O ESPÍRITO SANTO

"Deus é Espírito; e em Espírito e Verdade é que o
devem adorar os que o adoram." (João, 4:24)

Sempre houve controvérsias no tocante à interpretação do que seja Espírito, ou Espírito de Deus.

O próprio evangelista Mateus, descrevendo o episódio ocorrido com Jesus às margens do rio Jordão, escreveu: "O Espírito de Deus desceu sobre ele sob a forma de uma pomba", o que implica em dizer que foi um Espírito enviado da parte de Deus. Nada se falou sobre Espírito Santo.

Léon Denis, em sua obra "Cristianismo e Espiritismo", citando Bellemare, diz: "Na versão grega dos Evangelhos e dos Atos, a palavra Espírito está muitas vezes isolada. São Jerônimo acrescenta-lhe a de santo, foram os tradutores franceses da Vulgata Latina que daí fizeram o Espírito Santo."

O dr. F. X. Funk, em sua História Eclesiástica, afirmou que Maomé acusava os cristãos de haverem falsificado os livros santos, principalmente introduzindo a doutrina da Trindade".

No primitivo Cristianismo, nem Jesus, nem Pedro, nem João, nem Paulo jamais cogitaram dessa trilogia, no sentido de ser o Espírito Santo uma das três partes de Deus. Os evangelistas a nada disso se referem. Jesus nunca ensinou que seu Pai tivesse três pessoas distintas numa só, das quais ele seria uma delas.

É fora de dúvida que o termo "Espírito Santo", foi incorporado , traduções dos Evangelhos, não tendo jamais constado dos originais. Isso foi feito com o propósito de servir aos interesses da Igreja, que, no Concílio de Nicéia, realizado no ano 325, e no Concílio de Constantinopla, realizado em 381, havia aprovado o dogma da Trindade, pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo constituem uma só e única entidade. Havia, portanto, necessidade de o assunto ser corroborado pelos livros sagrados, o que, evidememente, lhe daria foros de verdade.

"Os primitivos cristãos comunicavam-se com os Espíritos dos chamados mortos, e deles recebiam ensinamentos. Nenhuma dúvida é possível sobre esse ponto, porque são abundantes os testemunhos. Resultam dos próprios textos dos livros canônicos. textos estes que conseguiram escapar às vicissitudes dos tempos, e cuja au tenticidade é indubitável." (Cristianismo e Espiritismo ¨Léon Denis)

Os Espíritos sempre se comunicaram com os homens. "Foi somente depois da Vulgata que a palavra sanctus foi constantemente ligada à palavra Spiritus, não conseguindo esta junção, na maioria dos casos, senão tornar o sentido mais obscuro e, mesmo, às vezes, ininteligível. Os tradutores franceses e livros canônicos foram ainda mais longe a esse respeito, contribuíram para desnaturar o sentido primitivo. Eis aqui um exemplo, entre muitos outros, lê-se em Lucas (cap. XI), texto grego:

"Aquele que pede, recebe, o que procura, acha; ao que bate se abrirá. Se, portanto, bem que sejais maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos; com muito mais forte razão vosso Pai enviará do céu, UM BOM ESPÍRITO àqueles que lhe pedirem".

As traduções francesas trazem o Espírito Santo. É um contra-senso. Na Vulgata, tradução latina do grego, está escrito Spiritum bonum, palavra por palavra: Espírito Bom. A Vulgata não fala absolutamente do Espírito Santo.

Em (Atos, 21:4), nota-se o seguinte:

"E disseram a Paulo, 'sob a influência do Espírito', que não subisse a Jerusalém."

Certas traduções francesas rezam "sob a influência do Espírito Santo".

Para os Espíritas, o chamado Espírito Santo é a comunidade dos Espíritos puros, a qual executa a vontade de Deus, nos vários campos em que a infinita misericórdia do Pai se esparge. Com a cooperação desse número infindável de amigos espirituais dedicados, Deus está sempre presente em toda a parte e preside a todas as coisas, porque eles são os executores de sua vontade soberana e os arautos que espalham o seu amor sobre todas as Humanidades.

Seria fastidioso transcrever todas as palavras contidas nos Evangelhos, nas quais Jesus demonstra a sua inferioridade em relação a Deus, revelando, a cada passo, ser Seu Filho, que tudo que veio ensinar aos homens havia aprendido do Pai. A subalternidade do Mestre Jesus em relação ao Pai é demonstrada a cada passo:

"A palavra que tendes ouvido não é minha, mas do Pai que me enviou."

"Eu não baixei do Céu para fazer a minha vontade, mas sim a Daquele que me enviou."

"Então Jesus, em alto brado, exclamou: Pai, em vossas mãos deixo o meu Espírito; e, pronunciando essas palavras, expirou."

"Eu subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus." (Aparição a Maria Madalena, após a crucificação).

"E, à hora nona, Jesus soltou um brado, dizendo: Eli, Eli, Lama Sabachthani? Que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que me desamparaste?

"Meu Pai, tudo vos é possível. Afastai de mim este cálice; entretanto, faça-se a vossa e não a minha vontade."

Evidentemente, ninguém pode refutar, jamais, que os primitivos cristãos e mesmo outros, que vieram em todos os tempos, sempre mantiveram íntimo intercâmbio com o mundo espiritual.

Sem falar nos profetas, que eram autênticos médiuns (medianeiros entre o Céu e a Terra), busquemos no próprio Evangelho e no livro dos Atos dos Apóstolos, a comprovação irretorquível da comunicabilidade que sempre existiu entre o mundo invisível e o mundo carnal, ou melhor entre os Espíritos desencarnados e os encarnados.

O apóstolo Paulo, em sua I Epístola aos Coríntios (12:1-11), dá uma orientação segura de como os médiuns devem comportar-se, quando da comunicação de Espíritos, como também em nenhum ponto afirma tratar-se da interferência do Espírito Santo. O apóstolo não desconhecia que Deus é uno, indivisível, eterno, onipotente e onisciente, sendo, portanto, inconcebível que Ele tivesse o seu poder e sua glória partilhados com outras duas entidades.

Na manifestação do Pentecostes (Atos, 2:1-13) a Igreja cita a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e o cumprimento da promessa de Jesus sobre o advento do Espírito de Verdade, do Consolador (João, 14:16-17); no entanto, não hesitamos em enquadrar essa manifestação nas recomendações de Paulo de Tarso, contidas na Epístola já citada, ou seja, no desabrochamento coletivo das mediunidades dos apóstolos, que passaram a falar em vários idiomas, através de uma mediunidade que, no Espiritismo, se chama poliglota.

A manifestação do Dia de Pentecostes não poderia, na realidade, representar o advento do Espírito de Verdade, do Consolador, do Paráclito, porquanto Jesus afirmou que esse advento aconteceria quando a Humanidade estivesse mais bem aparelhada, para compreender os seus ensinamentos, conforme se observa em João (16:12-13): 'Ainda tenho muito a vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas quando vier aquele Espírito de Verdade (não o Espírito Santo), ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir."

No Dia de Pentecostes não foi revelada nenhuma nova verdade. Os apóstolos apenas repetiram, em outros idiomas, aquilo que o Mestre já havia ensinado.

Se os homens não puderam suportar novas verdades, naquela época, não poderiam fazê-la quarenta ou cinqüenta dias, após a crucificação.

O Consolador, ou Espírito de Verdade, viria quase vinte séculos após, com a revelação da Doutrina Espírita.

No Pentecostes ocorreu apenas uma intensa manifestação de Espíritos do Senhor, ou de uma comunidade de Espíritos puros, nada tendo que ver com a tão decantada terceira pessoa da Divindade, criada três séculos após o advento do Cristianismo, por um ou dois barulhentos concílios.

Paulo A. Godoy