CAPÍTULO 29 - NOS LEITOS DA CARIDADE

"Como a caridade é o mais forte antídoto desse veneno, o sentimento da caridade é o que eles mais procuram abafar Não se deve, portanto, esperar que o mal se haja tornado incurável, para remediá-lo; não se deve, sequer, esperar que os primeiros sintomas se manifestem; o de que se deve cuidar acima de tudo, é de preveni-lo" O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 340

Uma sutilidade da convivência humana tem se tornado muito habitual: a falta de gratificação nos relacionamentos.

O efeito imediato dessa indesejável situação é a ausência de motivos para recriar os encontros, já desgastados, com aqueles que compartilhamos os deveres na órbita doutrinária, levando-nos a acalentar o distanciamento proposital, escolhido.

No educandário das provas sociais, onde crescemos à custa do trabalho-obrigação, é compreensível que tal quadro se desenvolva. Não podemos afirmar o mesmo quando se trata dos encontros e desencontros nas frentes de crescimento com Jesus.

Simpatia, antipatia, admiração e aversão nessa perspectiva são fatores reeducacionais de aprendizagem dos quais jamais devemos desertar, a pretexto de estabelecer somente relações felizes e que sejam agradáveis.

Quando nominamos o centro espírita como educandário do afeto é porque nele percebemos a imensa clareira de oportunidades para a aquisição dos valores morais e emocionais, que somente serão hauridos na vida relacional ajustada a uma proposta de transformação pelas vias da educação.

Uma das causas dessa desistência de conviver podemos encontrar na sobrecarga que muitas vezes costumamos colocar sobre os irmãos de ideal, em razão das elevadas expectativas que nutrimos sobre seu proceder, aguardando deles finuras e gentilezas constantes como atestado de autenticidade espírita. Com isso esquecemos das nossas limitações e carências, passando a cobrar dos outros o que ainda não temos condições de realizar. E' salutar aguardar o melhor dos amigos, contudo, evitemos a rigidez ante suas escorregadelas, porque senão estaremos, em verdade, acariciando a intransigência disfarçada em decepção. Elevadas expectativas devemos tê-las para conosco mesmo, embora ainda assim tenhamos de usar de paciência e autoperdão constantes.

Temos muitas barreiras de comunicação nas relações, e isso tem impingido uma carga por demais pesada no favorecimento do entendimento e da afetividade.

O tempero do afeto, contudo, facultaria o encanto e o bem-estar à convivência, estimulando a continuidade de elos imprescindíveis para a elaboração de projetos e labores de fundamental significado nas leiras do serviço espiritual.

Ações intransigentes, se dotadas de afeto, tornar-se-iam determinação construtiva.

Palavras enérgicas, embaladas na ternura da voz, seriam alertas promissores.

Normas rígidas, se externadas com carinho, concitariam à reflexão.

Vigiemos, portanto esse distanciamento por opção e transformemos nossas relações.

Refutamos um pouco mais: deslocamos quilômetros para servir em caridade àqueles penalizados na pobreza, nos cárceres, nos hospitais, nas creches ou nas sombras da obsessão, todavia, quase sempre, descuidamos daquele coração que está ao nosso lado nas tarefas junto à agremiação doutrinária, com o qual nem sempre nutrimos as melhores expressões de afinidade e simpatia.

Estejamos assim mais atentos aos leitos de dor e penúria que se encontram, também, no âmbito de nossas próprias relações doutrinárias, acrescendo-lhes amor e amparo, proximidade e afeição.

Afeto no ato de ouvir é a caridade da atenção. Quantos se sentem menosprezados e submissos aos leitos da escassa auto-estima, clamando por um minuto de prestígio?

Afeto na atitude de valorizar o esforço alheio é a caridade do incentivo. Quantos se encontram desanimados e estirados aos leitos do descomprometimento por faltarem-lhe apreço a sua colaboração?

Afeto na saudação é a caridade da cordialidade. Quantos são aqueles que ante um gesto de bondade decidem levantar-se do leito da aversão?

Afeto na prontidão é a caridade da cooperação. Milhares de criaturas, sob a influência contagiante da atitude da disponibilidade alheia, libertam-se dos leitos da preguiça seguindo-lhes os exemplos.

Afeto na delegação é a caridade da confiança. Será que imaginamos quantos são os corações sensíveis e bem intencionados que se entregam aos leitos da desistência simplesmente por não serem convocados a realizar?

Afeto na disciplina, caridade da tolerância. A ausência de ternura na aplicação de regras tombam muitos nos leitos da insatisfação e da inveja.

Afeto na palavra, caridade da brandura. A rigidez do verbo tem agredido a muitos que se aferram propositadamente aos leitos da suscetibilidade.

Afeto na tolerância, caridade da indulgência. E quantos são os que padecem o arrefecimento do ideal em razão de serem entregues aos leitos da recriminação, ante suas intenções e projetos de ousadia nas mudanças?

Atenção, incentivo, cordialidade, cooperação, confiança, tolerância, brandura e indulgência são as "caridades de casa", pródigas fontes formadoras do espírito familiar que deve enlaçar os grupamentos erguidos em nome de Jesus e Kardec.

Caridade no grupo é obtenção de paz, alívio de culpas, restauração do afeto pela compensação em dar, exercícios de Amor pela didática da solidariedade, revitalização energética, recomposição consciencial, desarticulação dos reflexos da educação infantil, desvinculação obsessiva, lenitivo, conforto e alívio para caminhar.

Estudemos mais sobre a caridade relacional e compreendamos melhor os benefícios da vivência do afeto em favor de nosso futuro espiritual, porque então descobriremos, pelo estudo e pela vivência, que amar é vigoroso preventivo que elimina grande parte de nossas dores provacionais na escola da convivência.

Ermance Dufaux