RESSURREIÇÃO DA CARNE

"E se quereis dar crédito, este é o Elias que havia de vir." (Mateus, 11:14)

As teologias terrenas sustentam o dogma da Ressurreição da Carne, apregoando que a alma não é completa sem o corpo.

Segundo essas concepção, no final tempos, haveria um julgamento coletivo de todas as almas: as escolhidas retornariam a seus corpos carnais e entrariam, de maneira eterna, no gozo das delícias do Paraíso; as almas más, recalcitrantes, por seu turno, também retomariam seus antigos organismos físicos, porém passariam a viver eternamente nos suplícios das chamas de um utópico Inferno.

Como decorrência, o dogma da Ressurreição da Carne passou a ser um enigma, um fantasma aterrador, a tirar o sono dos menos avisados. Na realidade, esse dogma se constituiu num princípio absurdo e mesmo atentatório à magnificência da Justiça Divina. Acreditar na verossimilhança desse dogma é o mesmo que aceitar as teorias absurdas das criação do mundo em seis dias, pois Deus teria que retirar das cinzas os elementos imprescindíveis para recompor todos os bilhões e bilhões de corpos de homens e de mulheres que habitaram e habitam o mundo, desde os primórdios de sua criação.

Assim como a Ciência prova, hoje, que os seis dias da criação do mundo representam seis longos períodos geológicos, o espiritismo vem revelar a Lei da Reencarnação, que derroga, que suplanta, com superioridade, o dogma da Ressureição da carne, substituindo-o por uma doutrina muito mais eqüitativa, justa e compatível com a onipotência e onisciência do Criador de todas as coisas.

Segundo essas mesmas teologias, o homem vive uma só vez.

Após essa vida, será submetido a dois julgamentos: um logo após a morte, chamado Juízo Particular e outro no fim do mundo, chamado Juízo Universal, ou Juízo Final.

Depois do primeiro, as almas vão, diretamente, para o Céu, onde "gozam a vista de Deus e todos os bens, sem mistura de mal", ou para o inferno, onde, ao contrário, "sofrem a privação da vista de Deus, o fogo eterno, e todos os males, sem mistura de bem". Apregoa, ainda, uma das religiões, que as almas que tenham apenas pecados veniais, permanecem por algum tempo em uma estação intermediária, a que se convencionou denominou Purgatório, antes de serem recebidas no Céu. Segundo algumas religiões, a fé é o fator básico para se determinar se a alma vai para o Céu; segundo outras, prevalecem as boas obras.

Ora, se o julgamento particular (que se diz feito pelo próprio Jesus Cristo, ou por seus prepostos, sob suas vistas, o que elimina qualquer eventualidade de erro, injustiça ou falha, é irreversível, qual a necessidade do Juízo Universal?

Não existe uma explicação lógica para isso, senão o fato de constituir o Juízo Final um determinador para a religação almas aos respectivos e antigos corpos, que ressuscitarão no dia, a fim de, juntos, fluírem as delícias do Paraíso, se foram bons e virtuosos, ou amargarem os incríveis horrores do Inferno caso tenham sido maldosos e obstinados no erro.

É incompreensível considerar o corpo co-responsável pelos atos da alma, devendo como tal compartilhar da sua sorte ou desditosa. Por outro lado, também é inadmissível ter que ficar esperando o fim do mundo para essa finalidade. O mais incongruente ainda é a indagação: por que precisaria a alma de um grosseiro organismo material para habitar as regiões celestiais, onde tudo deve ser sublimado? Não serviria ele senão para embaraçar os seus movimentos e embotar-lhe as percepções? Não representaria, também, um requinte de crueldade, da parte de Deus, ressuscitar os despojos materiais de uma alma com a finalidade de aumentar seu suplício?

Diante de tantas incongruências, a Lei da Reencarnação se revela em toda a sua plenitude e excelência, atestando que tudo Universo se rege pela sábia Lei da Evolução. Através dessa lei, passamos a conhecer que a alma necessita de muitas e muitas reencarnações, para que se processe a sua sublimação, porquanto seria impossível, numa única e curta existência de alguns meses ou anos, a alma atingir a plenitude do seu progresso, condição dispensável, a fim de que possa gravitar para as regiões eternas Plano Maior, isso sem o corpo somático, que, destruído pela voragem dos tempos, entrou em decomposição e já serviu para a formação de outros organismos, tendo-se em conta que "tudo se transforma e nada se perde na Natureza".

A Doutrina Espírita é muito mais lógica ao explanar essa Jestão. A Lei da Reencarnação se sobrepõe, com superioridade, Dogma da Ressurreição da Carne. A alma, criada para a perfeição, não terá tantas e quantas vidas para tentar o seu aperfeiçoamento; terá tantas e quantas vidas forem necessárias, para pode atingir a sua sublimação.

Após cada encarnação, segue-se o respectivo julgamento consciencial, com alegrias ou sofrimentos inerentes aos resultados positivos ou negativos dessa alma. Após novos preparativos, virão outras reencarnações, objetivando o resgate dos débitos contraídos, perante a Lei, e o conseqüente reajuste, perante a Justiça Divina. Nessas novas encarnações novas aquisições serão sublimadas, e de degrau em degrau, na imensa escala evolutiva, a alma ascenderá na escalada do progresso espiritual a fim de que um dia possa fazer parte do imenso rebanho que obedecerá à voz de um só pastor.

A alma é imortal. Foi criada por Deus em estado de simplicidade e ignorância, e na pauta das vidas múltiplas, se elevará à condição de poder desfrutar de todos os bens, sob as vistas paternais de Deus.

O próprio Jesus Cristo corroborou, em várias passagens evangélicas, que os homens vivem muitas vezes. Ele fez isso no diálogo com Nicodemos e nas reiteradas afirmações de ter sido João Batista a reencarnação do Profeta Elias. (Mateus, 11:14)

Outra confirmação importante, exarada pelo próprio Mestre, está contida em João 17:5 "Glorifica-me, Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tive contigo, antes que o mundo existisse." Isso derroga a afirmação de que a alma é criada concomitantemente com o corpo.

Disse o Mestre que "nenhuma ovelha se perderá", o que só por isso, anula os dogmas das penas eternas e das condenações para o Inferno.

Paulo A. Godoy