RESPONDE O FILHO PELA INIQUIDADE DO PAI

"E então dará a cada um segundo as suas obras." (Mateus, 16:27)

O que tem levado algumas religiões a aceitarem a teoria do resgate, pelos filhos, das transgressões praticadas pelos pais, é a deturpação de um trecho do Primeiro Mandamento, deturpação essa que teve por escopo principal corroborar a incrível teoria da unidade da vida do Espírito no corpo físico, em contraposição à misericórdias lei das vidas sucessivas.

O trecho final do Primeiro Mandamento do Decálogo, nas traduções mais antigas da Bíblia, tem o seguinte teor:

Eu sou o Senhor Deus, sou Deus zeloso que puno a iniqüidade dos pais nos filhos na terceira e quarta geração, daqueles que me aborrecem; e uso de misericórdia até milhares de gerações daqueles que amam e guardam os meus mandamentos. (Êxodo, 20:5-6)

As traduções feitas pelas Igrejas Católica e Protestante, com o objetivo de dar validade à teoria da unicidade das existências, alteraram o texto e, em vez de escreverem "na terceira e quarta gerações", escreveram "até a terceira e quarta gerações", o que modifica, substancialmente, o sentido do mandamento.

Com tal adulteração, a Justiça Divina revela-se monstruosa, pois que filhos, netos, bisnetos e tetranetos inocentes teriam que receber penalidades pelas transgressões dos pais, avós, bisavós e tetravós.

A forma correta, já reproduzida em algumas versões mais recentes, mostra que a Lei ensina, de modo velado, a Reencarnação e as expiações e provas. Na primeira e segunda gerações, como contemporâneos de seus filhos e netos, o Espírito culpado ainda não reencarnou, mas, um pouco mais tarde - na terceira e quarta gerações - já ele voltou e recebe as conseqüências de suas faltas. Desta maneira, o próprio culpado, e não outrem, paga os seus débitos.

Devem-se, portanto, excluir a primeira e a segunda gerações, e expressar na terceira e quarta gerações.

Não bastasse o absurdo dogma do Pecado Original, pelo qual as Humanidades de todas as épocas teriam ficado contaminadas pelas "transgressões" cometidas há milhares de anos por um utópico casal denominado Adão e Eva, e agora, nos séculos em que vivemos, surge essa afirmação errônea de que os filhos, netos, bisnetos e tetranetos, além de outros das linhagens seguinte expiariam as faltas de seus pais.

Ninguém assume os pecados de outrem. Para destruir todo o amontoado de crenças desse gênero, bastam as palavras de Jesus Cristo: "A cada um será dado segundo as suas obras." (Mateus, 16:27)

Aparentemente, os Judeus, contemporâneos de Jesus também concebiam a idéia de que os filhos sofressem conseqüências das transgressões dos pais, pois vemos em (João, 9:1-3) que os apóstolos, ao se defrontarem com um cego de nascença, perguntaram ao Mestre: "Rabi, quem pecou para que esse homem nascesse cego, ele ou seus pais?" Ao que Jesus respondeu: "Nem ele pecou, nem seus pais, mas foi assim para que nele sejam manifestadas as obras de Deus."

Obviamente, a indagação também dava a entender que os apóstolos acreditavam na Reencarnação, daí a pergunta: "Quem pecou, ele ou seus pais?" Se tivesse sido ele o pecador as transgressões somente poderiam ter acontecido em existências anteriores. Se fossem os pais, o filho estaria arcando com as conseqüências das suas transgressões, o que é incompatível com a magnânima justiça de Deus. Mas o Mestre desanuviou a mente dos apóstolos: "Ele havia nascido cego, para que nele fossem manifestadas as obras e o poder de Deus."

Paulo A. Godoy