QUENTE OU FRIO?

"Eu sei as tuas obras, porque nem és frio nem quente; oxalá, foras frio ou quente !
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca."
(Apocalipse, 3:15-16)

Ser frio ou quente, porém, nunca ser morno. Eis uma expressão de Jesus Cristo, dita através do vidente de Patmos, e inserta no Apocalipse, que equivale a dizer: "Que o vosso dizer na Terra seja sim, sim; não, não; pois tudo o que passa disso é de procedência maligna."

Com isso, o Mestre deixou bem claro que quente é o que se dispõe a segui-Lo com resolução, decidido a tomar sobre seus ombros a tarefa de propugnar pela disseminação do Evangelho, sem preocupar-se com os percalços do caminho e sem tergiversar com o erro e com a mentira.

O discípulo que assim procede deve ser sempre cioso de seus deveres, jamais pactuando com os interesses rasteiros do mundo, tornando-se um paladino das verdades evangélicas, erguendo bem alto o estandarte das verdades eternas e de tudo que diz respeito às coisas espiritualizantes, que dignificam o indivíduo, fazendo com que sua alma se aproxime cada vez mais de Deus.

Ser quente é esposar um ideal sublimado, lutando por esse ideal, mesmo que isso signifique perseguições, incompreensões padecimentos de todos os matizes. É espalhar a caridade e o amor, fazendo com que a fé se torne inquebrantável, solidamente alicerçada sobre o conceito do "Amar a Deus sobre todas as coisas, amando ao próximo como a si mesmo."

Ser frio, pelo contrário, é mostrar-se indiferente a qualquer ideal nobre, mesmo que este seja fundamentado sobre a verdade e tenha-se originado de fonte divina, não demonstrando nenhuma disposição para a luta, ou nenhum interesse pela sua implantação. Prefere, antes, dedicar-se às coisas de ordem puramente material, repelindo todo e qualquer incentivo às coisas que enobrecem e elevam as almas para Deus.

Ser frio é mancomunar-se com a mentira, com o engodo, com as idéias retrógradas que se alicerçam sobre o obscurantismo, sobre a superstição e o fanatismo. É o indivíduo que recalcitra contra a vontade de Deus, que envereda por caminhos dúbios investindo contra os que defendem as causas nobres e dignificantes.

Ser morno é o cego que não quer ver. É o indivíduo que se encastela num meio-termo incompreensível, hesitando diante das lutas redentoras, estacionando no tempo e no espaço malbaratando uma existência preciosa, e, em vez de assim qualquer ideal, prefere ficar inativo diante dele, recolhendo-se num marasmo inqualificável. É o homem ocioso que despreza as mais belas oportunidades de soerguimento para o seu Espírito.

É aquele que Jesus Cristo qualificou de condutor cego, procura guiar outro cego. É aquele que coloca pesados fardos nos ombros de seu semelhante, mas ele nem com os dedos toca-los. É aquele que se mancomuna com as torpezas e imposturas, e combate os ideais nobres, deixando, assim de ser quente ou frio, tornando-se morno e passível de ser vomitado pela boca, porque suas obras são más.

Ser morno é aquele que combate os expoentes da verdade que prefere viver mergulhado na mentira, esposando idéias exóticas, de natureza profundamente humana.

Os Evangelhos nos propiciam exemplos que são incisivos na demonstração de pessoas que se tornaram paradigmas para essas três situações.

Paulo de Tarso, João Batista, Maria Madalena e outras figuras de projeção, que tomaram parte saliente na grandiosa obra da revelação do Cristianismo, foram os quentes que enfrentaram, resolutamente, todas as situações, mesmo as mais incômodas e perigosas. Indivíduos que, confiantes na missão redentora de Jesus Cristo, venceram o convencionalismo do mundo e não trepidaram mesmo diante das incompreensões, das ameaças e das maiores iniqüidades.

Frios foram os setenta e dois discípulos de Jesus, os quais desertaram da luta, quando foram convocados para um trabalho edificante. Esses homens deixaram de seguir o Mestre, ao ouvirem um discurso no qual eram concitados a assumir encargos, responsabilidades no desempenho de um apostolado que os projetaria na eternidade, como lídimos expoentes de uma causa nobre. Foram os frios que, embora tomando conhecimento da grandiosidade de um ideal, preferiram, antes, as comodidades da vida terrena, repelir a idéia de uma existência cheia de percalços, de encargos, que, em contrapartida, os aproximaria mais de Deus.

Mornos foram os Escribas, os Fariseus e os sacerdotes do tempo de Jesus, que não vacilaram em combater uma Doutrina que vinha de Deus, em cumprimento ao vaticínio dos profetas, que trazia em seu bojo a mais viva demonstração de uma verdade insofismável, cujo principal objetivo era e é de iluminar os horizontes sombrios do mundo, banindo as trevas do escurantismo e do apego às vãs tradições, libertando o homem, através do conhecimento da Verdade.

Paulo A. Godoy