CAPÍTULO 18 - REBELDIA, MATRIZ DE DISTÚRBIOS

"Que importa crer na existência dos Espíritos, se essa crença não faz que aquele que a tem se torne melhor; mais benigno e indulgente para com os seus semelhantes, mais humilde e paciente na adversidade? De que serve ao avarento ser espírita, se continua avarento; ao orgulhoso, se se conserva cheio de si; ao invejoso, se permanece dominado pela inveja?" O Livro dos Médiuns

A classificação internacional de doenças agrupa sob a designação de transtornos de humor variadas psicopatologias, cuja origem encontram-se nas estruturas afetivas do ser.

A forma como sentimos o mundo, as pessoas e os fatos que nos rodeiam é sintoma determinante de saúde ou distúrbios, sendo esses últimos diagnosticados desde as neuroses brandas até as psicoses severas, com expressiva incidência de distmias nas depressões crônicas.

Esse "sentir" ou "modo afetivo" de reagir à vida é ponto crucial da atividade mental, pois retrata a automatização de mecanismos e reflexos milenares, construídos nas vivências morais consolidadas nos porões da vida subconsciencial.

Facilmente percebe-se nesses quadros de transtornos do humor a presença da fragmentação da vida mental do doente com o mundo real, em razão da inadequação ou ainda da inaceitação das experiências a que se é colocado na vida carnal.

A insatisfação persistente acrescida da auto-imagem idealizada para o mundo pessoal, retrato de anseios reprimidos, desenham um perfil psíquico e emocional para a rebeldia - reação de inconformação com o que somos, como estamos e o que temos.

Tal inconformação estabelece um campo mental de ampliada suscetibilidade, muita autopiedade, expressões comuns de "vítimas revoltadas" que criamos em nós pelo desgosto de viver e "ser".

Rebeldia é matriz de vários distúrbios crônicos, é doença da alma, matriz do inconsciente profundo, emissora de irradiações tóxicas no adoecimento da mente.

Rebeldia com o corpo, vaidade revoltada.

Rebeldia na ofensa, mágoa fortalecida a caminho do ódio.

Rebeldia nos grupos, extrema dose de personalismo. Rebeldia nas mudanças, prepotência em controlar a vida.

Rebeldia na vida material, ausência do reflexo da simplicidade no viver.

Rebeldia para estudar, orgulho do saber acumulado.

Rebeldia nas ideias, arrogância do desrespeito às opiniões alheias.

Rebeldia ante normas, sinal de que, quase sempre, nos são necessárias.

Rebeldia nas palavras, focos de calúnia e mentira. Rebeldia, portanto, é a infecção do orgulho contaminando o cosmo individual.

O homem rebelde que desconhece os desdobramentos espirituais de sua atitude sofrerá com intensidade, sendo libertado pela consciência somente quando cumprir seu dever.

Sendo presunçosos e passíveis de crônico personalismo, os conhecedores das verdades espíritas, quando na rebeldia, solapam suas existências com terríveis conflitos de culpa e desajustes comportamentais que procuram mascarar com atitudes de puritanismo ou indiferença. O homem rebelde, quando bafejado pela luz da imortalidade, é "usurário do universo" assinando sua própria petição para as vielas expiatórias nos rumos da dor, estagnando no charco da revolta e da desobediência.

Com felicidade indaga o lúcido Allan Kardec na referência de apoio: Que adianta conhecer o Espiritismo e não se tornar melhor? Façamos continuamente essa auto-avaliação para jamais esquecermos que as linhas libertadoras do comportamento espírita vão bem além do dever, penetrando as esferas do amor incondicional e da humildade obediente aos desígnios do Pai.

Rebelar é lícito a todos nos rumos da vida, mas à luz da reencarnação não podemos jamais olvidar que fomos, no passado, os arquitetos das experiências atuais nas provas que precisamos.

Relembrando isso, ainda assim nos resta o "direito de discordar" de Deus. Verificaremos, no entanto, a bem de nós próprios, que o dever de aceitar-Lhe os alvitres é fonte de paz e alívio nas dores de todo instante.

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Dirigente espírita,

Nos grupamentos de trabalho cristão a rebeldia manifesta-se como insubmissão e descomprometimento, espelhando o clamor interior de ausência de sinergia com as tarefas e com o comportamento da equipe, adicionada de um sentimento de inutilidade que se apossa do trabalhador em crise de permanente insatisfação.

Quando surja nos conjuntos de labores doutrinários, requisita a oração e a força do exemplo para, pouco a pouco, com a paciência indispensável sensibilizar o enfermo moral. Muita vez apresenta-se com tanta intensidade que não permite o auxílio, devido à deserção do cooperador.

Estejamos atentos a esses bombardeios de revolta que atingem o aprendiz invigilante. Em algumas ocasiões emudece-o, levando-o a comportamentos que apelam para análises ponderadas no amparo, precedidas de elevadas doses de compreensão, indulgência e tempo para resgatar a harmonia.

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Amigo e amiga,

Interrompe os círculos de tuas provas agravadas pela obstinação em que te situas.

Quanto mais tempo levares para reagir, mais alto te será o preço do sacrifício.

Decide agora pela mudança já que tua revolta com as mudanças pouco acrescentaram a teu sossego e felicidade.

Apegos milenares e costumes que se perdem no tempo são renovados a custa de experiências opostas a teus sonhos de ventura.

Hoje, quando te rebelas com tuas provações, alegando cansaço e insatisfação, mais não fazes que repetir o velho hábito de desafiar as leis da vida em crise de rebeldia.

Não aceitas o presente, revoltas com o passado e reclamas antecipadamente do futuro, quando o problema está em ti, e somente de ti partirá a solução.

Aceitação e trabalho de transformação íntima são tuas receitas de profilaxia. Aplica-as o quanto antes e perceberás um refrigério no torvelinho mental a que te encontras.

A cada ato de inconformação estás enfermando tua alma, e de desgosto em desgosto causarás lesões significativas em tua estrutura afetiva, gerando danos imprevisíveis para o seu psiquismo.

Começa agora tua recuperação e ora a Deus pedindo forças, tenha a humildade para tal e pára de desafiar o Criador e Suas leis.

A tua harmonia afetiva e mental depende do quanto conseguires afinar tua realidade à Sábia e Misericordiosa Vontade do Pai e, para aprenderes a identificar a Vontade Divina, começa aceitando os imperativos das circunstâncias que te cercam, assumindo-os com coragem, responsabilidade e devoção, sem utilizar-se dos instrumentos da reclamação, da leviandade e da fuga.

Por fim lembra sempre que a maior lição a que te deves empenhar ante as lutas da rebeldia é aprender a gostar do que tem, do que és e do que fazes. Em resumidas palavras, descobre, o quanto antes, como amar a ti mesmo.

Ermance Dufaux