UMA MULHER CHAMADA VERÔNICA

"Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos dos homens." (Marcos, 7:7)

Na época, quando Jesus esteve na Terra, quase nada se escrevia, e quase todos os acontecimentos importantes eram transmitidos, de geração, pela tradição oral. Dizia-se, então, que "um rabino que guardava a tradição era uma cisterna sem gretas (um poço sem rachaduras), que não deixava escapar uma só gota dos ensinamentos de seus mestres".

Numa época de profundo obscurantismo, muitas das tradições, legadas à prosperidade, eram fantasiosas, frutos da imaginação, não passando muitas vezes de ridículas lendas, pois os homens sempre tiveram acentuada tendência para a aceitação das coisas miraculosas.

Por isso, não é de estranhar, quando, escapando de uma análise mais prudente, alguns acontecimentos passaram à posteridade como verdades incontestáveis, os quais, no entanto, jamais resistem a uma análise mais profunda, à luz da verdade.

Os únicos documentos que relatam acontecimentos que cercaram o advento de Jesus em nosso Planeta são os Evangelhos, e tão somente os Evangelhos, embora tenham sido escritos muitos anos após o sacrifício do Mestre, no Calvário, devendo-se, então, ressaltar que Marcos e Lucas não foram discípulos diretos de Jesus e escreveram seus Evangelhos com base em pesquisas e na tradição oral.

Nenhum dos quatro Evangelhos faz nenhuma alusão a uma mulher judia, chamada Verônica, a qual, segundo a tradição, animada de profundo sentimento de piedade, quando o Mestre carregava o pesado madeiro rumo ao Calvário, com o rosto banhado em suor e sangue, achegou-se a ele e enxugou o seu rosto com uma toalha. Para surpresa geral, os traços fisionômicos de Jesus teriam ficado nitidamente estampados no tecido. Com esse fenômeno, Verônica mereceu dos mentores religiosos de uma determinada religião o título de santa.

Considerando-se que existem mais de 40 Evangelhos apócrifos, os quais criaram uma série de lendas, e um deles chegou mesmo a dizer que Jesus matou um homem, tendo-o ressucitado logo após, é bem provável que a lenda da existência de Verônica tenha se originado de um desses falsos Evangelhos.

Não estando registrada nos Evangelhos, a descrição deixa de ter foros de verdade, e isso faz com que o acontecimento seja incluído no rol das coisas lendárias.

O Espírito de Erasto, numa comunicação dada, quando da codificação do Espiritismo, recomendou que "é preferível rejeitar nove verdades a aceitar uma mentira", pois uma verdade não aceita agora, forçosamente ressurgirá e se imporá mais tarde: contudo, uma mentira poderá causar prejuízos danosos, suscetíve de retardar o próprio progresso humano.

Por isso, na informação lendária sobre o que teria acontecido com Verônica, é muito mais salutar relegar a ocorrência para rol das coisas pueris e controvertidas, embora a sua assimilação como faro real, nada acrescentaria aos maravilhosos ensinamentos de Jesus Cristo, cujo advento na Terra consistiu, basicamente em legar aos homens um código de luz e de moral, ensinando-lhes como alcançar a Reforma Íntima.

A Doutrina contida nos Evangelhos, a qual Jesus afirma que a havia aprendido na Casa do Pai, repousa sobre a verdade, e como tal, jamais pode acobertar doutrinas ou mandamentos de homens.

A Humanidade vive uma fase em que as próprias instituições religiosas milenares terão que rever os seus dogmas, porquanto, se assim não o fizerem, ficarão distanciadas da verdade, perdendo o potencial que devem possuir, a fim de libertarem os homens do obscurantismo e das superstições responsáveis pelo marasmo que impera no meio de muitas comunidades religiosas da Terra.

Paulo A. Godoy