CAPÍTULO 39 - HUMANIZAÇÃO E SEGURANÇA

"Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor e há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram". O Livro dos médiuns

Remanescente de eras primárias do evolar humano, trazemos ainda hoje como reflexo marcante e dinâmico o vício da posse, como sendo complexo mecanismo desenvolvido pela alma na busca de segurança.

Agrilhoado a milenares impulsos da vida corporal, na medida em que adquire a razão, passa o homem a ter o instinto de posse não mais como motivação para buscar o atendimento de necessidades básicas, mas como garantia de bem-estar ante os desafios ameaçadores da vida e da estabilidade em sua jornada.

Acumular passa a significar proteção e defesa, e por longas e repetidas vezes o estágio nessa atitude conduziu a mente a fixar os valores da soberba, da tirania, da ilicitude e da ganância na direção dos excessos.

Hoje, quando nos referimos à segurança e à preservação, necessariamente associamos esses sentimentos a medidas exteriores tais como riqueza, dotes sociais, beleza e conforto, que são ícones para questões interiores no campo do existir humano.

Tais manifestações que ensejam a fugaz sensação de segurança e paz interior são fortes ilusões, escravizando a mente a padrões de comportamentos e "alijando" da alma a expressão do afeto isento das cargas emocionais primárias e empobrecidas de autêntico Amor.

Essa vivência da evolução permite-nos tecer considerações oportunas a nossa convivência, uma vez que segurança é o que mais almejamos junto àqueles com os quais partilhamos nossas vidas. Na ausência desse sentimento instala-se, ocasionalmente, o reflexo da injustiça, e o sentimento de injustiça é o desajuste do afeto que leva o coração a disparar a rebeldia, a mágoa e o ódio como hábitos longamente cultivados desde tempos imemoriais.

Asilando esse "sentir-se injustiçado" que se efetiva para cada individualidade, conforme seu temperamento e caráter, estabelece-se a desarmonia da razão que pode levar à adoção de ações reflexas desde a ira até o crime "não intencional".

Em verdade, estamos estudando a intensa "capacidade de destruição" que tem o egoísmo, o qual nos é próprio no atendimento ao instinto de conservação natural. Instinto esse acrescido pelos excessos adquiridos em milênios de orgulho e vaidade, saciedade e ambição.

Não foi sem motivo a conhecida lição de Jesus, prevendo acontecimentos para os dias amais, quando disse: "E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará".
Injustiça sentida, afeto embotado.

Muita vez, essa busca de segurança tem conotações sutis nas ações que carecem ser compreendidas, a fim de melhor nos posicionarmos uns frente aos outros. A necessidade de domínio e controle é outra forma costumeira de apresentar-se, seja no lar ou na profissão, na amizade e, igualmente, nas movimentações doutrinárias.

Ocorre que, quase sempre, onde tais sentimentos de posse comparecem, morrem a fraternidade e as relações ricas de permuta afetiva.

Controle e domínio, quando surgem em nossas lides, travestem-se em normas e planos coletivos, hierarquia e interesses de grupos, sob a chancela de missões necessárias ou diretrizes de Mais Alto ao bom andamento dos destinos do Espiritismo ou no alcance de objetivos grupais e institucionais.

O resultado inevitável, nessas condições sociais, é a poda de valores substancialmente essenciais ao resgate do espírito da simplicidade, da despretensão e do respeito com o qual deveríamos tratar os assuntos da doutrina e, igualmente, a indiferença, o descrédito e o desamor com os quais tratamos uns aos outros nos assuntos da vida interpessoal. Tudo para sentir a segurança do controle das rédeas que, por sua vez, marca comum a grande maioria dos que se aferram a esse capítulo do egoísmo é o afastamento escolhido das necessidades humanas, no campo do amparo e da solidariedade, enquistando o coração na "frieza afetiva", em crises de racionalização.

Por isso, se verdadeiramente queremos segurança e estabilidade, busquemo-la na vivência do afeto, e afeto não se desenvolve sem convivência e proximidade, sem permuta e disposição de aprender, sem servir e trabalhar. Eis porque as atividades assistenciais de nossa Seara, entre inúmeras vantagens, propicia ao homem solitário e inseguro vigorosos estímulos não encontrados em quase nenhuma experiência social.

Insistimos na vivência do afeto nos grupamentos da nova revelação, porque essa relação assegura a essência do Espiritismo em nós, o Amor.

Labutemos juntos pela humanização de nossas lides, para não nos perdermos em movimentações exteriores e improfícuas.

Amar a Casa mais que a Causa é "delírio" de nossa afetividade que acumula tesouros na terra onde as traças e a ferrugem tudo consomem(...).

O afeto é o tempero das tarefas imunizando-nos contra excessiva valorização dos métodos, das formas e das condições de realizá-las, centrando nossas aspirações no ser humano que dela participa sem fascínio com a teoria, com os conflitos, com os problemas comuns a essas iniciativas. Quando nosso foco é o próximo e a necessidade de servir e aprender, nossos sentimentos serão excelente garantia de boa aplicação e aproveitamento nas atividades que cooperamos.

Evidentemente, com isso, não queremos incentivar a desorganização e os descuidos necessários ao bom andamento de nossos projetos de amor.

A ciareza que Jesus em destacar que seus discípulos seriam conhecidos por muito se amarem não deixa margens a dúvidas sobre as anotações que ora descrevemos.

Perambular pelas adjacências das proposituras espíritas será forte tendência de todos nós, Espíritos em busca da remissão consciencial. Entretanto, os conteúdos exarados pela "Plêiade Verdade" são por demais esclarecedores ao assinalar que a caridade, entendida como o sublime mecanismo de intercâmbio e solidariedade relacional, é a prioridade de nossos projetos espirituais em quaisquer formas como se estruturem.

Humanização da Seara, eis a meta!

Sem caridade não teremos jamais a educação, e sem educarmo-nos fugimos do objetivo primacial do Espiritismo e iludimo-nos com o velho instinto de posse no acúmulo de vitórias transitórias junto aos púlpitos do verbo eloquente, do assistencialismo superficial, do controle personalista, em improdutiva atividade a qual, inadvertidamente, nomeamos como sendo trabalho, zelo e dedicação, e terminamos afogados no fascínio sobre os méritos pessoais, em sofrível crise de personalismo...

Não é por outro motivo que aqui, nos planos da vida imortal, lamentavelmente temos amparado em nome do Amor muitas almas distraídas de seus deveres, junto aos campos do serviço espírita da Terra.

Carreiam para cá extensa quota de enganos acerca de sua realidade espiritual, supondo-se, em grande maioria, detentores de cabedais ou créditos que não fizeram por merecer. Justificando medidas e ações, decisões e escolhas, com "criativo" e frágil desculpismo e dotados de arrogância e autoritarismo, quando percebem que não se encontram na vida espiritual tão seguros quanto pareciam no mundo físico, descobrem, pouco a pouco, as vertiginosas armadilhas que desenvolveram contra si próprios, passando por longo estágio de perturbação e inconformação até resgatarem a humildade, para reconhecerem que, em verdade, serviram a si mesmos e não ao Senhor da Vinha, amargando doloroso sentimento de culpa e arrependimento que, somente em novas e mais promissoras oportunidades, em outras reencarnações, poderão expurgar a preço de testemunhos e dores, labor e esforço, na conquista do triunfo sobre si.

Segurança, portanto, é sinônimo de "acúmulo" de bens interiores. Talvez por isso Allan Kardec considera em nosso tópico de análise que há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que compõem agregados menos numerosos, deixando entender a importância de relações sólidas, sadias e venturosas para o bem de todos. Cria-se assim melhores condições para uma lídima segurança, em razão de permitir-nos maior introspecção que identifique necessidades de profundidade e, também, dilatarmos o patrimônio da cooperação uns com os outros, ante a extensão de nossas mazelas milenares.

Busquemos a segurança, a conservação íntima e pessoal no bem do próximo, pautando nossas vidas pela abnegação e devotamente

Sigamos em nosso favor as felizes recomendações da questão 922 de O Livro dos Espíritos, estabelecendo-as como os pilares de uma reencarnação segura e vencedora:

"A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens?

Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro."

Ermance Dufaux