CAPÍTULO 23 - PAIXÃO E AMOR

"A ausência de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã" O Livro dos médiuns - cap. 29 - item 341

O alimento afetivo é essencial para o equilíbrio do ser humano. Sua função junto ao complexo psico-físico do ser é de evidentes e comprovados efeitos a partir da neurofisiologia do organismo corporal. A permuta afetiva produz a dinamização de substâncias neuroquímicas e a produção de endorfinas, gerando mensagens de prazer para o corpo que com elas se delicia em sensações agradáveis e revitalizantes. Igualmente, a corrente sanguínea é irrigada de adrenalina produzindo calor, daí a expressão "calor humano" quando se refere aos intercâmbios do coração.

Como se não bastasse, a vida mental é plenamente reciclada em cada ato de amor libertador, porque o afeto é a seiva reguladora do "sistema humoral" da criatura, nutrindo os neurónios de cargas psico-afetivas para o equilíbrio mental.

Apesar de sua função vital para a felicidade, a humanidade terrena estagia nos primeiros degraus do aprendizado relativo a questões da vida afetiva. A escola da convivência encontra-se ainda na infância de suas lições acerca do uso nobre do afeto, analisado sob as lentes do Espírito imortal.

A construção de relações libertadoras e sadias para a felicidade e a paz exigem a boa utilização desse potencial, em quantidade e qualidade adequadas à personalidade de cada criatura, nos grupos de nossa atuação. Nessa perspectiva, torna-se imperioso averiguar as diferenças marcantes entre amar e apaixonar, no quadro das afeições do coração, para que obtenhamos melhores noções na aferição de nossas expressões de afetividade.

Na Terra toma-se um como sinônimo do outro e diz-se "amar loucamente" quando se está apaixonado. Mas a paixão atrofia o livre-arbítrio, hipnotiza o raciocínio e perturba o comportamento, enquanto o Amor liberta, amplia o discernimento e gera harmonia no "ser".

A paixão é um fenômeno atrelado à gênese do egoísmo, enquanto o Amor é a etapa das relações em que existe a renúncia espontânea do "eu".

Consideremo-la como um dique rompido que permite às energias emocionais provocarem intensa evasão, quando não são contidas pela disciplina e pela conduta ética superior. Havendo o descontrole nos reinos do sentimento, automaticamente serão ativados os mecanismos da atração magnética e os implementos psico-fisicos do "sistema sexual".

"Paixões relâmpagos" costumam atormentar as mentes que se permitem fantasias de ventura ou o prazer em instantes de crise na guarda moral de si mesmas.

Paixões fulminantes sempre serão caminhos perigosos para o encontro com o verdadeiro amor, e não será demais lembrar que elas são um capítulo infeliz de histórias que, comumente, terminam em decepções e muita mágoa que deixam doloridas feridas afetivas.

A paixão é como um colapso das forças do coração colocando a criatura refém de si mesma, nos domínios da afeição sem limites, atordoando a razão e enfraquecendo a vontade, causando uma pane biológica na vida hormonal e neurocerebral, tema esse que tem merecido estudos da neurociência na compreensão da química fisiológica.

Sabe-se na Terra que os processos afetivos são responsáveis diretos pela harmonia ou desajustes na vida dos neurônios. O estudo das sinapses - conexão entre os neurônios - tem revelado ao homem que a quantidade de neurotransmissores - elementos químicos mensageiros - é fator determinante para variados quadros dos distúrbios do humor, desde a depressão branda a psicoses graves.

O homem e a mulher apaixonados alteram significativamente a produção de tais substâncias responsáveis pelo fenômeno do apaixonamento, preenchendo os espaços sinápticos de dopamina e noradrenalina, causando extraordinário bem-estar físico, outras vezes produzindo a "morfina natural" ou as endorfinas, levando a reações incomparáveis de saúde e vitalidade. Sua ação altera o cosmo bio-fisiológico, contudo, passado o efeito desse colapso de "afeto biológico", os reflexos do estado anterior retornarão podendo mesmo alterar o funcionamento da vida neuronial, a partir de processos energéticos que são detonados na vida mental extracerebral em razão dessa "pane dos sentimentos".

Seja pela decepção ou porque acabou o "fogo fátuo" do "amor apaixonado", dois resultados pouco construtivos ficam dessa experiência: o intenso desejo de uma nova experiência melhor sucedida na sua conclusão, ou ainda a mágoa prolongada seguida de reclusão nas questões do Amor. Ambas, consequências infelizes para o equilíbrio e a maturação dos relacionamentos.

A paixão afetiva sentida em qualquer época da vida, seja na juventude ou mesmo na velhice, ainda é um sintoma de imaturidade espiritual, um fenômeno primário enquistado nos refolhos da mente em milenares degraus da evolução dos processos do sentir. Seu benefício passageiro, quase sempre sem as condições de continuidade, denuncia sua pouca utilidade para o crescimento no campo das experiências da maturação emocional.

O verdadeiro Amor, ao contrário de tudo isso, é uma construção lenta, feita dia após dia, é um desenvolvimento efetivado pela entrega integral e a responsabilidade com os deveres assumidos junto ao outro. É uma parceria que tende a crescer, na medida em que o par ou grupo cultivam os valores da cooperação espontânea, do apoio incondicional, da valorização mútua, do diálogo e outros tantos caminhos que fazem da relação uma amizade preciosa e boa de viver, sem os ímpetos infantis e arriscados da paixão.

Vigiemos nossas expressões de afeição, seja em qual direção for.

Nas experiências espíritas, convenhamos que existe um tipo de paixão que torna imperativo a disciplina: é a paixão idólatra na qual canalizamos excessiva dose de afeto a pessoas de nossa admiração ou a práticas, às quais nos devotamos nas rotinas doutrinárias, incentivando assim o misticismo e a mitificação em atos de "fé impulsiva", na sustentação de carências pessoais. Tais lances da convivência em nossos núcleos espirituais podem incentivar o desequilíbrio, se não houver vigilância.

Confundindo mais uma vez a paixão com Amor, apegamo-nos excessivamente a essas situações, permitindo um predomínio de sentimentos para com esse ou aquele coração ou atividade, sobrecarregando-os com frustrações e projeções de necessidades individuais, desenvolvendo uma idolatria que pode raiar ao fanatismo e às ações inferiores, se não comparecer a educação e a responsabilidade.

Tudo em excesso é pernicioso para o crescimento espiritual.

A única paixão justificável nos quadros da espiritualização é a de aprender e servir.

Como nos encontramos nos primeiros degraus da escola do amor, cuidemos de nossos relacionamentos no grupamento espírita e verifiquemos se não estamos caminhando para esses excessos dispensáveis. Evitemos confundir admiração e afeto com ilusão e carências, respectivamente. Tenhamos siso e aprendamos que mesmo o amor, o nosso amor ainda impuro, solicita muita disciplina e atenção para não permitir os golpes surpreendentes dos desejos inferiores que ainda carregamos.

Por isso costumamos destacar a convivência espírita como uma escola abençoada no burilamento da afetividade, porque nela, mais que em outros ambientes, somos chamados à lucidez da atitude através das sábias recomendações do Evangelho e do Espiritismo, em favor da integridade de nossa consciência. Talvez devido a isso, o Codificador, em nossa referência de apoio acima, destacou a necessidade de cuidarmos de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã, quando enumerou as condições morais essenciais para atrair a simpatia dos bons Espíritos.

Ermance Dufaux