CAPÍTULO 40 - EDUCANDÁRIO DO AMOR

"Para o objetivo providencial, portanto, é que devem tender todas as Sociedades espíritas sérias, grupando todos os que se achem animados dos mesmos sentimentos. Então, haverá união entre elas, simpatia, fraternidade, em vez de vão e pueril antagonismo, nascido do amor-próprio, mais de palavras do c/ue de fatos; então, elas serão fortes e poderosas, porque assentarão em inabalável alicerce: o bem para todos; então, serão respeitadas e imporão silêncio à zombaria tola, porque falarão em nome da moral evangélica, que todos respeitam" O Livro dos Médiuns - cap. 29 - item 350

Os exercícios de caridade promovidos pelos nossos núcleos espíritas são ocupações de relevância em um mundo como a Terra.

Pessoas que até ontem se importavam somente consigo mesmas, em atitudes de egoísmo e desonestidade, muita vez, encontram nos serviços da benemerência e da caridade o conforto que suas almas perderam há séculos. Ensaiam e treinam, através dos atos de solidariedade e doação, os novos sentimentos que, no futuro, passarão a integrar melhores roteiros de sua caminhada espiritual. Por isso, quaisquer programas de apoio e sustentação, assistência e amparo são nobres iniciativas que a casa espírita pode erguer a bem, sobretudo, de quem tomará sobre si a oportunidade de cooperar.

Nesse sentido, o centro espírita, em suas feições de hospital da alma e oficina de trabalho, na missão de auxiliar e amparar, é das mais enobrecedoras instituições do orbe.

Contudo, após mais de um século de Espiritismo, é chegado o instante azado para aprimorarmos as concepções acerca do papel do centro espírita para quantos lhe comungam a rotina, dilatando sua finalidade e situando-o como educandário do Amor, cujo objetivo precípuo seja a formação do homem de bem.

Conquanto as respeitáveis conquistas efetuadas pelas nossas organizações, ninguém tem dúvidas do quanto ainda temos por melhorá-las no que tange às suas possibilidades na esfera da educação e da instrução, promovendo seus trabalhadores, pelo buril da renovação, à condição de "reciclagem moral" no seu caráter e no desenvolvimento de seus potenciais afetivos.

As últimas descobertas científicas, fruto de pesquisas sérias nas áreas psicológicas e neurológicas, apontam para o "analfabetismo emocional" da humanidade, reformulando o paradigma do sucesso e da inteligência humana, deslocando-o do raciocínio para a emoção. Psicólogos eminentes destacam a necessidade de uma educação voltada para a "inteligência emocional" consentaneamente à instrução intelectiva ou cognitiva, demonstrando, por estudos, que criaturas as quais administram melhor seus sentimentos têm maiores probabilidades de sucesso e equilíbrio nos trâmites da vida.

Perfeitamente afinada com a propositura educacional do Espiritismo, essas "revelações" incentivam que o centro espírita seja um ambiente que alfabetize a razão e igualmente o coração.

Nenhuma instituição humana está tão aparelhada de teoria para atender as necessidades humanas quanto o centro espírita que se rege pelos lídimos postulados da Codificação Kardequiana e o Evangelho de Jesus.

Fazer melhor aplicação desses recursos, principalmente para os que lhe fruem os deveres, dia-a-dia, constitui o desafio para o momento nessa tarefa de promover as atividades doutrinárias ao patamar de programas de educação e elevação do amor humano.

Basta rápido olhar e perceberemos os irmãos de ideal sofrendo a "síndrome de ser amado" em pleno trabalho de amor ao próximo.

Busca-se o bem e ajuda-se o necessitado em ações de renúncia e esforço, deslocando-se quilômetros para beneficiar assistidos, todavia, nem sempre se é caridoso e afetuoso com aqueles que estão próximos e partilham conosco as alegrias do trabalho cristão, deixando uma vasta lacuna nas relações entre os co-idealistas.

As relações superficiais têm como principal reflexo a "solidão em grupo". Constatamos inúmeros casos dessa ordem em nossa Seara. Essa solidão injustificável é semelhante ao viajante no deserto que, tendo sede, encontra um oásis; no entanto, opta pela inércia e esconde-se, apesar de sua necessidade, temendo bebericar uma água envenenada ou ser surpreendido com a presença de assaltantes naquele lugar.

O centro espírita, esse oásis de luz espiritual, quase sempre, tem sido "lugar de temores", de "esconderijos emocionais". O próprio orgulho, nosso velho inimigo, tem provocado esse afastamento quando elabora auto-imagens de perfectibilidade e perfeccionismo nos seareiros. Com esse conceito de si, temem por se expor moralmente, escondendo-se em "carapaças" de falso equilíbrio para que os outros não lhe conheçam as limitações interiores. Sendo assim agem como bons espíritas para os outros, deixando-se à míngua. "Amam" o próximo e desamam a si próprios.

O tempo converte essa situação em inevitável hipocrisia e/ou puritanismo, minando as resistências morais e levando seus portadores à obsessão sutil e infelicitadora, que faz suas vítimas crerem que algumas "concessões" da conduta podem ser compensadas com os serviços no bem. A partir de então são criados complexos mecanismos na desestruturação lenta e gradativa da vida íntima. Nesse emaranhado mental perde-se a noção do verossímil e vive-se uma realidade sob a tutela de forças sombrias.

Somente o diálogo franco seguido da firme disposição de mudar pode alterar os rumos de tais quadros.

Nesse comenos chamamos a atenção de grande parte de nossos dirigentes espíritas que têm ouvido e amparado muitos corações, não possuindo, por sua vez, quem lhes possa orientar ou avaliar seus esforços. Sozinhos, sentindo-se na obrigação de darem o melhor de si, terminam por chafurdar-se em posturas de aparente vitalidade moral; entretanto, seu mundo interior, frequentemente, deambula para as fronteiras com o colapso da sua saúde mental e afetiva.

Embora destaquemos a feição de escola de Espiritismo em nossos celeiros doutrinários, chega o momento de promovê-los a essa condição de cátedra para educação do afeto cristão, uma "escola do Espírito", sem o que o conhecimento tornar-se-á diretriz para os raciocínios, deixando o coração desprovido do alimento das emoções nobres, compartilhadas por uma convivência educativa e geradora de estímulo para os ideais de progresso.

A convivência espírita, que deveria ser mais plena e rica de amor, nem sempre tem correspondido às esperanças de muitos corações generosos e sinceros, dispostos a trocas enriquecedoras nos campos do coração que, por desídia e descuido, terminam por arrefecer seu afeto criando para si aquele calabouço desprezível das relações superficiais.

Nossas ambiências apelam para a necessidade imperiosa de um intercâmbio saudável através de abundante afeto cristão, por mais alegria, com a necessária disciplina, por mais sorrisos e instantes de descontração com a precisa integridade e pela coragem de amar como, se deve em substituição ao nosso "amar como se quer", que, em verdade, é o doentio "querer ser amado".

Fechar o coração aos ditames do amor é oportunizar riscos reais e perdas possíveis.

Amemos com o Evangelho.

Amemos com o Espiritismo.

Nada deve nos deter nessa marcha.

Promovamos nossas Casas à condição de educandários de amor, exemplificando aos nossos companheiros de jornada que o conhecimento espírita na prática é o Amor em dinamismo.

Nossas lideranças estejam conscientes de suas responsabilidades e tonifiquem a crença no Amor em atos de lisura moral e amizade cristalina, que sirvam de referências saudáveis aos que chegam ávidos de atenção e amor.

Sejamos afetuosos uns com os outros e não tenhamos receio de demonstrar por palavras e atitudes as expressões superiores do que sentimos, ainda que não sejamos prontamente entendidos ou mesmo correspondidos.

Se nos perguntarem se o afeto tem limites, responderemos dizendo que o limite do afeto é o dever e a integridade moral que são suas bases, pois, passando disso, não é afeto e sim desejo, e nossos desejos nem sempre são afinados com os propósitos maiores que só o Amor verdadeiro pode lhes conferir.

Se não tentarmos, jamais aprenderemos.

Se não começarmos, jamais saberemos como fazer.

Não tenhamos medo de amar e a vida nos responderá com lições preciosas no nosso reencaminhamento para aplicar a força do Amor no bem de todos.

Jesus, o Emissário Divino, estabeleceu para os seus discípulos o Amor como sendo a religião cósmica que deveriam seguir, e até hoje ecoa altissonante em nossas vidas os seus dizeres inesquecíveis que nos convocam a uma vida plena de afeto:

"Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros"

Ermance Dufaux