PÃO E VINHO - CARNE E SANGUE

"Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida." (João, 6:55)

Existem duas regras distintas para a interpretação dos ensinamenros bíblicos: pela Hermenêutica e pela Exegese.

A Hermenêutica é a Ciência de interpretar as palavras no contexto da Escritura, ou seja, explicar o texto sagrado segundo as leis ordinárias da linguagem, objetivando o encadeamento das idéias e das proposições do autor.

A Exegese é a arte de expor e comentar as lições das Escrituras, analisando as palavras santas com o emprego do sentido literal, e, quando conhecido, do sentido espiritual, podendo-se, também, incluir o sentido anagógico.

As palavras de Jesus Cristo, contidas no Evangelho segundo João (6:55), são um tanto estranhas, e muito difícil se torna a sua interpretação à luz da Hermenêutica, que não admite a fuga do contexto da narrativa. Deste modo, é imperioso que tais palavras sejam interpretadas pela Exegese, buscando-se o seu sentido literal e espiritual.

A carne é matéria inerte, e o sangue é o fluxo que lhe dá e impulsiona a vida. Deixando de receber o fluxo do sangue, a carne morre. Foi por isso que o Mestre disse: "O Espírito vivifica, a carne para nada aproveita", devendo-se aqui a carne representar a letra que mata, e o sangue o Espírito que vivifica.

Ao discorrer sobre a sua carne e o seu sangue, o Mestre se referiu à forma da letra e ao sentido espiritual dos seus ensinamentos, ou seja, a simples leitura dos preceitos por ele ensinados, por si só, não é o suficiente para conduzir o homem à sua redenção espiritual; torna-se necessário que esses ensinamentos sejam bafejados pelo Espírito vivificador dos seus preceitos.

Conseqüentemente, quando Jesus falou sobre o pão e o vinho, conforme o fez por ocasião da última ceia, é evidente que o pão significava as letras da sua Doutrina, e o vinho o Espírito que vivifica esses mesmos ensinamentos contidos nela.

Muitas pessoas lêem o Evangelho e se apegam à sua letra não se importunando com o significado real do pensamento de Jesus. É imperioso tomar conhecimento do sentido literal das suas palavras para que possam ser vividas, com exemplos, vivos, na vida comum de todas as criaturas.

Aquele que somente lê, mas não pratica o que aprende permanece morto para as coisas de Deus, porque não há um despertamento; mas aquele que lê, analisa, procura interpretar e viver aquilo que aprendeu, estará exteriorizando a sua vontade de permanecer vivo para as coisas de Deus. Foi por isso que Mestre asseverou: 'Aquele que crê em mim, ainda que este estiver morto, viverá". Entretanto, aqui cumpre ressaltar que não basta crer em Deus ou em Jesus, é preciso viver o que aprendeu.

Os setenta e dois discípulos de Jesus, que haviam feito coisas espantosas e expulsando maus Espíritos, quando ouviram as palavras de Jesus sobre a necessidade de comer a sua carne e beber o seu sangue, disseram: duro é esse discurso, quem o pode ouvir? E o abandonaram (João, 6:60). Deste modo, preferiram uma vida fácil e cômoda, em vez de encargos e responsabilidades.

Eles não assimilaram a necessidade de assumir tamanho compromisso, pois comer a carne e beber o sangue de Jesus significava um convite ao trabalho e à reforma íntima. Comer a carne é conhecer o conteúdo de sua Doutrina, mas beber o sangue é muito mais significativo, pois representa a assimilação e vivência dessa mesma Doutrina.

Seguir o Mestre em suas peregrinações e ouvir as suas palavras não era o bastante. Tornava-se mister a transformação do homem velho, das antigas tradições, no homem novo das idéias novas e progressivas, alicerçadas sobre as coisas espirituais e a vida futura. A vivência dos ensinamentos do Mestre transforma o homem em luzeiro, dando-lhe o potencial para poder contribuir na portentosa obra de iluminação dos Horizontes do mundo.

Aquele que se predispuser a viver os ensinamentos de Jesus, poderá defrontar-se com o imprevisto de também ter que carregar uma cruz e de escalar as escabrosas veredas de novos Calvários, de tragar taças de amargura e de submeter-se se novos batismos de fogo.

Na verdade, parte dos setenta e dois discípulos considerou tudo isso muito pesado. Não era tarefa para eles, por isso, preferiram abandonar o Mestre, perdendo, assim, a invulgar oportunidade de seguirem as suas pegadas e de se aproximarem mais de Deus.

O fato de ter Jesus afirmado: Se não comerdes da minha carne e não beberdes do meu sangue, não tereis vida em vós, levou os antigos teólogos a travarem acesas disputas e manterem prolongadas controvérsias, no século IX, e a interpretarem as palavras do Mestre segundo as regras de Hermenêutica, o que os levou à criação do dogma da Transubstanciação, ou da Presença Real.

Através desse dogma esdrúxulo, o pão e o vinho foram transmudados em carne e sangue de Cristo, na chamada eucaristia. Tudo isso por causa da tendência dos teólogos em interpretarem as palavras de Jesus somente pelo aspecto da Letra que mata, desprezando o Espírito que vivifica.

Nos tempos do Cristianismo primitivo, ao comemorar-se a última ceia, por ocasião da Páscoa, e mesmo em outros cerimoniais religiosos, o pão era repartido com todos os presentes, e o cálice de vinho era passado de boca em boca. Mais tarde, essa prática evoluiu para pior, criando-se a hóstia para substituir o pão, e o vinho passou a ser ingerido apenas pelo sacerdote oficiante, como ainda acontece até os tempos presentes.

É evidente, pois, que as palavras de Jesus Cristo passaram a ter um significado bem diverso daquele que ele ensinara. Se no Evangelho de João (6:64), o dizer de Jesus foi: "O Espírito é que vivifica, a carne para nada aproveita, as palavras que vos digo são Espírito e Vida", os homens materializam os preceitos evangélicos, fazendo com que estes se constituíssem numa forma de ritualismo inconsistente e bem distanciado do objetivo que Cristo havia apregoado.

Alguns anos após o advento de Jesus, foi criada a tese: que "na eucaristia estão, sob as aparências do pão e do vinho inteiramente a mesma carne e o sangue do Cristo." Posteriormente. após muitos protestos e discussões, foi aventada a teoria de que "a presença do Cristo na eucaristia era espiritual". Entretanto, chegou-se mesmo a apregoar que a eucaristia sofre, do mesmo modo que os outros alimentos, ação digestiva", opinião essa que desde o século XI se designou: nome de Estercoranismo. Eram tantas as opiniões que um Sinodo realizado em Tours, no ano 1054, proclamou que "o pão e o vinho, depois da consagração no altar, se transformavam em corpo e sangue do Cristo". (História Eclesiástica, do dr. F. X. Funk).

O Espiritismo nos ensina, porém, que o arcabouço da Doutrina Cristã está alicerçado sobre os Evangelho e os ensinamentos contidos nos Evangelhos são Espírito e Vida, nada tendo que ver com essas interpretações inconsistentes, criadas pelos homens e que somente servem para manter a Humanidade acorrentada a dogmas férreos, retardando a sua ascensão espiritual rumo ao Criador de todas as coisas.

Paulo A. Godoy