CAPÍTULO 27 - SEVERA INIMIGA

"Graças a surdos manejos, que passam despercebidos, espalham a dúvida, a desconfiança e a desafeição; sob a aparência de interesse hipócrita pela causa, tudo criticam, formam conciliábulos e corrilhos que presto rompem a harmonia do conjunto; é o que querem. Em se tratando de gente dessa espécie, apedar para os sentimentos de caridade e fraternidade é falar a surdos voluntários, porquanto o objetivo de tais criaturas é precisamente aniquilar esses sentimentos, que constituem os maiores obstáculos opostos a seus manejos. Semelhante estado de coisas, desagradável em todas as Sociedades, ainda mais o é nas associações espíritas, porque, se não ocasiona um rompimento gera uma preocupação incompatível com o recolhimento e a atenção." O Livro dos médiuns.

Sua ação assemelha-se a chamas ardentes no coração. Crepita somente onde existe o combustível do interesse pessoal.

Resulta da extrema necessidade de projeção e aprovação social.

Traveste-se de animosidade crônica quando não consegue empanar o brilho alheio.

Carcome no ódio as almas indispostas a se moralizarem.

Graças a seus complexos manejos, inclina o homem a destacar os aspectos sombrios dos esforços do próximo, reduzindo-os em favor da exaltação egoísta. Não conseguindo domínio sobre as reações emocionais infelicitadoras de que o acometem, camufla a sua desafeição com a indiferença e o descaso.

Apaga do dicionário da cordialidade as palavras de incentivo e elogio, admiração e alegria com os sucessos de outrem.

Adora plágios de idéias que lhe rendam a sensação de originalidade e inteligência.

Causadora de dissidência por não estimular uma convivência valorativa das habilidades e ações dos que compartilham responsabilidades na faina espiritual.

Astuta fantasia do orgulho, domina o coração em razão da escassa auto-estima.

Ónus afetivo que carreamos contra nós próprios ao longo de milênios!

Referimo-nos à inveja, severa inimiga de nossa paz interior.

A inveja é das mais cruéis imperfeições morais, porque é filha queridíssima do orgulho, e sendo assim, é dos sentimentos que a criatura menos confessa a si mesmo. Pergunte a um grupamento das fileiras do Consolador quem padece de tal doença e, certamente, as justificativas de escape surgirão prestes a abonar as atitudes, fugindo cada qual de reconhecer que padece de inveja.

De fato, é a imperfeição que menos admitimos em nós, e que, no entanto, pela sua forma "engenhosa" de ser, impede seu reconhecimento.

Os limites entre a inveja e a necessidade de progresso, o desejo de lograr metas que outros venceram, é muito sutil e demanda auto-conhecimento.

Bom será para nós, os seareiros do último momento, que estudemo-la com a profundidade que se faz credora, a fim de aquilatarmos sua presença danosa nos celeiros de Amor do Espiritismo.

É necessário muita acuidade e espírito de fraternidade para constatar sua ação sutil e nociva em atos e pensamentos, palavras e decisões, sentimentos e procedimento.

Nossa atenção, entretanto, volta-se para uma de suas facetas mais pertinentes à faina doutrinária, ou seja, a animosidade crônica.

Conceituemo-la como sendo contumaz e crescente indisposição afetiva. Uma indesejável, inoportuna e "estranha" rivalidade com alguém.

Surge em razão de pequenos acidentes do relacionamento ou mesmo inesperadamente, sem nenhuma razão aparente.

Persegue seu portador com incômodos e indefiníveis sentimentos ante a presença daqueles que lhe são alvo de sua indisposição, chegando, muita vez, a constrangê-los ou confundi-los. Os invejosos deixam sempre as sensação de que estão escondendo-se perante os invejados...

Tipifica-se como um fechamento intencional do afeto, "coagulando" as emoções na "frieza disfarçada".

Se não houver nobreza moral e alguns cuidados, tomará o rumo da aversão e da malquerença.

Se forem, os invejosos, de temperamento discreto, guardarão variados estados de ânimo sob intensa pressão íntima seguida de mal-estar. Se extrovertidos, despencarão pela maledicência como extravasamento enfermiço.

Analisando suas causas mais comuns, constatamos que a inveja promove a inaceitação da felicidade, do êxito alheio e de perfis psicológicos que não coadunem com os quesitos pessoais do invejoso, ou então ela, a inveja, apenas deflagra elos mal vividos de outras existências corporais, retomando um ciclo de vinditas afetivas.

Crônica doença do afeto, essa animosidade pertinaz só será vencida à custa de muita "oração e jejum", pautando-se nos relacionamentos com muita maleabilidade, superando o caráter rígido, disciplinando-se a hábitos de cordialidade e toques de ternura no despertamento de bons sentimentos, vigiando as expressões do humor e do Amor até mesmo quando estiverem restritas ao campo dos pensamentos. Em verdade, o que precisa o invejoso é ouvir o coração clamando pela ação de paz e incentivo aos bons passos de quantos não suportam acompanhar as vitórias. Ouvir e agir no bem, eis o desafio!

Tão graves são os ardis da severa inimiga que o invejoso, quando acolhido com entusiasmo e cordialidade de quem é alvo de seus sentimentos, sente-se humilhado, disfarçando-se com atos de desdém.

Os invejosos são, sobretudo, "sutis detetives" da conduta alheia.

Chegará o momento em que reconhecerão o mal que causam a si próprios no ato de adular a severa inimiga, que se esconde traiçoeira nos bastidores de suas movimentações infelizes.

*****

Amigo do coração,

O Codificador relaciona em nosso item de apoio a questão dos inimigos confessos do Espiritismo no seu tempo, cuja frequência às sessões hebdomadárias tinha como principal objetivo retardar a marcha do Espiritismo. Hoje, esses inimigos, não estão mais contra a Doutrina, mas podemos encontrá-los em velada oposição aos profitentes da causa, com os quais sentem ciumeiras e despeitos infantis.

Convém-nos relembrar a advertência oportuna exarada nos primeiros momentos do Espiritismo: "Se os inimigos externos nada podem contra o Espiritismo, o mesmo não se dá com os de dentro. Refíro-me aos que são mais Espíritas de nome que de fato, sem falar dos que do Espiritismo apenas têm a máscara" .

Nesse tema, alertamos aos servidores devotados e animosos para precaverem-se contra esse capítulo especialíssimo da convivência doutrinária. Evitem prezar em excesso essas artimanhas e caprichos do comportamento invejoso, quando o destino de tais investidas forem a ti endereçadas. Considerar em demasia esse gênero de conduta infeliz é atrair para si mesmo o halo vibratório emanante de tais corações. Mesmo quando tenhas sido o motivador da invigilância dos que te cercam, ora por eles e demonstra humildade sem subserviência.

Intencional ou não, a ação invejosa desses adversários gratuitos dos obreiros dispostos ao bem culminam em lamentáveis processos de leviandade verbal.

Difamação e maledicência são-lhe os açoites da palavra, provocando deserções e dissidências.

Como acentua o lúcido Kardec, agem através de "surdos manejos, que passam despercebidos", e no campo do afeto "espalham a dúvida, a desconfiança e a desafeição". São instrumentos da cizânia.

Sentindo-se inferiorizados face às comparações que estabelecem com os bem-sucedidos, destacam os aspectos menos úteis da ação alheia...

Nas lides do centro doutrinário, a inveja, em vários casos, é sintoma de apego e apropriação de espaços de trabalho, seja nos cargos ou em atividades com as quais o carinho e a devoção do trabalhador abrilhantaram os deveres naquela oportunidade, seja na disputa mental que o invejoso trava entre si e aquele que concebe como oponente, em razão da desenvolta atuação de seu imaginário adversário.

Percebe-se ainda a presença da inveja nos lidadores despeitados através do desvalor com que tratam o empenho do outro. Verificando um evento ou iniciativa, procuram atenuar a grandeza do êxito de grupos ou pessoas destacando facilidades e comodidades para tal tentame, ou ainda assinalando, sob sua perspectiva, os "lados ruins" de tais empreendimentos.

Na verdade, o incômodo do invejoso com o progresso dos outros lhe é algo muito doloroso.

Nessa posição desditosa, sempre empenhado em olhar para fora de si, estabelecendo comparações e debochando das vitórias alheias, o invejoso impede a si mesmo de perceber seus valores pessoais, sua possibilidade de agir, de vencer, embaçando sua visão espiritual para entender o papel glorioso a ele reservado na obra do Pai.

Certamente, sua crise moral é de inaceitação e rebeldia. Querendo ter ou ser o que os outros são ou têm, termina cada vez mais infelicitado e descontente, com isso dando uma escandalosa prova de desamor a si mesmo.

As criaturas que se amam ou estão aprendendo a se amar compreendem que o "ser" tem seu destino, sua rota, sua missão, e que ninguém, ninguém mesmo, possui nem mais nem menos do que aquilo que merece ou precisa para cumprir seu caminho divino.

Porém, quando a alma entende as "ordens naturais da vida", assimila sua parte individual na Obra excelsa de Deus, compenetrando-se do espírito de "cidadão do universo" e realizando a ventura de atuar pela edificação a que foi convocado, em paz e júbilos infindáveis.

Entendamos assim que admirar, elogiar, compartilhar e incentivar as vitórias dos co-idealistas é a formação do hábito da solidariedade relacional no coração e exercício afetivo preventivo contra a inveja.

Adequemo-nos a esse comportamento feliz como quem estende as mãos uns aos outros em forte corrente do bem, auxiliando-nos mutuamente, fortalecendo os valores individuais e as benesses das tarefas, sem fixar-nos nas deficiências do trabalho ou do trabalhador.

Resumamos então em pequeno roteiro os passos no combate à nossa severa inimiga, quando ela se manifeste:

- Admitir sua existência no coração é o primeiro passo.

- Conhecer suas formas de manifestação.

- Estudar suas razões através de uma viagem interior.

- Adquirir o controle sobre as suas reações emocionais.

- Saber conviver harmoniosamente com ela, transformando-a para o bem.

- Empenhar-se na renovação da convivência construtiva com quem é alvo de suas investidas.

Ermance Dufaux