PENAS ETERNAS

"Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos." (Mateus, 25:41)

"E irão para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna." (Mateus, 25:46)

"Eu vim, não para julgar o mundo, mas sim os pecadores." (João, 12?47)

"Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á." Lucas, 11:10)

"Por mim mesmo juro - disse o Senhor Deus - que nâo quero a morte do ímpio, senão que ele se
converta, que deixe o mau caminho, e que viva." (Ezequiel, 33:11)

"Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei." (Mateus, 11:28)

Estas citações têm o objetivo de discorrer sobre o absurdo dogma das penas eternas, dogma esse sustentado por algumas teologias terrenas, que ainda não se capacitaram do incomensurável amor de Deus pelas suas criaturas.

Se nos Enngelhos existem algumas passagens que parecem corroborar esse dogma, como as palavras contidas em (Mateus, 25-41 e 46), todos os evangelistas e muitos profetas, inclusive Ezequiel, demonstram de forma abundante que "Deus não quer a condenação do ímpio, mas que, através das reencarnações, ele se decida a enveredar pelo bom caminho e se redima."

Se os Evangelhos, de forma unânime, sustentam que Jesus Cristo veio para salvar o mundo, livrando-os dos pecados, como conceber a validade de dogmas que contrariam, frontalmente essas afirmações?

Como é admissível conceber a idéia de um Pai que demonstra o mais vivo amor para com seus filhos, a ponto de enviar o seu Filho amado para, através do supremo sacrifício no Calvàrio, demonstrar toda a existência de penas eternas irremissíveis?

A afirmação de Jesus, quando disse "haver mais alegria nos Céus por um pecador que se regenera, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento", é o mais insofismável desmentido às suposições absurdas sobre a existência de seres devotados eternamente à prática do mal e de lugares circunscritos e limitados para a aplicação de penalidades sem remissão.

Como admitir a idéia de um Pai que coloca seus filhos em vários planos de aprendizagem, para, face ao menor deslize, condená-los, de forma inapelável, às tenebrosas penas eternas num horripilante inferno chefiado por um arguto e despótico "príncipe dos demônios", que viveria fazendo perenes afrontas ao Criador de todas as coisas? A Justiça Divina, em tais circunstâncias, seria defectível e facilmente sobrepujada pela precária justiça dos homens, que, em muitos casos, propicia o "sursis" e concede aos réus a oportunidade de novas experiências.

Se os pais, aqui na terra, apesar de suas imperfeições, sabem dar boas dádivas a seus filhos, e se estes transgridem suas ordenações, não lhes negam a oportunidade de um novo começo, como negar a deus - Perfeição Absoluta - a concessão das mesmas regalias? Aliás, Jesus, em um dos seus ensinamentos, corrobora esta assertiva.

O Espiritismo, que surgiu na Terra com o objetivo de restaurar as primícias do Cristianismo, não pode pactuar com doutrinas que, embora sendo cristãs, apresentam um Deus unilateral, vingativo, rancoroso e despótico, em flagrante contraste a tudo o que o Mestre veio ensinar à Humanidade. O progresso humano não mais comporta postulados retrógrados, que objetivam manter os homens acorrentados às férreas cadeias de dogmas esdrúxulos, verdadeiros resíduos de crenças antigas que já não têm mais a sua razão de ser.

Quando o apóstolo atesta que "O amor cobre a multidão de pecados", é incisivo na demonstração de que qualquer falha humana pode ser redimida pela prática das leis do amor, anulando, assim, os conceitos de penas eternas, de inferno geograficamente localizado e habitado por legiões de seres que vivem eternamente voltados à prática do mal e que persistentemente atormentam as almas dos homens que expiam nas chamas infernais o "crime" de terem sido criadas frágeis e sujeitas a quedas.

Deus criou o homem no estado de simplicidade e ignorância, situando-os nos vários planos de aprendizagem, a fim de se despojar das imperfeições e, através dos séculos, com os recursos das vidas sucessivas, do Espírito na carne, ser guindado à situação de e Espírito puro, angelical.

A Doutrina Espírita apresenta Deus em toda a sua magnitude, revestido dos seus verdadeiros atributos de Pai de amor, de misericórdia, de justiça e de perdão. O Espiritismo não nega as penalidades futuras, aplicadas aos Espíritos que transgridem as leis de Deus; pelo contrário, confirma-as. O que, entretanto, não aceita é essa penalidade revestida de caráter eterno e a existência de Inferno localizado e circunscrito. Seja qual for a duração da penalidade aplicada na vida futura, ela terá o seu epílogo, próximo ou remoto. A alma tem sempre a oportunidade ímpar de reencetar a caminhada rumo à sublimação.

"O Pai não quer que nenhuma de suas ovelhas se perca."

Paulo A. Godoy