CAPÍTULO 22 - DIVERGÊNCIA E DISSIDÊNCIA

"Estas últimas reflexões se aplicam igualmente a todos os grupos que porventura divirjam sobre alguns pontos da doutrina. Conforme dissemos, no capítulo das Contradições, essas divergências, as mais das vezes, apenas versam sobre acessórios, não raro mesmo sobre simples palavras. Fora, portanto, pueril constituírem bando a parte alguns, por não pensarem todos do mesmo modo. 'Pior ainda do que isso seria o se tornarem ciosos uns dos outros os diferentes grupos ou associações da mesma cidade" O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 349

Tema sempre oportuno é o amor que devemos uns aos outros em nossos círculos doutrinários de Espiritismo.

O conteúdo esclarecedor da Doutrina Espírita é meio, é instrumento pedagógico, a fim de que alcancemos a essência evolutiva do ser, que é o Amor. Por essa razão, os laços de simpatia e cordialidade deverão estar sempre acima das questões de interpretação intelectiva.

Merece ser analisado nesse tema a questão da "ética da diversidade", que deve orientar as atitudes entre compares de um mesmo ideal doutrinário.

As vivências sucessivas nos terrenos da religião sulcaram a mente humana com hábitos que até hoje refletem na convivência rotineira. Entre eles destacamos a ação discriminatória a quem não se alinhe filosoficamente aos princípios estatuídos por uma ordem religiosa.

Tachados de hereges e dissidentes, muitos corações ao longo da história sofreram o cáustico da dor, tão somente pelo fato de divergir no campo das idéias e dos costumes. Assim criou-se uma mentalidade de uniformização doutrinária intocável, inquestionável, e quantos ousassem divergir estariam sob influência maléfica de forças contrárias.

Verificamos os resquícios desse hábito enfermo nos ambientes espíritas, nos quais muitos relacionamentos emparelharam-se com as questões do religiosismo, alavancando todas as associações mentais pertinentes a essa experiência.

Desse modo, em nossas fileiras de aprendizado, o ato saudável de divergir adquiriu uma conotação pejorativa, uma atitude própria de "obsedados", dissidentes e personalistas, estabelecendo o conceito de que divergir significa oposição. Contudo, pensar diferente não deveria significar que se ama menos ou que se está contrário a alguém ou a alguma instituição. Nem todos que divergem têm intenções dissidentes ou contrárias.

A divergência de idéias é uma necessidade a quaisquer grupos ou pessoas que desejem o crescimento real. Onde todos pensam uniformemente há muito campo para o radicalismo de opiniões, à dissimulação de sentimentos e à fragilidade de elos emocionais para formação de relações sadias. Saber conviver com opiniões contrárias é saber emitir idéias sem a carga emocional da vaidosa pretensão.

Por isso, atentemos para o debate honesto e equilibrado, através do qual empreende-se a convivência fraterna em clima de pontos de vista diversos, e estimulase a ação solidária em busca de pontos convergentes e de um relacionamento harmónico, não afetado pelo ato de discordar.

Propugnar por um alinhamento ideológico em regime de unanimidade é arar terreno para que a cada dia estejamos distantes da verdadeira união a que todos almejamos. O que precisamos é aprender a conviver em regime de diversidade, prestigiando as diferenças e os diferentes com os nossos melhores sentimentos, principalmente se deles discordamos.

A ética da diversidade, a alteridade, é o próprio ensino de Jesus quando nos indaga: que galardão há em amar somente os que vos amam?

Pergunta essa que merece a maior atenção de nossos grêmios espíritas-cristãos, diante do desafio de disseminarmos para a sociedade os padrões éticos de uma "nova humanidade", ante o alvorecer desse terceiro milênio.

A verdadeira unificação só se fará privilegiando a "ética das diferenças", elegendo o respeito com todos os livres pensadores e segmentos que se estruturam em nossos grupos, respeitando-se e solidarizando-se.

Essa ética, que é a do Evangelho, propõem-nos: amai os vossos inimigos'2', orai pelos que vos perseguem e caluniam; enfim, é o amor alteritário, altruísmo vivido e exemplificado acima de tudo para com os que divergem de nosso entendimento.

Se guardamos as mais nobres intenções na escola do amor, e se divergimos no entendimento, exerçamos na intimidade esse aprendizado da alteridade aos que comungam conosco as rotas de ação e entendimento.

O grande desafio do programa unificador para o próximo século é a convivência alteritária sob o pálio do Amor fraterno. Nesse tempo compreender-se-á que caminhos dissidentes nem sempre são caminhos oponentes, mas, antes de tudo, alternativas de labor e aprendizado na escola diversificada da vida.

Não podemos deixar de ressaltar, conforme Allan Kardec destacou em "Os cismas", nas suas Obras Póstumas", que há dissidências ocasionadas por personalismos e vaidade, com ingentes carências afetivas direcionadas para o destaque pessoal. Retifiquemos, porém, nossa visão, pois nem todos que enxergam a Doutrina por óticas diversas às nossas ou que implementam programas com propostas fora dos padrões costumeiros, necessariamente, escolheram essa trilha para serem opositores contumazes e exclusivistas em busca de realce e glórias individuais.

Atentemos para essa questão sutil do amor.

Amar os diferentes.

Ética da diversidade.

Amor aos divergentes.

Jesus, o modelo, foi a grande referência. Sempre, por onde passou, externou pujante amor a todos, enriquecendo Seu caminho de lições alteritárias com muita abertura para acolher os divergentes de toda estirpe, sem exclusões e sem dissidências, conquanto tenha Ele divergido dos caminhos humanos durante todo o Seu ministério.

Ermance Dufaux