus Cristo fez à casa de um publicano chamado Zaqueu. um homem muito rico que habitava na cidade de Jericó. Ao receber a visita do Mestre, o velho Zaqueu ficou tão eufórico que, numa explosão de júbilo, disse-lhe: "Senhor, hoje mesmo darei metade de minha fortuna aos pobres e restituirei quatro vezes mais àqueles a quem tenha espoliado." Ouvindo isso, Jesus lhe disse: "Zaqueu, hoje entrou a salvação em tua casa."

Vale enfatizar que Zaqueu não deu tudo o que possuía, mas apenas a metade.

Paulo A. Godoy