ONDE VOCÊ PASSARÁ A ETERNIDADE ?

"E, então, dará a cada um de acordo com as suas obras." (Mateus, 16:27)

Um folheto distribuído por uma Igreja Evangélica, com título "Onde você Passará a Eternidade?" após descrever que desencarnam, na Terra mais de 85.000.000 de pessoas por ano, informa o seguinte:

Na eternidade a alma apenas se depara com dois lugares distintos, entretanto, apesar de serem eternos eles são definidos e não há qualquer espécie de comunicação entre eles. Após a morte do corpo não há qualquer possibilidade de se salvar a alma, também não é possível passar do Céu para o Inferno e nem do Inferno para o Céu. De nenhum desses dois lugares se voltará ao mundo.

Afirma ainda o opúsculo, que Jesus Cristo é o único caminho que conduz ao Céu. Para se atingir esse páramo de luz não existe outro modo, nem igreja, nem boas obras, nem justiça própria, nem batismo e nenhuma coisa semelhante.

Referindo-se ao chamado "Bom Ladrão", mencionado no Evangelho de Lucas (23:39-43), o opúsculo sustenta que ele não passou por nenhum lugar intermediário. Removido da cruz acompanhou Jesus ao Paraíso. Para isso não houve necessidade de batismo, de reencarnações, de Igreja nem de boas obras.

Quão distanciados são estes preceitos daqueles ensinados pelo Espiritismo!

A Doutrina Espírita ensina que não existem lugares definidos ou circunscricos para gozo ou sofrimenco do Espírito. Os sofrimentos experimentados pelos espíritos transgressores são de caráter transitório, pois, segundo o judicioso dizer evangélico, "o Pai não quer que nenhuma de suas ovelhas se perca." O Espírito sofre as conseqüências dos seus próprios erros, porém, tão logo se arrependa de suas faltas, abre uma porta para a prática do bem e, através de reencarnações depuradoras, poderá merecer acesso aos lugares de gozo, prometidos por Jesus no Sermão da Montanha. Nenhum Espírito permanecerá eternamente no estado de sofrimento. Poderá demorar na prática do mal, mas, um dia, o ferrete da evolução, usando o sofrimento como instrumento, obrigará a retomar o caminho certo, acompanhando a lei do progresso incessante dos Espíritos.

Ademais, o Espírito é eterno e sofre apenas quando erra, porquanto o Pai deseja que todos os seus filhos sejam bons, sábios, misericordiosos e que se aproximem o mais possível da perfeição. Há uma lei de Causa e Efeito, e por ela se conhece que os desvios cometidos requerem reajustes, e o sofrimento é o veículo usado pela Justiça Divina para conduzir o Espírito ao caminho do bem.

Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim." Mas isso não significa jamais que basta crer nele. É preciso fazer obra de cristão, ser misericordios, bom, compassivo, brando, tolerante e, sobretudo, praticar boas obras. É preciso viver os ensinamentos do Mestre, aplicando-os na vida de relação.

O Inferno não existe nos moldes como é apregoado pelas religiões, ou seja, um lugar terrível, circunscrico, onde chamados diabos, sob a égide do utópico Satanás, atormentariam as almas pecaminosas por toda a Eternidade. É preferível dizer que o Inferno é um estado consciencial, pois o Espírito dependendo do caminho pelo qual enverede, poderá vive estado de paz, de tranqüilidade, ou de revolta e intemperança; poderá criar seu próprio inferno, e viver naquele que escolheu, ainda que esteja encarnado na Terra.

O Espírito, que se distanciou do caminho do bem, sofre temporariamente, ao ser submetido a um processo expiatório; porém, através de novas provas e das vidas sucessivas, se reajusta ao quadro da Justiça Divina, passando, então, a desfrutar das benesses espirituais reservadas aos que procuram o aprimoramento moral, ou seja, a reforma íntima, que lhe propiciará meios de aproximar-se cada vez mais de Deus.

Seria tremenda aberração acreditar que, após a morte do corpo, ninguém poderá salvar a sua alma. Isso seria atentatório à misericórdia infinita do Criador, que "faz o sol brilhar para os bons e para os maus, e a chuva beneficiar justos e injustos." A morte do corpo jamais sela o destino da alma, porquanto, através das reencarnações sucessivas, Deus lhe estará concedendo tantas e quantas oportunidades necessárias ao seu aprimoramento.

De forma idêntica, seria clamoroso atentado contra a Justiça de Deus, afirmar que o Espírito desencarnado não poderia jamais voltar a este mundo, para ver e visitar seus parentes e amigos que aqui ficaram. Os mundos material e espiritual são solidários, existindo um perfeito intercâmbio entre encarnados e desencarnados. Isso sucedeu e continuará ocorrendo em todas as épocas da Humanidade.

É mister também esclarecer que é destituída de veracidade a afirmação, contida naquele folheto, de não ter tido o Espírito do chamado "Bom Ladrão" qualquer parada em lugar intermediário, indo da cruz para o Paraíso, na companhia de Jesus. Embora o Mestre lhe tenha dito: "hoje mesmo estarás comigo no Paraíso", isso não significa, em absoluto, que o "Bom Ladrão" tenha acompanhado Jesus, pois um Espírito naquelas condições, que havia enveredado pelo caminho do mal, atentado contra as leis dos homens, que havia sido condenado a morrer crucificado, devido a praticar atos passíveis de condenação, não estava apto a acompanhar o Espírito de Jesus, o maior Missionário que veio à Terra, o Filho Ungido de Deus.

O arrependimento do "Bom Ladrão" fez com que ele descortinasse novos horizontes, pois o remorso é a antecâmara do arrependimento, e este representa eficiente veículo para conduzir a criatura a um processo de reforma íntima. Após ter reconhecido os seus próprios erros, e também sentido na própria alma o drama vivido por Jesus, um inocente, passando pelo hediondo sacrifício da cruz, o "Bom Ladrão" reencontrou-se consigo mesmo, e, obviamente, nas reencarnações posteriores. sentiria um "paraíso" dentro do seu próprio coração, caminhando, sem vacilação, no caminho do bem.

Consta ainda do aludido folheto, que nem toda a maldade que reside no coração do homem, nem o pecado que amarga o seu coração serão óbices para que ele ganhe os Céus, após a desencarnação, sendo suficiente apenas que acredite em Jesus Cristo, pois só assim ele terá a certeza de que ele viverá toda  eternidade na presença do Pai Celestial.

Puro engano, pois isso desmentiria o próprio dizer de Jesus: "A cada um será dado de acordo com as suas obras" (Mateus, 16:27). O Mestre não disse a cada um segundo a sua crença, ou segundo a sua fé. Para alcançar as regiões celestiais é imperioso não ter maldade alguma no coração e praticar boas obras. À reencarnações tornam-se necessárias, para que o bandido de hoje se transmude na criatura santificada do amanhã. Disse o apóstolo Paulo que "Transformados seremos todos."

Em resumo, o Espírito imortal não passará a Eternidade maneira estática, ouvindo o mavioso coro dos anjos ou cantando hosanas a Deus. Ele passará a Eternidade trabalhando sem cessar aperfeiçoando-se, e cooperando na grandiosa obra de Deus; então, torna-se importante lembrar o dizer de Jesus: "O Pai jamais deixa de atuar um só instante." Ora, se o Criador trabalha incessantemente, por que razão as suas criaturas passaram toda a Eternidade em estado de contemplação beatífica, mergulhadas em incrível e cansativa ociosidade?

Indagando de um sábio oriental sobre o que seria um minuto na Eternidade, ele retrucou:

Suponhamos que haja um rochedo, com cem metros de altura, cem metros de largura e cem metros de comprimento, um bloco monolítico enorme.

A cada século repousa sobre ele um passarinho e nele limpa o seu bico. Quando tiver gasto todo o rochedo, de tanto o passarinho limpar o bico, e ele vem a cada cem anos, terá decorrido um minuto na Eternidade.

Paulo A. Godoy