O PROCESSO DE CRESCIMENTO

A proposta do espiritismo, relativamente ao comportamento, é dinâmica. Isso significa, objetivamente, que o espiritismo não nos sugere qualquer comportamento que se expresse antinaturalmente ou que signifique uma posição alienada, isto é, afastada da realidade e transferida para o além.

Essa compreensão é tão mais importante quanto sabemos que, pelo fato de tratar com os problemas do Espírito, da Mediunidade e da Vida, em dimensões não materialistas, o espiritismo é tido como o sobrenatural. A primeira etapa é, ainda, mostrar que o sobrenatural não existe e tentarmos encontrar os níveis da dinâmica do natural.

Entretanto, como nos adverte O Livro dos Espíritos (questão 776), lei natural não é a mesma coisa que estado natural ou de natureza. Esta é uma condição primitiva, "é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral (...). A lei natural, ao contrário, rege a Humanidade inteira e o homem se melhora à medida que melhor a compreende e pratica". São comentários de Allan Kardec à mesma questão.

Em outras palavras, a lei natural é o perfeito equilíbrio que todos procuramos, através do processo de crescimento interior que estamos realizando, desde o momento em que fomos criados simples e ignorantes. Em muitos lugares ouvem-se sugestões para que permaneçamos no estado natural, como se o Espírito, que é potencial, perfectível, tivesse que manter-se estacionário no plano do relacionamento, do comportamento e de sua força interior, comandado por impulsos, dirigido por instintos, desprezando a si mesmo, enquanto sua mente fulgurante construísse um mundo externo cada vez mais sofisticado e, talvez, mais injusto.

É de André Luiz, através de Francisco Cândido Xavier, a frase: "o homem, para auxiliar o presente, é obrigado a viver no futuro da raça". Essa afirmação, incisiva e objetiva, pode também ser encontrada nos versos de Geraldo Vandré: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

Tanto numa como noutra afirmativa, vemos o convite para a consciência do homem manifestar-se plenamente, na construção de seu destino. Há, como sabemos, contestação à existência ou possibilidade do homem ser livre. Segmentos da comunidade científica afirmam que a liberdade não passa de um mito, porque o homem mais não seria do que um produto do meio, do condicionamento educacional ou social e, o que é mais chocante, um escravo da tirania biológica, genética.

A liberdade essencial é, como se vê, negada, porque cada um desses segmentos restringe o homem ao biológico, ao social, desprezando sua natureza espiritual. Sem esse elemento, sem essa abertura, a criatura não passa, realmente, de um reflexo biopsíquico, que brota, por processos mecanicistas de reprodução, tal como a herva que se desenvolve, para uma breve vida, solitária e indefinida.

Mesmo as teorias mais humanistas, que estimulam o homem a superar-se, ficam sem uma base mais sólida, porque não conseguem oferecer sustentáculo aos apelos que fazem à maturação, ao domínio de si mesmo. Uma realidade, contudo, não pode ser negada. É que o homem possui qualificações que, continuadamente, destroem as teorias mais bem arquitetadas que tentam condicioná-lo a modelos restritivos. Se se podem identificar ciclos repetitivos no desenvolvimento da pessoa, principalmente no domínio das reações instintivas e fisiológicas, tem sido impossível esquematizá-las em padrões rígidos.

Essa qualidade interior, indecifrável pelos códigos da Psicologia puramente materialista, comportamentalista e experimental e que destrói as teorias sociológicas da insuperável pressão do meio como modeladora do caráter ou mesmo da chamada engenharia genética, é que garante ao Espírito a possibilidade de alterar, a qualquer hora, o rumo de seu destino. Não seguiremos adiante, nesta análise, sem voltarmos a enfatizar que o espiritismo concebe o homem como uma unidade complexa, na qual, não obstante soberano, sob o ponto-de-vista da essencialidade, o Espírito participa das contigências da encarnação física.

Por isso, um corpo deficitário, mal nutrido, submetido à ação predatória do meio ambiente, tenderá a criar condições adversas ao livre expandir da inteligência, do Espírito. Tanto quanto as pressões sociais, sejam políticas, econômicas ou de qualquer outra espécie, levantam barreiras ao seu crescimento, mantendo-o submetido, indeciso, amedrontado, infeliz. Essas considerações são necessárias porque há quem pretenda fazer uma divisão definida, precisa, entre corpo e Espírito, durante a encarnação, como duas entidades que apenas se toleram, quando, na verdade, o que há é uma integração "molécula a molécula".

Daí ter o espiritismo postulado como condição necessária para o desenvolvimento espiritual, uma sociedade equilibrada, em que os fatores ambientais sejam favoráveis e não contrários ao pleno exercício das faculdades do Espírito. A liberdade é, pois, essencial para que isso se concretize. Isso está colocado naturalmente dentro da concepção espírita do crescimento do Espírito, a partir da simplicidade e da ignorância. O livre arbítrio é uma peça indispensável, fundamental, para o projeto de crescimento individual e coletivo.

O livre arbítrio significa para o Espírito a possibilidade de optar entre variáveis, exercendo o direito de escolha e o exercício da vontade como garantia do poder de executar sua decisão. Ora, todas essas atitudes só se concretizarão a partir de uma base de conhecimento do porquê, das razões, de um consistente objetivo para a vida. A capacidade de mudar está diretamente relacionada com essa realidade. Só se muda quando não se está satisfeito com o que se tem ou onde se encontra. E desde que se encontrem opções atraentes, que satisfaçam as necessidades que, no momento, surjam como as mais urgentes.

A verdadeira mudança comporta dois estágios. O da decisão, que é instantânea, definidora. Às vezes é fruto de uma lenta maturação e até de muitas e muitas experiências negativas. Mas quando surge é decisivo. Ninguém decide mudar aos poucos. O outro estágio é o da concretização. Esse sim, pode ser algo demorado, porque a decisão de mudar não transforma o que é, no que desejamos que seja. Essa transformação segue um caminho, uma sequência, mais ou menos demorada, conforme o poder de execução desenvolvido, no interior de cada um.

Se é verdade que qualquer crescimento é solitário, no sentido de que toda essa engrenagem de opção, escolha, decisão e poder são exclusivamente pessoais, intransferíveis, que ninguém pode fazer por outrem, é também evidente que esse crescimento só pode ser exercido solidariamente. Porque ninguém cresce isolado em si mesmo, mas no relacionamento com o outro. Então o espiritismo também concorda que as pressões sociais são instrumentos para acelerar ou retardar a decisão de mudar que cada um deve e tem que tomar, no seu devido tempo. Isso é facilmente constatável.

O que se chama consenso, mesmo equívoco, é uma projeção das necessidades individuais que se transforma numa ação coersiva, de aprovação ou rejeição que ninguém pediu conscientemente, mas que a maioria, mais ou menos rapidamente, acaba por aceitar e, por vezes, aliviada. Por isso é possível identificar períodos marcantes em que a sociedade sofre abalos, precipita decisões, vê-se metida em caos, em revisão da ordem estabelecida, em subversão dos valores até então aceitos.

Constatamos esse fermento, nas transformações maiores, no decorrer dos séculos, embora de forma não linear, mas espiralada, em semicírculos que não se fecham em si mesmos, mas guardam uma inclinação ascendente. Idéias lançadas num século vão frutificar duas ou três centenas de anos depois, porque há tempo de semeadura e tempo de colheita. O que é válido também para as ações desequilibrantes que, muitas vezes, além do trauma momentâneo, persistem provocando respostas contundentes, mais adiante. Há uma certa unanimidade em considerar os tempos atuais como sem precedentes na História da humanidade, devido à multiplicidade das opções e oportunidades que decorrem da destruição das bases em que a sociedade vinha se apoiando nesses dois últimos milênios.

Esse espaço vazio, essa indefinição que se segue à negação daquilo que antes parecera tão sólido, provoca uma abertura de idéias, opiniões e permite que cada um se defina e encontre seu objetivo e lute por ele. Aqueles que não encontram esse objetivo e por isso não têm bandeira de luta, precipitam-se no desequilíbrio mais evidente, seja cultivando as sensações periféricas, em desesperada tentativa de afogar esse vazio, ou mergulham nas fugas da alienação de si mesmos. A primeira lição comportamental do espiritismo é que devemos nos livrar da angústia da perfeição, a fim de que possamos equacionar nossa própria imperfeição.

Sem essa precaução, cairíamos facilmente na armadilha da presunção ou no desânimo diante da tarefa a ser executada, isto é, a da execução da mudança decidida. Só convivendo com a realidade de nossa imperfeição, assumindo-a, é que podemos lutar por transformá-la em estados gradativamente mais equilibrados. O importante é ter tomado a decisão. Saber que não existe uma hora final pré­estabelecida. Mas uma hora decisiva, que cada um percebe e assume. É necessário destacar, por outro lado, que uma decisão que não importe em mudança, é uma falsa decisão, porque esta só é, de fato, quando se concretize em comportamentos compatíveis.

Estamos nos referindo à extrema necessidade de tornar prática, operante, uma visão teórica. Esta por mais rica de detalhes, só será válida se puder estimular ações, atitudes, que exprimam conceitos definidos, mesmo considerando que cada pessoa é diferente, porque aproveitou diferentemente as experiências vividas. Falamos da solidão em que cada um toma sua decisão e da solidariedade que envolve sua execução. Daí a evidência de que as pessoas afins formem grupos de opinião que, naturalmente, passam a exercer uma certa pressão social.

Os espíritas formam, certamente, um grupo social de pressão. Através de comportamentos que exprimam a visão própria, definida, que o espiritismo tem sobre o homem e a vida, essa pressão é percebida nos demais grupos sociais. Essa visão é específica no sentido de que, embora inserida e atuante no cotidiano, manifesta-se dialeticamente, isto é, coloca-se como síntese no conflito das contradições espiritualistas e materialistas, personificando-se, identificando-se. É diferente porque é espírita.

Se não houver uma identificação capaz de dizer "esse é espírita" "esse não é espírita", então o espiritismo não teria trazido contribuição alguma e se diluiria, como uma seita a mais, uma forma particular de culto à fantasia religiosa. É coisa que se mostra evidente. Somente a irradiação de núcleos de pessoas que se manifestam na vida, espiriticamente, mostrando a natureza da filosofia de vida do espiritismo, se constituirá em elemento de pressão social.

Todavia, essas atitudes não significam mera postura social, um estereótipo, um modelo rígido. Aí reside o ponto crucial da questão. Ser diferente naturalmente, não por excentricidade, medo, omissão ou distorção. Ser diferente porque vê, sente, percebe e vive sob um enfoque próprio, definido. E, ao mesmo tempo, guardar abertura para a conquista de novos valores e, o que é mais importante, não assumir qualquer posição de julgamento ou condenação. O comportamento tipicamente espírita terá que ser autêntico, isto é, exprimirá posições e sentimentos interiores, guardando a certeza de que seus conhecimentos e sensibilidade estão em transição, na tentativa de passar de um nível inferior para outro superior, sucessivamente.

Essa transição é a parte penosa do processo de mudança, porque a tendência é querer uma transformação súbita, instantânea. Mas como é assumida baseada numa filosofia de vida, firme, racional, capaz de "enfrentar a razão em qualquer época da humanidade", torna-se menos aflitiva. Os sinais dessa mudança emergem paulatinamente. São como mutações que se processam e afloram sem uma clara percepção de como acontecem. Mas se mostram a partir do momento em que se chocam com o estado atual das coisas e situações e exigem outras formas de compensação vibratória, emocional, humana. Em certas circunstâncias, se manifestam como insatisfação, como uma busca compulsiva de uma saída para a angústia existencial.

E precipitam o conflito que é, então, o sinal de que a mudança está em curso, embora não concretizada. Porque o conflito, a crise, é uma predisposição para mudar. Mas a decisão pertence ao Espírito. A espiritização significa, para o indivíduo, que ele assume por inteiro seu corpo, suas horas, sua inteligência, seu sentimento. É uma descoberta que amplifica as próprias dimensões pessoais. É como (e isso às vezes acontece de imediato) se desenvolvessem percepções extrasensoriais capazes de dar às percepções usuais uma nova estrutura, penetrando níveis de realidade inabordadas anteriormente.

É como se conseguisse apalpar-se nas dimensões de sua espiritualidade. Repetimos que esse não é um processo de sublimação, mas de crescimento, tanto quanto possível equilibrado das forças intelectivas e sensíveis. Impõe-se, por certo, disciplina da vontade, cultivo da razão e ação prática. Enfim, uma intensa participação, uma saída do "eu" para a integração emotiva com o outro, com o mundo. Seria, para usar as expressões filosóficas, passar da condição de "homem do mundo", para a de "homem no mundo".

jACI REGIS