UMA FASE DO DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA CRISTÃ

"Jesus lhes respondeu: a minha doutrina não é minha, mas d'Aquele que me enviou." (João, 7:16)

No século IV quando o Imperador Constantino deliberou oficializar a doutrina cristã, houve um intenso interesse, por parte do governante romano, em fazer com que os pagãos aceitassem, sem muita relutância, a nova fé.

Para colimar essa finalidade, todos os meios, mesmo os mais absurdos, foram considerados lícitos, o que fez com que acontecesse uma coisa aberrante: em vez de os cristãos se manterem numa posição irredutível, no que tange à pureza doutrinária do Cristianismo, obrigando também os pagãos a abandonarem seus costumes, principalmente, a idolatria, a fim de abraçarem uma doutrina isenta de ritualismos e encenações exteriores, preferiram curvar-se à vontade do Imperador Constantino, incorporando à prática religiosa de numerosos hábitos herdados do Paganismos, adulterando assim os ninfos ensinamentos legados por Jesus Cristo.

É evidente que o interesse maior do Imperador era fazer com que o maior número de pessoas se integrasse na Nova Religião. Os cristãos por sua vez viram na mudança uma vantagem: cessariam as perseguições e os bens que lhes foram confiscados seriam devolvidos.

Os humildes cenáculos, onde os cristãos se reuniam, não se coadunavam com a pompa, com a ostentação que reinavam nos templos freqüentados pelos potentados do Império. As paredes sem adornos e a ausência de altares habitados pelos deuses esculpidos não conseguiam contentar a visão dos freqüentadores dos templos.

Em vista disso, erigiram-se novos altares, e novas esculturas foram idealizadas, com roupagem e nomes diferentes, acomodando-se tudo aos costumes e gosto dos pagãos, dando, assim início a um processo de adulteração que perduraria por séculos. E a doutrina do Cristo, que Ele afirmou que vinha do Pai, sofreu o impacto das deturpações e dos interesses humanos.

Eusébio, em sua História Eclesiástica, deu o seguinte esclarecimento: "Constantino, a fim de recomendar a nova religião aos pagãos, consentiu que a ela fossem transferidos os ornamentos exteriores a que estava habituado na sua ( ... ) O emprego de templos, sua consagração a santos particulares e sua ornamentação, em certas ocasiões, com ramos de árvores; o incenso, as lâmpadas e os círios; as ofertas votivas pelo restabelecimento de qualquer enfermidade; a água benta, os asilos, os dias e períodos santos; o emprego de calendários e as procissões; as bênçãos dadas aos campos, voltar-se para o Oriente, as imagens; mais tarde, talvez, o canto eclesiástico, são todas as coisas de origem pagã, santificadas por sua adoração na Igreja."

Uma das mais esdrúxulas decisões, tomadas no século IV foi a disputa havida com Ario, da qual resultou a derrota desse e de outros doutores da Igreja, prevalecendo a idéia do Deus trino instituindo-se, assim, o Dogma da Trindade, pelo qual Deus Jesus e o Espírito Santo se tornaram uma só entidade.

Nessa época de profundo obscurantismo, dificilmente se poderiam implantar idéias verdadeiras, ramificadas no Vero Cristianismo, principalmente quando prevalecia o interesse de grupos religiosos, e os governantes tomavam partido e apoiavam idéias errôneas, como foi o caso da Trindade. Nos tempos modernos, a única solução plausível para a Igreja, a fim de explicar a ocorrência, é catalogá-la como "mistério".

Não bastasse a implantação do incrível dogma da Trindade, e o Sínodo de Constantinopla, após acesas discussões e controvérsias, tomou a resolução de condenar Orígenes e a sua doutrina, que se fundamentava sobre a pluralidade das existências do Espírito na carne, ou seja, na reencarnação. Isso aconteceu 284 anos após a desencarnação daquele luminar da Igreja, ficando, deste modo, vedado aos cristãos admitirem a preexistência da alma e a sua volta à Terra em novas encarnações, instituindo-se, assim, o dogma da Unicidade das Existências.

Posteriormente, com a mudança de nome de Cristianismo para Catolicismo, a realização de barulhentos Concílios e a implantação de numerosos dogmas, a Doutrina Cristã perdeu muitos dos seus sustentáculos, tais como a Pluralidade das Existências, a Pluralidade dos Mundos habitados, a existência de um Deus uno e indivisível e Outros.

Por isso se tornou inadiável a Revelação Espírita, acontecida quase vinte séculos após o advento de Jesus Cristo, a fim de que fosse cumprida a promessa do Mestre, concretizada com o advento do Espírito de Verdade, do Consolador, com o fim básico de restaurar as primícias do Cristianismo, sem dogmas, sem ritualismos, sem encenações exteriores, tendo Deus como o Criador do Céu e da Terra, e Jesus Cristo, o seu Ungido como dirigente máximo do nosso planeta.

Paulo A. Godoy