CAPÍTULO 14 - RECEPÇÃO, ATENDIMENTO E INTEGRAÇÃO

"Uma Sociedade, onde aqueles sentimentos se achassem partilhados por todos, onde os seus componentes se reunissem com o propósito de se instruírem pelos ensinos dos Espíritos e não na expectativa de presenciarem coisas mais ou menos interessantes, ou para fazer cada um que a sua opinião prevaleça, seria não só viável, mas também indissolúvel.^ dificuldade, ainda grande, de reunir crescido número de elementos homogêneos deste ponto de vista, nos leva a dizer que, no interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem tender antes à multiplicação de pequenos grupos, do que à constituição de grandes aglomerações" O Livro dos Médiuns

Grupos harmonizados entre si têm o coração aberto aos que chegam, e tornam-se "convites vivos" para que outros participem dos ágapes de sua instituição, já constituindo essa postura afetiva um benefício expressivo no atendimento às dores alheias.

Nesses dias de definição e reajustes, a família, que deveria cumprir seu papel de núcleo educacional das virtudes superiores, perdeu seu norte pela fragilidade moral de seus membros, ficando assim a criança e o jovem, mais tarde o próprio adulto, à mercê dos fatores circunstanciais da vida para asilarem-lhe em clima educativo e formar laços de afeto estimuladores.

Nessa hora da existência surge o centro espírita qual "salva-vidas" no tempestuoso mar das provações, apresentando uma proposta preenchedora de paz e estímulo a novos caminhos. A alma então começa procurar a si mesma. Travando o contato doloroso com sua intimidade, dilacerada, pobre, doente. Por isso, as instituições espíritas, na pessoa de seus dirigentes e trabalhadores, devem se dar conta da responsabilidade que é receber e encaminhar os corações que lhe batem à porta, famintos de luz e apoio.

Em verdade, em muitos casos, as agremiações espíritas têm "cumprido" o papel de lar e família de grande parte de seus frequentadores. A dor que apresentam como "cartão de visita" nas noites de reunião é apenas o resultado de um processo de anos de solidão, desamparo, falta de orientação e carência de afeto familiar e social, adoecendo, por fim, a vida afetiva do ser.

Abracemos cada "pedinte" como nosso filho ou irmão, e ofereçamo-lhe a oportunidade de integrar a nossa família espírita, fazendo parte da nossa família espiritual, refestelando-se conosco dos banquetes de luz e Amor que o Espiritismo nos propicia, fortalecendo-o para regressar mais animado e esperançoso em dias melhores junto aos seus.

Passemo-lo o nosso bem-estar, contando as histórias felizes que inclinaram-nos às diretrizes espíritas.

Os líderes espíritas, porque possuem aguçado senso crítico, quase sempre, destacam a precariedade em que se encontram muitos serviços doutrinários, e apontam mudanças necessárias, o que é muito justo. Não podemos deixar, por nossa vez, de atestar o valor que têm as atividades doutrinárias, mesmo nessas condições, em se considerando que, para a grande maioria dos que as integram, elas são fonte inexaurível de paz, amparo, orientação e disciplina, tendo em vista a escassez de recursos morais-espirituais de seus lares ou de outros ambientes de suas vivências atuais.

- Recepciona-os, valorizando.

- Atende-os, orientando.

- Integra-os, promovendo.

Valorização, orientação e promoção constituem um programa educacional de amplas possibilidades, e quando conseguimos vencer tais etapas sob o amplexo do afeto fraternal, ensejamos aos novos trabalhadores a coragem para o recomeço, para o "batismo" de um novo homem, para "reencarnar na encarnação" retomando seu planejamento original antes de seu regresso ao corpo carnal, resgatando seus sonhos...

O passo inicial para a composição de grupos fraternais ocorre naquele momento da recepção amiga e terna. Ali deixamos a primeira impressão de nossa família, de nosso grupamento. Nesse instante, estamos confortando a dor do peito oprimido e a um só tempo cativando o desabrochar do futuro trabalhador. Os elos da confiança se estabelecem e, daí para a amizade, basta somente um gesto de ternura.

Receber bem no centro espírita é nossa obrigação como espíritas, faz parte da moral cristã de abraçar a todos como irmãos e amigos, e, sobretudo, é o dever de qualquer instituição que se digna a prestar serviços junto a sociedade.

Valorizar o atendido é exprimir afeto e confiança, o que valerá por mil palavras. Além do que essa postura vai auxiliá-lo na autoconfiança em vencer suas mazelas que o levaram ao centro espírita.

Acolhido como ser pensante e com potencialidades a serem desenvolvidas, terá mais disposição para a sua própria transformação. Será então muito confortador e motivante saber que, mesmo suas experiências de vida mal sucedidas, seu conhecimento, suas parcas possibilidades, não lhe tornam indigno de contribuir e cooperar. Essa foi a plataforma educativa do Mestre Jesus, a pedagogia da esperança ante corações esfacelados pela volúpia do egoísmo e da derrocada moral.

Espontaneidade com moderação, preparo interior pela oração para espargir magnetismo salutar, conhecimento das necessidades alheias, disposição íntima de ser útil e servir, finura de trato, o sorriso afetuoso, são algumas das diretrizes dos recepcionistas fraternos.

O atendimento em nome do Amor será ministrado de conformidade com a necessidade. Evitar padronizações e chavões, procurar colocar o coração receptivo em estado de empatia, olhar as expressões verbais e físicas, procurar gravar as palavras que expressem os sentimentos da criatura para lhe conhecer os domínios do afeto, ajudar sem ilusões e imediatismos, ser claro no que a instituição poderá oferecer, estabelecer parcerias com organizações que possam atender outras necessidades do atendido, oferecer-lhe a luz dos conhecimentos espíritas no seu drama, eis alguns do requisitos do atendimento fraternal.

Dessa forma a integração com os serviços será o natural reflexo do nível de melhora e envolvimento com os componentes da Casa. Quanto mais vínculos sólidos efetivarem-se nessa caminhada, desde o instante da chegada ao da melhora, mais interesse haverá do recém-atendido em manifestar desejo de cooperar, de realizar algo para auxiliar outros que como ele, agora, necessitam do amparo. Recebendo com Amor, falamos do Evangelho. Atendendo com carinho, divulgamos o Espiritismo. Integrando com respeito, oferecemos à vida a chance de perpetuar o ciclo, multiplicando as fontes de doação.

O Codificador é de uma felicidade ímpar ao alertar para a necessidade de circunspecção na admissão de elementos novos na organização doutrinária, menos pelos receios de problemas e mais pelas necessidades do recém-chegado. Cremos que o trecho de Allan Kardec instrui-nos acerca da cautela em acolher bem, pois sabemos todos que parte das lutas enfrentadas pela instituição espírita, nos terrenos da convivência, advém da incapacidade de absorção consciente e responsável dos que passam a integrar seus quadros de serviço, sem receberem o preparo e a orientação precisa sobre a nova senda de experiências a que se engajaram.

Quanto melhor a acolhida, melhor será a integração, mais plena de consciência individual quanto aos novéis deveres assumidos, trazendo por consequência frutos mais valorosos e alegrias para todos.

Ermance Dufaux