CAPÍTULO 34 - AMIZADE, ELIXIR DOS RELACIONAMENTOS

"As grandes assembléias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem (...)" O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 335

Encontra-se cada vez mais escassa, embora seja cada vez mais procurada.

Quase todos a querem receber, poucos a desejam dar.

Muitos querem que alguém seja seu amigo, poucos oferecem-se como amigos.

Amizade: a alma dos relacionamentos, o elixir da convivência saudável e produtiva.

Em muitos lances da experiência relacional, a amizade tem sido o campo de esperanças no começo de muitos encontros, quase sempre, vindo a constituir-se, com o tempo, como a zona da convivência na qual despejamos limitações e necessidades, convertendo os melhores elos em extenso campo de conflitos a administrar.

Basta uma leve decepção e o encanto do primeiro instante desfaz-se, convertendo-se em antipatia ou mesmo aversão. Por isso, a amizade pede cuidados para ter sua finalidade útil e edificante ao aprendizado espiritual.

Como manter-lhe então a longevidade? Como superar a rotina que costuma tomar conta das amizades? O que tem faltado para que os amigos consigam continuar atraídos na permuta?

Respondamos tais questões definindo inicialmente o que fazem duas criaturas afinadas entre si. Amigos compartilham. Eis uma expressão que sintetiza sua relação: um elo de compartilhamento.

Compartilhar é participar, ter parte em algo do outro, mas não tomar conta ou exigir esse algo do outro, o que nos faz penetrar no âmbito da ética da liberdade.

Amigos compartilham coisas, valores, vibrações, momentos, prazer, trabalho, dever, diversão, o saber, a experiência, as tarefas espíritas, o aprendizado evangélico, necessidades...

Variados relacionamentos nomeados como amizade têm compartilhado, via de regra, problemas, dificuldades, invalidando o motivo central que faz com que duas pessoas se busquem para tecer momentos de convívio, que seria o preenchimento, a satisfação, a compensação, a busca do crescimento pessoal.

A verdadeira amizade, para prolongar-se e vencer a rotina, tem que estar assegurada por um ideal que absorva os amigos ao tempo que enrijeça a relação.

Na casa espírita, por exemplo, onde inúmeras vezes as pessoas recorrem em busca de apoio e de quem as compreenda, carregando extensa dificuldade para expor suas dificuldades, o ponto de partida da amizade é a atitude de disponibilidade para o sagrado ato de ouvir. Em seguida vem a confiança - fio afetivo condutor das amizades - e então estabelece-se um elã de profundidade que, regado pelo ideal de servir e aprender, mantém muitos corações longamente unidos no tempo.

Fraternidade e trabalho pelo próximo são os adubos da amizade espírita.

Mas precisamos estudar com mais atenção e debater os porquês de nossas agremiações estarem tão pouco afeitas à formação de grupos de amigos, transformando em muitas ocasiões a casa de amor em locais "sacralizados" de encontro com Deus, evitando o encontro entre humanos, guardando uma aura mística e sacra nas posturas, fazendo-nos recordar os templos de outrora nos quais nos encontrávamos para orar e, findo o ritual, cada qual retornava a seu caminho sem se conhecerem, sem se encontrarem para o diálogo, a troca. Outras vezes esse encontro toma maus rumos, graças a não terem seus componentes sido envolvidos pelo "Espírito evangélico", escasso ou mesmo ausente no ambiente onde se deram tais encontros.

Eis um tema oportuno a nossas discussões debatedoras.

Por que está escassa essa amizade em boa parte de nossas agremiações que cultuam o amor? Por que núcleos que laboram com a moral da fraternidade deixam uma lacuna ante os elos de seus membros? O que as agremiações doutrinárias podem empreender em favor da extensão de relações mais agradáveis?

Essa ausência de ternura entre os membros de um mesmo núcleo, guardando distanciamento, é empobrecedor para nossas realizações. Quando os componentes se amam, se conhecem, quando se estabelecem relações de confiança e respeito, as atividades ganham viço, estímulo, produtividade.

Os grandes grupos, nesse prisma, desfavorecem ainda mais por perderem a intimidade.

Grupos menores ensejam esse conhecimento mútuo e uma aproximação afetiva entre seus membros.

Ressaltemos aqui que, se a falta de proximidade pode constituir um obstáculo a nossas lides, o excesso dela também pode gerar outras tantas lutas. Intimidade nos relacionamentos é a zona delicada da convivência que apela para a virtude e o caráter, a fim de saber fazer dela o que se deve, e não o que se quer. Amigos que desejem a longevidade da relação cultivam limites, sem os quais a intimidade pode tornar-se um problema.

Amigos verdadeiros mantém-se na área dos vínculos afetivos, longe da possessão afetiva. O vínculo é uma relação que une sem fusão, sem subtração da individualidade, sem direitos especiais sobre o outro. Daí o motivo pelo qual a amizade autêntica é semelhante a um belo jardim, a exigir cuidados e mais cuidados na manutenção das flores da virtude e na fertilidade da terra do caráter, tornando os verdadeiros amigos cultores da arte do amor, na sua acepção de respeito ao outro, sem os infortúnios causados pela possessividade perturbadora.

Pessoas existem que fazem dos amigos um objeto de desejo e preenchimento de carências, quando então a relação marcha para o fracasso. Esperam tudo do outro e nada fazem, enquanto ser amigo é doar-se e interessar-se pelo outro.

Por isso ocupamo-nos em definir a amizade espírita nos limites da fraternidade e do trabalho nutridos pelo idealismo superior, porque elos com excessiva intimidade, costumeiramente, o temos na família, no ambiente profissional, na vizinhança e, quase sempre, debandam para a licenciosidade, a intromissão, a permissividade, o desrespeito, a perda da integridade moral e o mais lamentável: subtraem o caráter educativo que devem possuir os vínculos da autêntica amizade.

A amizade espírita é uma proposta de amizade voltada para a libertação e crescimento mútuo. Além de todos os ingredientes agradáveis do compartilhamento de amigos comuns, ela terá o objetivo de tornar-se um relacionamento de conscientização e desenvolvimento de valores.

Tecida pelo fio condutor da confiança, a amizade deverá manter-se nesse limite de segurança pelas vias da lealdade, do afeto, da lucidez e dos costumes para ter a garantia de longevidade e enobrecimento espiritual.

A primeira condição de longevidade dos relacionamentos é o dever da atitude responsável, inclusive nas amizades. Guardar a intimidade no patamar do equilíbrio ético. Compartilhar com vigilância, sempre atento à visão imortalista que deve inflamar os vínculos entre os que desfrutam da felicidade de saber que tal longevidade pode perdurar até no além-túmulo, só dependendo de nós aplicar-lhe o elixir do amor.

Ermance Dufaux