CAPÍTULO 25 - ESPÍRITAS NO ALÉM

"Se a evocação dos homens ilustres, dos Espíritos superiores, é eminentemente proveitosa, pelos ensinamentos que eles nos dão, a dos Espíritos vulgares não o é menos, embora esses Espíritos sejam incapazes de resolver as questões de grande alcance'.'
"Essa é, pois, uma mina inexaurível de observações, mesmo quando o experimentador se limite a evocar aqueles cuja vida humana apresente alguma particularidade, com relação ao gênero de morte que teve, à idade, às boas e más qualidades, à posição feliz ou desgraçada que lhes coube na 'Terra, aos hábitos, ao estado mental, etc'.' O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 344

Mais uma vez a sabedoria do senhor Allan Kardec fica exposta na referência supracitada.

Ninguém como ele aprendeu tanto com as comunicações dos Espíritos "vulgares" - como denomina-lhes. Sua atividade nesse sentido foi exaustiva. E o ilustre Compêndio-Luz "O Céu e o Inferno", de sua autoria, na 2ª parte, é uma excelente coletânea de exemplos classificados com esmero pelo Codificador, atestando-nos o quanto podemos aprender com essas comunicações.

Seguindo-lhes os sábios passos, transmitiremos aos amigos uma experiência nessa linha de aprendizagem.

Em tarefas desenvolvidas na erraticidade, cooperamos no ajustamento e adaptação de recém-desencarnados ao nosso plano de vida. Quando em estágios avançados de recuperação, prestes a retomarem contato com os ambientes terrenos em excursões educativas, aplicamos diversas técnicas de preparo e sensibilização; entre elas, o aprendiz disserta, em uma missiva com apontamentos elevados, a sua experiência desencarnatória.

Selecionamos entre as muitas missivas, e com a autorização do missivista, um drama comum a boa parte das desencarnações de espíritas. Objetivamos assim que a vivência desse coração querido, nos lances da vida afetiva, seja útil às reflexões de vós outros que se encontram na carne investidos das responsabilidades com o Consolador. Segue, resumidamente, a missiva.

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"Meu drama não escapa dos resultados infelizes que nós, os espíritas, na maioria dos casos, colhemos além-túmulo quando empanturramos o cérebro com informações doutrinárias, sem digeri-las saudavelmente na vivência diuturna. Acumular conhecimento sem renovar o coração é o mesmo que nos mantermos desavisadamente à beira de enorme precipício que, ao menor descuido, arremessa-nos aos despenhadeiros da "morte física e espiritual."

"Somente aqui percebi com clareza que o pensamento iluminado é roteiro de paz, mas o sentimento, em verdade, é o "espelho" da consciência na busca dessa mesma paz que, no meu caso, ficou soterrada sob o monturo da distração e do interesse pessoal."

"A razão esclarecida, quando se dissocia do afeto elevado, é parceira da ilusão, adquirindo séculos de dor e enganos que, depois de muito sofrimento, servirão como buril do coração na conquista dos sentimentos nobres. Contudo, Deus não nos criou esse doloroso caminho. Nós o escolhemos..."

"Minha primeira grande decepção no além foi o encontro que tive com algumas companhias, que cumprimentaram-me com leviana intimidade e termos chulos. Ao esboçar mentalmente a indagação sobre quem seriam, não careci da resposta, porque ressumava na minha mente lembranças estranhas de lugares e ações entre nós... Percebi então que eram velhas companhias de minhas antigas condutas, com as quais seria deseducação e desentendimento querer me livrar."

"A Misericórdia Divina, porém, é generosa sem ser conivente, e graças a alguns benefícios que espalhei abnegadamente, tive um estágio curto em tais companhias e ambientes repugnantes nos círculos próximos à Terra."

"Minha falência tem sido a de inúmeros companheiros de ideal."

"Como disse, cérebro iluminado não garante nobreza de afeto, e foi em razão de descuidos do sentimento que lavrei minha desdita."

"Os primeiros cinco anos de vida espírita, iniciada em plena juventude aos vinte anos, foram estacas balizadoras. Trabalho, estudo e melhora moral. Chegou, no entanto, a hora do testemunho. Depois da faculdade, surgiu incomparável chance profissional. Não a perderia jamais. Dediquei-me de tal forma ao mister que abandonei a escola do centro espírita. Cada dia mais tornava-se imperativo desdobrar-me aos negócios."

"Justificava com a necessidade de descanso, e ademais pensava: isso passa rápido e logo terei vida farta, podendo dedicar-me ao Espiritismo."

"Aos trinta e cinco anos já era um homem cansado, sem ideal, nem mesmo os materiais, já que comprovei na afanosa carreira que a justiça social é inimiga do sucesso dos honestos. Cedi então aos alvitres da falcatrua elegante e "justificável". Afinal, "não haveria outro jeito." Comecei a ter lucros. Às vezes tinha sentimentos de desconforto, mas aprendi a "enganar" a consciência."

"Aos quarenta a idéia de formar família atordoou-me; nunca fui dado a aventuras afetivas, pensava em filhos. Minha cabeça não permitia o tempo para os anelos do amor. O sexo não me atormentava."

"Aos quarenta e sete anos, com uma vida estressada, fumando e ingerindo alcoólicos, regularmente, adquiri uma úlcera duodenal que consumia minhas forças essenciais. Numa das internações hospitalares, meditava sobre minha juventude e tive a impressão nítida da presença espiritual de minha mãezinha querida; adormeci e tive sonhos inesquecíveis, nos quais ela chamava-me para a lucidez. Tudo em vão; saindo do hospital, deliberei por um negócio engenhoso. Foi meu último passo na vida física, porque os resultados foram desastrosos, levando-me a incontida frustração e cruel desânimo. Peregrinei nos centros espíritas novamente, entretanto, a despeito de saber de tudo aquilo que ouvia, nada sentia no coração sofrido e enregelado que me motivasse a alguma mudança."

"Descuidado e imprevidente, desencarnei em lamentável acidente automobilístico."

"Somente depois de muitas etapas superadas na auto-recuperação é que posso concluir com acerto sobre o drama que me abateu: priorizar e comprometer-se com as questões espirituais é assunto do coração, é questão do sentimento. E se o sentimento é o "espelho" da consciência, devemos refletir a "Imagem Divina", a bem de nós mesmos."

"Distraído que fui, pago o preço do descompromisso..."

"Hoje tenho para mim uma outra escala de aferição sobre quem são os verdadeiros espíritas. Eu, que entusiasmei-me em excesso com escritores renomados, médiuns ilustres e "bibliotecas ambulantes de Espiritismo" em que muitos se tornavam, acredito agora que espírita com Jesus, no rumo da sua paz, é aquele que em qualquer tempo, nos reveses ou na calmaria, mantém o ideal de melhoria acima de quaisquer circunstâncias, jamais abandonando ou protelando as tarefas, renunciando sempre que possível a gostos e projetos pessoais, deixando-se levar com muito equilíbrio pelos ditames do coração, que são direções seguras da consciência, encaminhando-nos para a lídima felicidade."

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Amigo de jornada,

Eis a nossa grande empreitada nos estágios espirituais em que nos encontramos: alfabetizar o coração na trilhas do bem definitivo, efetivar a aprendizagem da religião cósmica do Amor, plenificar a existência renovando o modo de sentir.

Indagamos oportunamente o sábio Bezerra de Menezes sobre qual seria o maior drama vivido pelos espíritas ao deixar a vida corporal, e dele recebemos a seguinte gema de sabedoria:

"Filha, os dramas espirituais são resultados da semeadura terrena, obrigando o lavrador da vida a colher os frutos do que plantou, conforme a lei dos méritos. Assim sendo, o maior drama daqueles que se internam na "Enfermaria do Espiritismo" não está na infeliz colheita de sofrimento aqui na vida extrafísica, mas sim no dia a dia da experiência terrena quando recusam-se, na condição de doentes, a ingerir o remédio da renovação interior. Conscientes do que existe para além da morte, deveriam submeter-se a urgente metamorfose afetiva, acionando os recursos da educação com vontade firme e muita oração.

O esclarecimento, mesmo constituindo luz e lenitivo, por si só, não basta ao sublime tentame."

"Os dramas do além são consequências. O verdadeiro drama está em conhecer e nada fazer para melhorar-se."

- E arrematou o venerável apóstolo do bem:

"Parece um contra-senso! Enquanto o homem comum colhe amargos frutos na vida espiritual pelo desconhecimento, os espíritas, quase sem exceções, experimentam sofrida amargura por muito conhecer!..."

Perante a missiva exposta e as palavras do "médico dos pobres", erguemos em alta voz a campanha pela humanização nos centros espíritas, convocando os co-idealistas, como lema de suas ações, a inspirada proposta do Espírito Verdade:

"Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo."

Certamente não será sem razões que nesse apelo o amor é o primeiro ensinamento...

Ermance Dufaux