CAPÍTULO 21 - RESGATANDO OS SONHOS

"Cordialidade recíproca entre todos os membros? O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 341

Na vida espiritual, a grande maioria dos que deixaram a carne carreiam consigo lastimável estado emocional de descrença e desvalor, em razão de perambularem pela vida física abatidos pelas provas e expiações dolorosas, que lhes subtraíram a capacidade de sonhar viver em paz e felizes.

As experiências provacionais na opressão, no sofrimento, nas privações, metas não atingidas, perdas "irreparáveis", anseios reprimidos, doenças "incuráveis", velhice frustrada, tudo isso nas mágoas e nas vielas da obsessão e da enfermidade reduzem a liberdade do homem, esgrimindo-o a regimes severos de disciplina e aprendizado.

Nessa conjuntura seus sonhos e ideais são soterrados por obrigações e necessidades de cada dia no amargor da realidade.

A função das provas, porém, entre outras, é ensinar a sonhar o que se deve e não matar o sonho.

Sonhar é pensar em crescer, ter metas, desejar progredir, encontrar soluções e vencer suas batalhas.

Sonhar é pensar sobre o futuro; quem não sonha não tem planos e nem anseios de progresso.

Somente sonham aqueles que se sentem úteis e produtivos, porque acalentam ideais.

Sem sonho as pessoas vivem sem aprender, passam sem construir.

O principal sonho a resgatar na Terra é o de ser feliz, pois as pessoas andam desacreditadas dessa possibilidade.

O tempo subjugado pela rotina retira imperceptivelmente da criatura os planos de vida e as "fantasias" de progresso, exigindo extrema capacidade de administrar as frustrações para conseguir viver e conviver ajustada aos parâmetros sociais exigidos, que, embora frágeis, tornam-se estacas de segurança e estímulo para que a desistência não tome conta da mente cansada e do coração vazio de esperanças palpáveis.

Nessa peregrinação de miseráveis sentidos, pobreza de valores e vivências é que muitas almas fazem o doloroso aprendizado dos bons costumes e da melhoria espiritual. Tolhidos muita vez do essencial, caminham vencendo séculos ou milênios de endurecimento no mal ou de recalcitramento ao bem.

Muitos deles aparecem em nossas noites de estudos públicos, tomam o passe e vão um tanto mais aliviados e confiantes, retomando suas lutas. Quando encontram grupos acolhedores e fraternos que se prestam ao serviço do amor incondicional e operante, deparam-se com um oásis dessedentador ante o deserto provacional de suas existências, resgatando forças "incompreensíveis" junto aos trâmites de sua rotina.

O afeto revitaliza em suas almas a coragem, o ânimo, a esperança, resgatando antigos valores adormecidos e espezinhados pela tormenta e pela sofreguidão.

Retomam também, ao longo de um tempo, a capacidade de sonhar colocando em ação os departamentos da imaginação e da criatividade, no desenvolvimento de metas sábias e harmonizadas com os novos conhecimentos e projetos de vida, sob a tutela da Imortalidade.

O estudo e o trabalho espíritas servem-lhes de investimento motivador da liberdade com responsabilidade, para a qual irão destinar, de agora para o futuro, todos os seus esforços possíveis na tentativa de dar sentido nobre e embelezador às suas vidas, até então, para eles, vazias e pobres.

Esse idealismo, essa paixão por um sonho de melhora espiritual é das mais preciosas dádivas a que pode entregar-se alguém, frente aos muitos sonhos ilusórios e vácuos cultivados por maioria esmagadora da humanidade terrena, ante os apelos do materialismo e do prazer dos sentidos.

Razão pela qual, ante os quadros humanos de dor, o centro espírita deve ser aquele oásis de amor, paz e esperança aos viajantes cansados e oprimidos do caminho.

Repetindo a diretriz do Mestre: vinde a mim que vos aliviarei, a casa espírita, na pessoa de seus cooperadores e condutores, deve direcionar seus ambientes, quanto possível, para auxiliarem o homem a recuperar sua dignidade e sentir-se novamente um Filho de Deus.

Precisamos dar encanto aos nossos grupos. Encanto esse, acima de tudo, na vida interpessoal dispondo-nos ao cultivo da ternura, do respeito e carinho para que, antes do sonho, o ser sofrido e em provação, resgate a confiança no outro, reavivando suas sucumbidas esperanças nos valores humanos cristãos e renovando suas crenças falidas no amor e na felicidade.

Contínua e invariavelmente perguntemos a nós mesmos se estamos construindo as condições de encanto em nossos Círculos Espíritas, a fim de aferirmos o quanto estamos integrados com a proposta educativa da Doutrina Espírita.

Espiritismo é desafio educacional; e educação, entre vários significados, contempla o educador como incomparável guia e descobridor, auxiliando o próximo a reencontrar consigo mesmo e a retomar razões para viver, sonhar e "ser".

Nesse prisma, a função do centro espírita será resgatar a capacidade de sonhar e instrumentalizar o homem de recursos morais-espirituais, que o auxiliem a tornar reais os seus ideais nas linhas do dever e da libertação incorruptível.

Daí o acerto da recomendação Kardequiana: "cordialidade recíproca entre todos os membros". Um gesto de afeto, uma palavra amiga, um minuto de atenção será alívio e força para todos esses homens e mulheres que vivem amargurados pelos pesadelos da realidade provacional, constituindo-se, muita vez, em portal de entrada para novos e mais felizes dias no futuro...

Ermance Dufaux