TERIA O CHAMADO BOM LADRÃO
IDO PARA O PARAÍSO?

"E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino.
E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso."
(Lucas,23:42-43)

Teria o Espírito imperfeito do chamado Bom Ladrão ido para o Paraíso, juntamente com o excelso Espírito de Jesus Cristo? Ele apenas proferiu algumas ligeiras palavras de simpatia, e será que isso teria sido o bastante para ele adentrar as alcancoradas regiões celestiais, da mesma maneira como o fez Jesus Cristo?

A Doutrina Espírita ensina que apenas os Espíritos puros, que já atingiram elevado índice de perfeição, terão acesso a essas elevadas regiões.

Entretanto, houve uma promessa emanada de Jesus: "Hoje estarás comigo no Paraíso", e é evidente que o Mestre, pendurado no madeiro infamante, não poderia jamais formular uma promessa em vão. Por isso, como acontece com numerosos ensinamentos de Jesus, cumpre extrair-se dessa passagem evangélica o sentido alegórico que ela encerra, interpretando-a não pela letra que mata, mas pelo Espírito que vivifica.

Viver no Paraíso ou nas regiões umbralinas é simplesmente um estado consciencial.

Um indivíduo que vive em constante estado de revolta, que pratica toda a sorte de maldades, que menospreza os mais comezinhos princípios de bondade e de amor, que espanca esposa e filhos, que se embriaga ou se chafurda nos vícios, que alimenta ódio contra os seus semelhantes, vive com a sua consciência num estado verdadeiramente infernal; não desfruta da paz de Espírito e vive em constante estado de revolta interior, blasfemando contra tudo e contra todos.

Por outro lado, um homem que pratica o bem sem mistura de mal, que sente o coração inundado de sentimentos de amor ao próximo, que se rege pelas normas de brandura, de tolerância, de fraternidade, que vive em paz com seus familiares, que abomina os vícios, os desregramentos, vive num estado consciencial de paz, de serenidade.

Com fundamento nesses dois parâmetros, pode-se afirmar que a criatura humana, mesmo aqui na Terra, pode viver no chamado inferno ou no Paraíso.

O chamado Bom Ladrão, evidentemente, dado o gênero de vida que levam, prejudicando o seu próximo, apropriando-se dos bens alheios, semeando a maldade e talvez até a morte, bem revelava o estado de inferioridade de seu Espírito; no entanto, condenado pela justiça dos homens a morrer na cruz, evidencia que os crimes por ele praticados eram de acentuada gravidade porquanto, suspenso no madeiro, sentiu, repentinamente, um sentimento de remorso, ao ver Jesus, um inocente, um expoente do amor, morrer de maneira tão infamante. Condoeu-se, sentiu no âmago do seu coração, que havia apenas praticado o mal, que não havia amado o seu próximo, e, ao ouvir os impropérios que outro ladrão, crucificado, dirigia a Jesus, exclamou: "E nós, na verdade, com justiça fomos condenados, e estamos recebendo que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.

"Dirigindo-se, então, ao Mestre, disse: "Senhor, lembra-te, mim, quando entrares no teu reino", merecendo a promessa de Jesus: "Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso."

Espírito elevado que é, Jesus sentiu toda a amargura assolava aquele irmão menor; viu o seu arrependimento, e, o remorso é a porta da redenção espiritual, sentenciou: "Hoje estarás comigo no Paraíso."

É evidente que o Espírito do chamado Bom Ladrão não o acompanhou, mas passou a sentir um novo estado consciencial, passou a desfrutar da serenidade, sentiu toda a extensão dos seus desvios, e, interiormente, percebeu a necessidade do reajuste, resgatando todo o mal que havia semeado.

Com isso, em novas reencarnações que forçosamente deveria ter no futuro, viveria num estágio melhor, experimentaria em seu coração os benefícios da paz, da serenidade e do amor, esforçando-se por redimir-se dos delitos do pretérito; passaria a conceber que na Justiça Divina não existe a promoção pela graça, ou pelo milagre, mas Deus, em sua infinita misericórdia, lhe daria novas oportunidades, a fim de enquadrar-se no rol dos homens sensatos, ponderados, que vivem num estado de paz interior e de uma relativa felicidade.

Ademais, estaria desfrutando de um "paraíso"consciencial, quando comparado com o estado verdadeiramente "infernal" que viveu na existência, culminando com a sua crucificação.

O Mestre não falhou em sua promessa, pois o colocou numa senda diferente, que o conduziria melhor na caminhada rumo a Deus, diminuindo, paulatinamente, a distância que o separava do Criador: abreviando o tempo necessário, para realmente adentrar as regiões elevadas dos planos divinos, comumente chamadas de "Paraíso".

Paulo A. Godoy