COMO O ESPÍRITA DEVE PENSAR EM DEUS

Nós, que aceitamos o tríplice aspecto do Espiritismo, precisamos revestir os nossos Centros de um duplo caráter, conferindo-lhes ora a função de laboratório para o estudo científico da mediunidade, ora a feição de templo para o exercício da religiosidade pura, sem rituais e quaisquer formalismos, que se traduz em obras de amor ao próximo.

Necessitamos, porém, acima de tudo (inclusive acima de nossos velhos hábitos, manias, predileções e condicionamentos), fazer de nossos Centros genuínas escolas para o ensinamento de uma filosofia libertadora da consciência humana, capaz de induzi-la à descoberta do sentido essencial da vida. Esta filosofia, não resta dúvida, é a que se encontra exposta com absoluta clareza nos livros de Allan Kardec, e começa trazendo à nossa reflexão o magno problema da existência de DEUS.

Se devemos, como se diz na atualidade do movimento espírita brasileiro, aliás com muita propriedade, aprender a doutrina começando pelo começo, parece de bom alvitre não tentarmos o entendimento da Codificação sem compreendermos o que ela própria nos explica em suas páginas iniciais, referente ao Criador.

Impõe-se-nos saber pensar em DEUS, mas com isso nunca nos preocupamos. É impressionante, surpreendente, para não dizer espantosa, a indiferença que cultivamos em relação a este assunto. Em nosso movimento ideológico, onde se multiplicam estudos dos mais variados conteúdos doutrinais, todos louváveis e úteis, embora alguns sofisticados em excesso, raramente aflora a delicada questão de como pensar em DEUS. Certa ocasião, em um distinto fórum de debates sobre a filosofia espírita, quando, crivado de perguntas, após a palestra feita, chamamos a atenção de ilustres companheiros para a necessidade de sabermos pensar em DEUS, alguém com responsabilidade de liderança levantou-se e, perplexo, indagou:

— Como é que, não somente na teoria, mas também na prática, se pensa em DEUS? O coordenador do evento virou-se para nós e sentenciou com a maior naturalidade: — Você tem dois minutos para responder mais esta interrogação!... Metade do tempo que nos foi concedido ficamos em silêncio, lembrando a realidade dos nossos Centros, nos quais quase sempre não se pensa em DEUS, só em Jesus. Ao Cristo é que são dirigidas as orações de abertura e encerramento dos trabalhos (o fato de que o inesquecível Mestre nos ensinou a orar a DEUS, e não a ele, jamais é levado em conta).

Com base em uma colorida imagem do Cristo, desenhada na tela mental por esforço imaginativo, e não com base no pensamento elevado ao Criador, é que fazemos a chamada concentração necessária ao processo de intercâmbio mediúnico. A outra metade do tempo, sessenta segundos apenas, diante da completa impossibilidade de articularmos as idéias em um milagre de síntese para satisfazer a embaraçosa curiosidade do inquiridor, gastamos com a promessa de escrever uma obra em torno do tema. É o que agora estamos fazendo, na esperança de prestar um bom serviço à causa espírita. Como pensar em DEUS, na teoria e na prática?

Esta pergunta, para ser respondida satisfatoriamente, reclama raciocínios que adiante iremos desenvolver de forma didática. Tais raciocínios, é óbvio, não poderão ser demasiadamente breves, superficiais, em virtude da profundidade e da transcendência do assunto. Também não poderão ser pouco numerosos, porque antes de sabermos como pensar em DEUS importa sabermos como não pensar em DEUS, isto é, importa nos premunirmos contra os erros que, através dos tempos, os homens cometeram, tentando formular concepções da Divindade.

Convém darmos partida ao presente estudo esboçando um panorama histórico da religiosidade desde as mais remotas eras, o que buscaremos realizar sem nos perder em erudição. Convém ainda, antes de entrarmos na apreciação das luzes lançadas sobre o tema pela obra de Kardec, examinarmos dois significativos volumes de nossa literatura doutrinária, um clássico e outro contemporâneo, um positivo e outro nem tanto, a fim de mostrar como em termos de fé raciocinada temos caminhado para pior nas últimas décadas, motivo porque se torna imperioso aprendermos a pensar em DEUS corretamente.

Nazareno Tourinho

...1 - Como a Humanidade tem pensado em Deus.
...2 - Um livro sobre Deus que não podemos ignorar.
...3 - Um livro sobre Deus que é preferível esquecermos
...4 - O Sonho da unificação.
...5 - O que a filosofia Espírita nos diz sobre Deus.
...6 - Deus está em toda parte.
...7 - À vista de Deus
...8 - O problema de sabermos pensar em Deus, na teoria e na prática