LAR DA BENÇÃO

A - NO LAR DA BÊNÇÃO

Clarêncio movimentou a destra, indicando-nos o quadro sublime a desdobrar-se sob a nossa vista.

Doce melodia que enorme conjunto de meninos acompanhava, cantando um hino delicado de exaltação do amor materno, vibravam no ar.

Aqui e ali, sob tufos de vegetação verde-clara, muitas senhoras sustentavam lindas crianças nos braços.

- É o Lar da Bênção - informou o instrutor, satisfeito.

- Nesta hora, muitas irmãs da Terra chegam em visita a filhinhos desencarnados. Temos aqui importante colônia educativa, misto de escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera carnal.

O Ministro, porêm, interrompeu-se, de ímproviso. Nossas companheiras pareciam agora tomadas de jubilosa aflição.

Vimo-las desgarrar, de inopino, qual se fossem atraídas por forças irresistíveis, precipitando-se para os anjínhos que cantarolavam alegremente. Enquanto a que nos era menos conhecida enlaçava louro petiz, com infinito contentamento a expressar-se em lágrimas, dona Antonina abraçou um pequeno de formoso semblante, gritando, feliz:

- Marcos! Marcos!"

- Mãezinha! Mãezinha! ... - respondeu a criança, colando-se-lhe ao peito.

Clarêncio fez sinal para as irmãs vigilantes, que se responsabilizavam pelos entretenimentos no parque, como a solicitar-lhes proteção e carinho para as nossas associadas de excursão, e disse-nos, em seguida:

- O pequeno Júlio não se encontra no grupo. Ainda sofre anormalidades que lhe não permitem o convívio com as crianças felizes. Acha-se no lar da irmã Blandina. Rumemos para lá.

Em poucos minutos, chegávamos diante de pequenino castelo muito alvo, em que se destacavam as ogivas azuis, coroadas de trepadeiras em flor.

Atravessamos extenso jardim, embalsamado de aroma. Rosas opalinas, ignoradas na Terra, de mistura com outras flores, desabrochavam profusamente.

A irmã Blandina recebeu-nos sorridente, apresentando-nos uma senhora simpática que lhe fora avozinha no mundo.

Mariana, nossa nova amiga, cumprimentou-nos, bondosa.

Findas as saudações usuais, Clarêncio tocou, direto no assunto.

Desejávamos avistar o pequeno Júlio, que havia desencarnado por afogamento.

Blandina, que em plena juvenilidade trazia nos olhos os característicos de sublime madureza de espírito, respondeu gentilmente:

- Ah! com muito prazer!

E, encaminhando-nos a iluminada peça, ornamentada de róseos enfeites, onde um menino repousa num leito muito branco, explicou, sem afetação:

- Nosso Júlio, até hoje, ainda não se refez completamente. Ainda grita sob pesadelos inquietantes, como se estivesse a sofrer sob as águas. Chama pelo pai constantemente, apesar de parecer mais receptivo ao nosso carinho. Insiste pela volta a casa, todos os dias.

Acercamo-nos do berço largo em que descansava.

O menino lançou-nos um olhar de atormentada desconfiança, mas, contido pela ternura da irmã que o assistia, permaneceu mudo e impassivel.

- Ainda não se mostrou em condições de partilhar os estudos com os outros? - perguntou o Ministro, interessado.

- Não - informou a interpelada, solícita -, aliás, os nossos benfeitores Augusto e Cornélio, que nos amparam freqüentemente, são de parecer que ele não conseguirá adquirir aqui qualquer melhora real, antes da reencarnação que o aguarda. Traz a mente desorganizada por longa indisciplina.

Bem-humorada. acrescentou:

- É um paciente difícil. Felizmente, dispomos da cooperação de nossa devotada Mariana, que o adotou por filho espiritual, até que retorne ao lar terrestre. Foi preciso segregá-lo neste quarto, tamanha é a gritaria a que se entrega por vezes.

- Mas não tem recebido o tratamento magnético aconselhável? - indagou Clarêncio, atencioso.

- Diariamente recebe o auxílio necessário - esclareceu Blandina, com humildade - eu mesma sou a enfermeira. Passes e remédios não faltam.

- E a irmã conhece o caso em suas particularidades?

- Sim, conheço. Eulália tem vindo até nós. Lastimo que a mãezinha de nosso doente não esteja em condições de ampará-lo. Creio que o concurso dela poderia insuflar-lhe novas forças. Entretanto, com exceção da irmãzinha que se lembra dele nas orações, ninguém mais da família o ajuda.

- Mãezinha! Mãezinha! ... - clamou o pequeno, em voz rouca, erguendo-se e enlaçando Blandina, pálido e inquieto.

- Que te incomoda, meu filho?

- Dói-me a garganta ... - lamentou-se o rapazinho.

A jovem benfeitora abraçou-o, osculando-lhe os cabelos, e recomendou:

- Não te aflijas. Como é que um moço de teu valor pode chorar, assim por nada? Imagina! Temos três médicos em casa. É impossível que a dor não fuja apressada.

Logo após, sentou-o numa poltrona e solicitou a colaboração de Clarêncio.

O Ministro, cuidadoso, pediu-lhe abrisse a boca e, surpreendidos, notamos que a fenda glótica, principalmente na região das cartilagens aritenóides, apresentava extensa chaga.

O orientador aplicou-lhe recursos magnéticos especiais e, em poucos instantes. Júlio voltou à tranqüilidade. - Então? - falou Blandina. amparando-o, afetuosa - onde está agora a garganta dolorida?

E, visivelmente satisfeita, acrescentou:

- Já agradeceste ao nosso benfeitor, meu filho?

O menino, hesitante, caminhou para o Ministro beijou-lhe a destra com respeitoso carinho e balbuciou: - Muito agradecido.

Blandina ia dizer algo, mas Júlio correu para o seu regaço, choramingando:

- Mãezinha, tenho sono ...

A abnegada jovem acolheu-o, com ternura, reconduzindo-o ao repouso.

Quando tornou à sala. Clarêncio informou que doara ao enfermo energias anestesiantes. Notara-o fatiga: resolvendo, por isso, induzi-lo ao descanso.

E, talvez porque nos percebesse o cérebro esfogueado de indagações, quanto àquela minúscula garganta ferida, depois da morte do corpo, o Ministro explicou:

- É pena. Júlio envolveu-se em compromissos graves. Desentendendo-se com alguns laços afetivos do caminho, no século passado, confiou-se a extrema revolta, aniquilando o veículo físico que lhe fora emprestado por valiosa bênção. Rendendo-se à paixão, sorveu grande quantidade de corrosivo. Salvo, a tempo, sobreviveu à intoxicação, mas perdeu a voz, em razão das úlceras que se lhe abriram na fenda glótica. Ainda aí, não se conformando com o auxilio dos colegas que o puseram fora de perigo, alimentou a idéia de suicídio, sem recuar. Foi assim que, não obstante enfermo, burlou a vigilância dos companheiros que o guardavam e arrojou-se a funda corrente de um rio, nela encontrando o afogamento que o separou do envoltório carnal. Na vida espiritual, sofreu muito, carregando consigo as moléstias que ele mesmo infligira à própria garganta e os pesadelos da asfixia, até que reencarnou, junto das almas com as quais se mantém associado para a regeneração do pretérito. Infelizmente, porém, encontra dificuldades naturais para recuperar-se. Lutará muito, antes de incorporar-se a novo patrimônio físico.

Registrávamos aqueles apontamentos com dolorosa admiração. Uma criança doente é sempre um espetáculo comovedor.

Não nos atrevíamos a manifestar nossos pensamentos de estranheza, todavia, o prestimoso amigo, assinalando-nos decerto as dúvidas, acentuou:

- Há poucos instantes, comentávamos a sublimidaade da Lei. Ninguém pode trair-lhe os princípios. A Bondade Divina nos assiste, de múltiplas maneiras, amparando-nos o reajustamento, mas em todos os lugares viveremos jungidos às conseqüências dos próprios atos, de vez que somos herdeiros de nossas próprias obras.

O assunto constituía preciosa sugestão para interessantes estudos, mas, antes de enunciar qualquer pergunta, busquei aspirar, a longos haustos, as baforadas frescas de vento, que carreavam para o recinto vagas sucessivas de agradável perfume.

B - PRECIOSA CONVERSAÇÃO

Blandina, que parecia bastante versada nas questões da infância, associando-se à conversação que Clarêncio desenvolvia, considerou, com interesse:

- Efetivamente, a Lei é invariável contudo, a criança desencarnada muitas vezes é problema aflitivo. Quase sempre dispõe de afeiçoados que a seguem, de perto, amparando-lhe o destino, entretanto tenho observado milhares de meninos que, pela natureza das provações em que se envolveram, sofrem muitíssimo, à espera de oportunidades favoráveis para a aquisição dos valores de que necessitam.

E sorrindo, bondosa, acrescentou:

- O caso de Júlio não é para mim dos mais dolorosos. Tenho visitado departamentos de reajuste em que se demoram irmãos nossos, arrancados à carne, violentamente, como frutos verdes da árvore em que se desenvolvem ... Processos de mente enfermiça que só abençoadas estações regenerativas na carne conseguem curar ...

- Poderíamos receber de sua experiência alguns exemplos objetivos? - indagou Hilário, curioso.

- Ah! são muitos!. .. - ponderou a nossa interlocutoora, gentil - temos para demonstração mais prática os absurdos da megalomania intelectual. Há pessoas, na Terra, que não se acautelam contra os desvarios da inteligência e fazem da astúcia e da vaidade o clima em que respiram. Insistem na inércia do coração, abominam o sentimento elevado que interpretam por pieguismo e transformam a cabeça num laboratório de perversão dos valores da vida. Não cuidam senão dos próprios interesses, não amam senão a si mesmos. Não percebem, contudo, que se ressecam interiormente e nem imaginam os resultados cruéis da cerebração para o mal. Freqüentemente, na luta mundana, avultam na condição de dominadores poderosos, com vastíssimo potencial de influência sobre amigos e adversários, conhecidos e desconhecidos. Mas, esse êxito é ilusório. Caem sob o guante da morte com grande alivio dos contemporâneos e passam a receber-lhes as vibrações de repulsa. Semelhantes criaturas naturalmente sâo vítimas de si mesmas e sofrem os mais complicados desequilíbrios mentais. Depois de períodos mais ou menos longos de purgação, após a transição da morte, voltam à carne, necessitados de silêncio e solidão para se desvencilharem dos envoltórios inferiores em que se enredaram, assim como a semente precisa do isolamento na cova escura para desintegrar os elementos pesados que a constringem para novo desabrochar.

A moça esboçou inteligente sorriso e continuou: - Imaginemos que a terra se recusasse a auxiliar sementes que esperam reviver. O solo expulsá-las-ia, em vez dos germens libertados para a vitória da plantaçâo, teríamos tão-somente pevides secas, em aflitiva quietude, desorientando a lavoura. Em verdade, a maioria das mães é constituída por sublime falange de almas nas mais belas experiências de amor e sacrifício, carinho e renúncia, dispostas a sofrer e a morrer pelo bem-estar dos rebentos que a Providência Divina lhes confiou as mãos ternas e devotadas, contudo, há mulheres cujo coração ainda se encontra em plena sombra. Mais fêmeas que mães, jazem obcecadas pela idéia do prazer, da posse e, despreocupando-se dos filhinhos, lhes favorecem a morte. O infanticídio inconsciente e indireto é largamente praticado no mundo. E como o débito reclama resgate, as delongas na solução dos compromissos assumidos acarretam enormes padecimentos nas criaturas que se submetem aos choques biológicos da reencarnação e vêem prejudicadas as suas esperanças de quitação com a Lei.

Ante a pausa que se fizera natural, inquiri:

- Mas a Lei não traçará princípios inamovíveis? Pretenderá a irmã dizer que uma criança pode desencarnar, fora do dia indicado para a sua libertação?

- Sim, sem dúvida - atalhou o Ministro, que nos escutava - há um programa estruturado na Espiritualidade para as nossas tarefas humanas, entretanto, pertence-nos a condução dos próprios impulsos dentro delas. Em regra geral, multidões de criaturas cedo se afastam do veículo carnal, atendendo a serviços de socorro e sublimação, mas, em numerosas circunstâncias, a negligência e a irreflexão dos pais são responsáveis pelo fracasso dos filhinhos.

- Aqui - explicou Blandina, delicada - recebemos muitas solicitações de assistência, a benefício de pequeninos ameaçados de frustração. Temos irmãs que por nutrirem pensamentos infelizes envenenam o leite materno, comprometendo a estabilidade orgânica dos recém-natos: vemos casais que, através de rixas incesssantes, projetam raios magnéticos de natureza mortal sobre os filhinhos tenros, arruinando-lhes a saúde, e encontramos mulheres invigilantes que confiam o lar a pessoas ainda animalizadas, que, à cata de satisfações doentias, não se envergonham de ministrar hipnóticos a entezinhos frágeis, que reclamam desvelado carinho ... Em algumas ocasiões, conseguimos restabelecer a harmonia, com a recuperação desejável, no entanto, muitas vezes somos constrangidas a assistir ao malogro de nossos melhores propósitos.

- Nesses casos ... - interferi, buscando maiores esclarecimentos.

Blandina, porém, percebendo-me a indagação íntima, adiantou:

- Nesses casos, ainda e sempre, a Lei é invariável.

As provas e tarefas sofrem dilação no tempo, mas serão cumpridas, afinal. Aquilo que não se realiza num século, pode efetuar-se em outro. Nossa boa vontade e nossa aplicação aos Desígnios Divinos podem abreviar qualquer espécie de serviço. Quem persiste na direção do bem, mais cedo atinge a vitória.

E com o formoso sorriso que lhe bailava no semblante juvenil, acrescentou:

- Não vale fugir às responsabilidades, porque o tempo é inflexível e porque o trabalho que nos compete não será transferido a ninguém.

Hilário, que acompanhava a conversação com extremo interesse, considerou:

- Antigamente, na Terra, conforme a teologia clássica, supúnhamos que os inocentes, depois da morte, permaneciam recolhidos ao descanso do limbo, sem a glória do Céu e sem o tormento do inferno, e, nos últimos tempos, com as novas concepções do Espiritualismo, acreditávamos que o menino desencarnado retomasse, de imediato, a sua personalidade de adulto ...

- Em muitas situações, é o que acontece - esclareceu Blandina, afetuosa -: quando o Espírito já alcançou elevada classe evolutiva, assumindo o comando mental de si mesmo, adquire o poder de facilmente desprender-se das imposições da forma, superando as dificuldade da desencarnação prematura. Conhecemos grandes almas que renasceram na Terra por brevíssimo prazo, simplesmente com o objetivo de acordar corações queridos para a aquisição de valores morais, recobrando, logo após o serviço levado a efeito, a respectiva apresentação que lhes era costumeira. Contudo, para a grande maioria das crianças que desencarnam, o caminho não é o mesmo. Almas ainda encarceradas no automatismo inconsciente, acham-se relativamente longe do autogoverno. Jazem conduzidas pela Natureza, à maneira das criancinhas no colo maternal. Não sabem desatar os laços que as aprisionam aos rígidos princípios que orientam o mundo das formas e, por isso, exigem tempo para se renovarem no justo desenvolvimento. É por esse motivo que não podemos prescindir dos períodos de recuperação para quem se afasta do veículo físico, na fase infantil, de vez que, depois do conflito biológico da reencarnação ou da desencarnação, para quantos se acham nos primeiros degraus da conquista de poder mental, o tempo deve funcionar como elemento indispensável de restauração. E a variação desse tempo dependerá da aplicação pessoal do aprendiz à aquisição de luz interior, através do próprio aperfeiçoamento moral.

Encantava-nos a exposição clara e simples de nossa interlocutora, cuja palavra tangia com tanta felicidade graves problemas da vida.

Em suas fórmulas verbais singelas e acessíveis, penetrávamos inquietantes enigmas da puericultura.

Blandina sabia associar a compreensão e a graça, instruindo-nos com discernimento.

Comovido, diante das anotações que lhe definiam a valiosa posição cultural, ponderei:

- Usando semelhantes apontamentos, podemos entender, com mais segurança, os processos dolorosos das enfermidades congênitas e das moléstias insidiosas que assaltam a meninice no mundo. Sempre fui possuído de aflitivo assombro, á frente do mongolismo e da epilepsia, da encefalite letárgica e da meningite, da lepra e do câncer, na tenra organização infantil ..

- E que dizer dos desastres irremediáveis - considerou Hilário, com emoção -, dos desastres que arrebatam adoráveis flores do lar, deixando inconsoláveis pais e mães? Por vezes numerosas, procurei resposta ás terríveis inquirições que nos atormentam, perante corpinhos dilacerados, nos hospitais de sangue, sem conseguir ausentar-me do escuro labirinto.

- Sim - esclareceu a enfermeira, bondosa -, as reparações nos martirizam na carne, mas, sem elas, não atingiríamos o próprio reajustamento.

- Cada qual de nós renasce na Terra - apreciou o Ministro - a exprimir na matéria densa o patrimônio dos bens ou males que incorporamos aos tecidos sutis da alma. A patogenia, na essência, envolve estudos que remontam ao corpo espiritual, para que não seja um quadro de conclusões falhas ou de todo irreais. Voltando Terra, atraímos os acontecimentos agradáveis ou desagradáveis, segundo os títulos de trabalho que já conquistamos ou conforme as nossas necessidades de redenção.

Bem-humorado, acentuou:

- A carne, de certo modo, em muitas circunstâncias não é apenas um vaso divino para o crescimento de nossas potencialidades, mas também uma espécie de carvão milagroso, absorvendo-nos os tóxicos e resíduos de sombra que trazemos no corpo substancial.

Reparei, então, com mais insistência, a figura suave de Blandina. Por que se dedicara ela, assim, a trabalhos tão complexos? Não seria mais justo ouvir aquela conversação dos lábios da simpática Mariana, que achava, junto de nós, em sua posição de matrona respeitável? Externei os meus pensamentos, perguntando, com discrição, à jovem o porquê da grave tarefa de que se incumbia.

Blandina apagou a luz do sorriso que lhe adornava o semblante, como flor aberta que se fechasse, de súbito.

Pesado silêncio pairou no recinto.

Mas, generosa e simples, adoçou a expressão fisionômica e falou, quase conselheiral:

- Fui casada em minha última existência e somente há três anos terrestres me vejo, de novo, na vida espiritual. Não pude acariciar um filhinho, em meus sonhos recentes de mulher, mas hoje sei que preciso reeducar-me no amor de mãe, consoante os débitos que contraí no passado. Realmente, sinto grande afeição pelas crianças, contudo, tenho igualmente enormes dívidas morais para com elas ...

O assunto descambava para um círculo particular, que devia ser sagrado aos nossos olhos.

Por isso mesmo. Clarêncio fez mudo sinal para mim e a conversação foi canalizada para outro rumo.

C - NOVOS APONTAMENTOS

Hilário, aderindo à renovação da palestra, indagou da irmã Blandina se ela era a dirigente do parque em que nos achávamos, ao que ela informou com humildade:

- Não me atribua tamanho crédito. Tenho tarefas variadas aqui e alhures, entretanto, sou mera servidora. O nosso educandário guarda mais de duas mil crianças, mas, sob os meus cuidados, permanecem apenas doze. Somos um grande conjunto de lares, nos quais muitas almas femininas se reajustam para a venerável missão da maternidade e conosco multidões de meninos encontram abrigo para o desenvolvimento que lhes é necessário, salientando-se que quase todos se destinam ao retorno à Terra para a reintegração no aprendizado que lhes compete.

- E a direção central? - inquiriu meu colega, esmiuçador.

- Não reside aqui. O parque é uma das várias dependências de vasto estabelecimento de assistência e educação, do qual somos hoje tutelados. No fundo, nossa casa é uma larga escola, dotada com todos os recursos indispensáveis ao nosso aproveitamento. Os melhores processos de habilitação espiritual funcionam conosco, em benefício dos que vão renascer na carne e dos que se dirigirão, mais tarde, às Esferas Superiores.

- Mas possuem aqui até mesmo os cursos primários de alfabetização?

- Como não? - falou nossa jovem amiga - precisamos movimentar todas as medidas de despertamento espiritual ao nosso alcance. A cultura intelectual pode não ser condição básica de nossa felicidade, no entanto, é imperativo de engrandecimento de nossa alma. Quem não sabe ler, não sabe ver como deve.

E, sorrindo, acrescentou:

- A evolução, a competência, o aprimoramento e a sublimação resultam do trabalho incessante. Quanto mais se nos avulta o conhecimento, mais nos sentimos distanciados do repouso. A inércia opera a coagulação de nossas forças mentais, nos planos mais baixos da vida. O serviço é a nossa bênção.

Nesse instante. com referências tão sublimes ao trabalho, voltamo-nos instintivamente para a devotada Mariana, que se mantinha silenciosa, ao nosso lado.

Estaria ela ligada aos compromissos de proteção da infância?

À pergunta que Hilário desfechou, com delicadeza fraternal, respondeu polidamente:

- Quanto a mim, coopero com minha neta nos serviços que lhe foram conferidos aqui, entretanto, a minha tarefa pessoal mais importante se verifica num templo católico, a que me vinculei profundamente, quando à minha última reencarnação.

Aquela afirmativa excitava-nos a curiosidade, alusão a um "templo católico" denunciava filiação sectária.

Mariana, efetivamente, emudecera, enquanto Blandina se confiava a precioso extravasamento de suas elevadas emoções. Estariam, ali, espiritualmente divorciadas uma da outra?

A venerável irmã, que mostrava o halo de simpatia das mulheres admiráveis quando alcançam a madureza, sorriu, benevolente, e acentuou:

- Não estranhem. Partilho com Blandina o estudo das leis divinas para renovar-me em espírito, com vistas ao grande futuro, mas o amor que ainda trago por velhos companheiros de luta humana constrange-me a larga demora, em serviço de cooperação, na antiga casa de fé religiosa a que me afeiçoei.

- Aliás - ponderou o Ministro, sensato -, o auxílio divino é como o Sol, irradiando-se para todos. As instituições e as almas que se voltam para o Pai Celestial recebem o suprimento de recursos de que necessitam, segundo as possibilidades de recepção que demonstrem.

Interessado, porém, nos apontamentos que surgiam, cada vez mais valiosos, Hilário indagou:

- Em que base se formará o processo de auxílio nas igrejas? Com o impedimento de nossa comunicação direta, como será possível cooperar em favor dos nossos irmãos católicos romanos?

- Muito simplesmente - esclareceu Mariana, prestimosa -, o culto da oração é o meio mais seguro para a nossa influência. A mente que se coloca em prece estabelece um fio de intercâmbio natural conosco ...

- Mas não de maneira ostensiva - alegou o nosso companheiro, estudioso.

- Pelo pensamento - explicou a interlocutora, respeitável. - A intuição beneficia em toda parte, e, quanto mais alto é o teor de qualidades nobres na criatura, mais ampla é a zona lúcida de que se sente para registrar o socorro espiritual. O culto público, indiscutivelmente, qual vem sendo levado a efeito, nos tempos modernos, não favorece o contacto das forças superiores com a mente popular. Os interesses rasteiros, conduzidos à igreja, constituem sólido entrave contra o auxílio celeste. E a preocupação de riqueza e pompa, quase sempre mantida pelo sacerdócio nos ofícios, inutiliza por vezes os nossos melhores esforços, porque, enquanto a atenção da alma se prende a exterioridades, as forças contrárias ao bem e à luz encontram facilidades positivas para a cultura do fanatismo e da discórdia. Ainda assim, superando tais obstáculos, é sempre possível algo fazer em benefício do próximo.

- Durante a missa, por exemplo - prosseguiu Hilário, observador -, é viável o seu trabalho de cooperação?

Mariana fixou uma expressão facial de bom humor e aduziu:

- Somos grandes falanges de aprendizes da fraternidade, em ação. Por mais desagradáveis se nos mostrem os quadros de luta, a nossa obrigaçáo é servir.

Finda ligeira pausa, continuou:

- Quando a missa obedece a pura convenção social, funcionando como exibição de vaidade ou poder, a nossa colaboraçáo resulta invariavelmente nula.

E, sorrindo:

- Que teríamos a fazer num ato bajulatório, em que os devotos da fortuna material ou da perversidade incensam a desregrada conduta de pessoas inescrupulosas? Há missas solenes de consagração a políticos astuciosos e a magnatas do ouro que, em verdade, são reais sacrilégios, em nome do Cristo. Por outro lado, há missas de almas que constituem escárnio á dor dos que foram recolhidos pela morte, quais as que são mandadas celebrar por parentes ambiciosos que, por vezes até mesmo se alegram com a ausência do morto, ávidos que se mostram de lhes pilharem os despojos, na corrida a testamentos e cartórios. Essas missas fortemente adubadas a dinheiro estão para eles tão frias, como túmulos em que se lhes asilou a carne desfigurada. Mas se o ato religioso é simples, partilhado por mentes e rações sinceros, inclinados á caridade evangélica e centralizados na luz da oração, com os melhores sentimentos que possuem, o culto se reveste de grande valor, pelas vibrações de paz e carinho que arremessa na direção daquele a quem é endereçado. Freqüentemente, as missas humildes, realizadas aos primeiros cânticos da manhã, são as mais favoráveis ao nosso concurso. Podemos, com mais segurança, articular as possibilidades ao nosso alcance e ambientá-las a beneficio daqueles que esperam de nós o amparo necessário.

Hilário pensou alguns instantes, valendo-se do intervalo que surgira na conversação e obtemperou:

- Possuímos nas igrejas a questão do patrocínio.

Imagínemos que determinado templo foi erguido à memória de Gerardo Majela. Isso expressa uma obrigação para o grande místico europeu?

- Certamente não se trata de uma obrigação escravizante, mas de um serviço que lhe honra o nome e que merecerá dele certo reconhecímento mesclado de responsabilidade. Devemos reconhecer, contudo, que o trabalho do bem, qualquer que ele seja, permanece ligado a Jesus. No entanto, se algum servo do Senhor está ligado a obra por fazer, tanto quanto lhe seja possível desdobrar-se-á para enriquecê-la de bênçãos.

- Mas ... e na hipótese de algum santuário surgír, dedicado a suposto herói da virtude? Figuremos alguém da Terra sendo conduzido ao altar por imposição da autoridade humana, sem mérito bastante à frente do Senhor ... Os crentes encarnados atribuir-lhe-iam poder de que não conseguiria dispor ... Em que situação estaria o templo que lhe fosse consagrado?

Mariana registrou a pergunta, cortesmente, e explicou: - Numa contingência dessas, mensageiros de Jesus responsabilizar-se-iam pela instituição, distribuindo aí os benefícios adequados aos merecimentos e necessidades de cada um.

- E o tipo de assistência? é de renovação espiritual ou a de mero socorro aos crentes encarnados?

- Ah! - comentou Mariana, sincera - o trabalho é complexo e divide-se em múltiplos setores. Não está limitado à esfera da experiência física. Inumeráveis são as almas que, desligadas do corpo, recorrem aos altares, implorando esclarecimento ... Outras, depois da morte, confiam-se a desequilibradas emoções, invocando a proteção dos Espíritos santificados ... É preciso corrigir aqui e ajudar além. .. Agora, devemos injetar um pensamento reconstrutivo nessa ou naquela mente extraviada, depois, é imprescindível harmonizar circunstâncias, em favor desse ou daquele necessitado ... A maioria das pessoas aceita a religião, mas não se preocupa em praticá-la. Daí nasce o terrível aumento das aflições e dos enigmas.

A lógica de Mariana encantava-nos.

Hilário, porém, prosseguiu indagando, perscrutando. - Mas, apesar de consciente da verdade que a separação do veículo físico no impõe, acredita a irmã que a organização católica é suficiente para conduzir o mundo moderno?

Ela sorriu com trísteza e redargüiu:

- Meu amigo, entre cooperar e aprovar, há sensível diferença. A sociedade ajuda a criança sem infantilizar-se. As ígrejas nascidas do Cristianismo caminham para grande renovação. O progresso assim exige. As idéias de céu e inferno e os excessos de natureza política, na hierarquia eclesiástica, estabeleceram grandes perturbações para a alma popular. Entretanto, cabe-nos considerar as religiões que envelhecem como frutos fortemente amadurecidos. A polpa alterada pelo tempo deve ser colocada à margem, contudo, as sementes são indispensáveis à produção do futuro. Auxiliemos as igrejas antigas, em vez de acusá-las. Todos somos filhos do Pai Celestial e onde houver o mínimo gérmen de Cristianismo surgirão recursos de recuperação do homem e da coletividade para o Cristo. Nosso Senhor.

A conversaçáo era fascinante e as perguntas pareciam brilhar ainda, nos olhos de Hilário, maravilhado tanto quanto nós, ante as elucidaçôes que recebia, mas a hora esgotara -se.

Um sinal de Clarêncio fez-nos sentir que havíamos alcançado o momento da volta.

André Luiz (Entre a Terra e o Céu, caps. 8 a 11)

D - RESUMO:

O Lar da Bênção trata-se de uma importante colônia educativa, misto de escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera carnal (onde encontram apoio para se refazerem).

O Lar da Bênção é descrito como um local onde há parques, é um grande educandário, onde são recebidos milhares de Espíritos em estado de desencarnação como crianças que necessitam de um emergencial reajustamento no perispírito.

O parque conta com árvores vigorosas cobertas de flores coloridas, tem inúmeros jardins que emitiam ondas de suave perfume, com árvores em cujo galhos havia um bando de aves a desfilar.

É dividido em milhares de lares, onde cada irmã cuida de mais ou menos 12 crianças cada uma, recebendo diariamente encarnadas (em desdobramento) e desencarnadas para visitar seus filhos.

Há um grande conjunto de lares, nos quais muitas almas femininas se reajustam para a venerável missão da maternidade e juntamente com as colaboradoras, multidões de meninos (as) encontram abrigo para o desenvolvimento que lhe é necessário, salientando-se que quase todos se destinam ao retorno à Terra para a reintegração ao aprendizado que lhes compete.

Todos eles recebem o apoio de que necessitam ao seu reajustamento (tanto espiritual, como no perispírito).

EDIVALDO