CAPÍTULO 12 - RELAÇÕES SÓCIO-AFETIVAS

"Já vimos de quanta importância é a uniformidade de sentimentos, para a obtenção de bons resultados." O Livro dos Médiuns

As relações humanas estão intensamente marcadas pelos papéis sociais assumidos com finalidade de delimitar direitos e funções. Semelhante representatividade nos relacionamentos enseja o estabelecimento de "espaços", disciplinando a ação humana ao melhor alcance de resultados na sociedade.

Por outro lado, em razão dos abusos morais, os papéis institucionalizados têm sido, muitas vezes, usados como chancela para acobertar erros clamorosos sob a conivência da aceitação social.

A família é um exemplo inconteste disso. Durante séculos delineou-se na sua estrutura antropológica as máscaras do pai-provedor, da mãe-reprodutora, do filho-herdeiro, estimulando em múltiplos núcleos domésticos a ganância e inconsequência no homem, a submissão e subserviência na mulher e a preguiça e a luxúria nos filhos.

O institucionalismo revela a presença de intrincados processos éticos nos grupamentos. Tomemos para análise a história das religiões na qual encontramos tais ocorrências em larga escala. O estabelecimento de uma relação entre o eu e o Divino foi construída sobre os alicerces frágeis do dogmatismo recheado de adoração exterior, criando a opressão do desamor na convivência social em nome da "filiação Divina".

Os rótulos passaram a ser mais significativos que as expressões de afeto, insuflando a discriminação do sectarismo contra os que não absorviam os mesmos conceitos, sacramentados pelo poder de oficialização das forças religiosas dominantes. Nesse passo, a hierarquia e a soberba intelectual cristalizaram as diferenças entre o sagrado e o profano, instituindo padrões de exclusão e punição, deflagrando lamentáveis episódios nas sociedades terrenas dos últimos milénios.

Essa experiência enraizou-se no psiquismo humano que, ainda hoje, a despeito dos avanços culturais e tecnológicos, fazem do homem cibernético um "fantoche do religiosismo atávico" com altas doses de fé cega.

Somente com o advento das teorias sociais e psicológicas no início do século XX o homem começou a desvendar com mais segurança e sensatez os elos entre ele e seu grupo e dele para consigo mesmo, permitindo assumir uma nova postura ante as interações sociais. Tal fato vem obrigando a religião a rever seu tradicional paradigma de relações com o Divino, deslocando-o para a tríade "eu, o próximo e Deus", em contraposição ao modelo "eu e Deus".

A identidade com Deus, com as Leis Naturais, tem como condição expressa esse processo de identificação do homem com seu próximo, através de um "construtivismo relacional" no qual irá, pouco a pouco, desenvolvendo as potencialidades Celestes no seu mundo íntimo e ensejando que seu meio, igualmente, possa fazer o mesmo.

Nesse cômputo histórico, verificamos que o Espiritismo há mais de um século preconiza, na Lei de Sociedade e na Lei de Amor, justiça e Caridade, as bases para um processo social de pleno reconhecimento do próximo como sendo o "outro" diferente do eu, portador de inexauríveis recursos para promoção pessoal ante os apelos do aprendizado na escola da convivência, convergindo suas relações para uma harmonia com as Leis Divinas, redefinindo a adoração para o campo interior, no crescimento das potências ínsitas no ser e adotando a religião cósmica do Amor como "o caminho, a verdade e a vida".

Durante longas eras da evolução asilamos "modelos mentais" embalados por crenças dogmáticas, mitos, convenções, que, hodiernamente, pesam sobre as interpretações doutrinárias na convivência de nosso movimento social espírita. Nesse ínterim, o institucionalismo como traço determinante no psiquismo tem se ampliado em alguns de nossos ambientes de simplicidade, estabelecendo relações sociais superficiais, distanciando as criaturas das relações plenificadoras. Tais relações institucionalizadas priorizam e privilegiam o domínio e o controle, ensejando a disputa em detrimento da amizade e do respeito. Dessa forma, mais uma vez, apesar da lucidez dos conhecimentos que somos depositários, submetemo-nos a papéis representativos, rótulos e cargos bem ao gosto do nosso milenar personalismo, em profundas crises de "artificialismo afetivo".

Oportuno, portanto, que alinhavemos alguns dos possíveis reflexos da ausência de relações afetuosas nos grupos, a título de estudarmos, posteriormente, quais seriam as medidas preventivas ou remediadoras a serem encetadas, como segue:

- Maior possibilidade de criação e manutenção das máscaras emocionais que escondem uma pseudo-harmonia.

- Campo para condutas estereotipadas provenientes de interpretações destituídas de bom senso.

- Ausência de ambiente para o debate crítico e avaliação sincera.

- Ambiente favorável para a hipocrisia e o puritanismo.

- Adubo para melindres.

- Ensejo para a adoção de "gurus" nos dois planos da vida gerando a idolatria.

- Larga porta para a desmotivação com o trabalho em razão de uma convivência, na maioria das vezes, desgastante e sem o enriquecimento das trocas.

- Desvalorização das habilidades cooperativas.

- Ambiente psiquicamente desagradável devido às opressões guardadas em silêncio.

- Ausência do diálogo como instrumento construtor de amizade sólida.

- Clima de desconfiança.

Trabalhemos e invistamos o quanto possível na melhoria das condições das relações sócio-afetivas entre nós, que desfrutamos das bênçãos do Espiritismo, superando papéis e utilizando-os somente como fator disciplinador e organizador de nossos grupos de Amor. Estejamos acima dos direitos com os quais facilmente podemos nos iludir e fixemos a mente e o coração nos deveres infindáveis que os rótulos nos impõem.

A presença de pessoas afetuosas em nossas vidas nunca é esquecida, cria "marcas", deixa lembranças para o futuro e é forte dose de estímulo ao idealismo superior no presente. Sobretudo, essas pessoas deixam saudades...E saudade é o sentimento de quem sente falta de alguém. Amigos verdadeiros deixam saudades...

A criação de relações afetivas enseja melhores condições para que a crítica, a competição, a dúvida e o diálogo se transformem em instrumentos construtores da paz e do equilíbrio grupai.

A criação de laços mais gratificantes e motivantes como a confiança, a simpatia, a amizade, a alegria, que geram o bem-estar para a convivência, são algumas das vantagens do afeto cristão nos relacionamentos. Alinhemos assim alguns outros reflexos dessas relações humanitárias:

- Enfoque centrado nos valores uns dos outros.

- Carinhosa indulgência com os limites e imperfeições no conjunto.

- Melhores chances de converter os conflitos em lições.

- Valorização e compartilhamento das ideias e movimentações no bem de uns pelos outros.

Allan Kardec na sua nobreza de caráter e grandeza de coração não era apenas um homem de finura e verniz social. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas tinha-lhe como o "bom humor em pessoa", pródigo de simpatia e afeto. Ele fazia-se verdadeira tocha de carinho e ternura a iluminar os relacionamentos entre todos, e sua presença era reverenciada como a de um pai zeloso e amigo que preenchia o vazio do coração de quantos fruíam sua companhia. Jamais impressionou-se com os papéis de sua missão e fazia sempre questão da cortesia acima de modos típicos e consagrados do povo francês àquele tempo.

Ele mesmo, com muita felicidade, talvez pressentindo os destinos sombrios que poderiam tomar o movimento social em torno do Espiritismo, declarou: "A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário" deixando entender que não bastaria o vínculo com a lição do Mestre sem a humanização dessas diretrizes na plenitude dos relacionamentos, o que seria repetir erros do religiosismo enquanto representatividade social, em desarmonia com a Verdade.

Finalizando, relembremos a saga sacrificial do Viajante do Cristo, Paulo de Tarso, que em eloquente estado de integração no amor, deixa-nos vitoriosa recomendação em favor de nossas vidas espíritas-cristãs: "Eu de muito boa vontade, me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado." (2)

Ermance Dufaux