8 - O problema de sabermos pensar em Deus, na teoria e na prática

Por mais incrível que pareça, saber pensar em DEUS—na teoria e na prática — constitui um dos maiores problemas do movimento espírita brasileiro.

Assumimos tal afirmativa não só em virtude do incidente que nos levou a escrever esta brochura, relatado na sua Introdução, mas ainda com base em outras experiências pessoais.

Há algum tempo resolvemos fazer, na Casa Espírita que fundamos e dirigimos, uma série de palestras sobre DEUS, expondo com clareza e sinceridade as noções doutrinárias do capítulo precedente. Ao término da última alocução convidamos, para proferir a prece de encerramento do encontro, uma confreira veterana nas lutas do ideal, por quem nutrimos grande apreço, cuja formação teórica, em matéria de filosofia espírita, foi consolidada antes que tivesse o ensejo, ou a falta de sorte, de nos conhecer.

Ela levantou-se, com elegância ensaiou referências generosas às palestras escutadas, porém disse que iria orar a Jesus e não a DEUS. E fez uma pausa intencional, aguardando nossa reação. Quebramos o silêncio deixando-a democraticamente à vontade, diante das demais pessoas presentes, acostumadas ao nosso estilo de prece que amiúde valoriza o Pai Nosso acompanhado sempre de palavras espontâneas expressando, com sobriedade, as emoções do momento.

Após tê-la posto à vontade, utilizando o argumento de que toda prece vinda do sentimento puro é agradável a DEUS, qualquer que seja a sua forma verbal, nos beneficiamos com o seu jeito de orar a Jesus e a seguir, em caráter reservado, indagamos porque ela agira daquele modo. Sua resposta foi a de que havia sedimentado tal hábito lendo os livros psicografados neste país, onde, segundo alegou, os Espíritos superiores somente oram a Jesus.

A partir deste segundo incidente passamos a prestar melhor atenção para o fato, infelizmente generalizado na maioria dos Centros Espíritas nacionais. Preocupado com o mesmo decidimos verificar, através dos programas de televisão que nos invadem o recinto doméstico toda semana, principalmente aos domingos, como procedem a respeito do assunto os padres em suas missas e os pastores evangélicos em seus cultos.

Chegamos a esta surpreendente e melancólica conclusão: eles pelo menos falam muito mais em DEUS do que nós. Quer dizer: alguma coisa errada existe em nossa visão religiosa—estamos sendo mais cristólatras do que os católicos e protestantes, e com isso traímos o verdadeiro Cristianismo, cujo objetivo fundamental é nos relacionar com o Supremo Senhor da Vida!

Uns poucos oradores espíritas famosos, sobretudo, espalharam em nosso meio um modelo de prece tão afetada, tão espasmódica, tão piegas, tão prenhe de exagerada e ridícula eloquência, enfim, tão falsa e vazia de honestidade sentimental que raramente assistimos os companheiros de crença, em assembleias públicas, buscarem a comunhão com DEUS, ou mesmo com Jesus, em termos razoáveis.


Torna-se urgente, pois, a solução do problema de sabermos pensar em DEUS na teoria e na prática. Refutamos sobre ele. Existem dois tipos de pensamento: um abstrato, não formal, outro figurativo, plástico. O primeiro consiste no raciocínio puro e serve para pensarmos em DEUS na teoria; o segundo se expressa na faculdade imaginativa e é adequado para pensarmos em DEUS na prática.

Nosso pensamento abstrato sobre DEUS, o mais difícil, deve concebê-lo sem forma, como a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, eterna, imutável, imaterial, única, onipotente, soberanamente justa e boa (perguntas n.0s l e 13 de O Livro dos Espíritos). Tal concepção nos leva à crença em um DEUS pessoal, um DEUS-PAI, e não em um DEUS meramente LEI da Natureza (toda lei é algo impessoal, é uma Coisa e não um Ser, não pode conter justiça nem bondade, muito menos amor, porque ou é inflexível e mecânico ou não é Lei).

Se concebemos DEUS na condição de PAI, como o fez Jesus e como nos ensina a filosofia da Codificação kardequiana, procuramos nos relacionar (ligar ou religar) com Ele através de um pensamento afetuoso e não apenas esquemático, associando assim o sentimento ao raciocínio. Destarte não ternos porque perder tempo em divagações teológicas, sejam elas calcadas em velhos textos bíblicos ou em modernos compêndios de inspiração científica: as múltiplas teorias engendradas até hoje para explicar o Criador não passam de amontoados de palavras que no fundo nada dizem.

Nosso pensamento figurativo, plástico, sobre DEUS, deve situá-lo como uma espécie de fluido universal dotado de poderes absolutos e inesgotáveis, equivalente a uma luz fulgurante, plena e inextinguível, sustentadora da vida em todos os domínios do universo. Isto é o que nos propõe a Doutrina Espírita. O resto fica por conta da fantasia dos companheiros místicos e da incoerência dos confrades intelectualistas.

Nazareno Tourinho