CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 1

O dia mal tinha amanhecido e os escaldantes raios do sol ja' penetravam pelo vão da janela da humilde casa onde morava a familia Carvalho.

Salomão, angustiado, havia passado aquela noite em claro, martirizando-se com as tristes cenas de seus animais mortos pela seca. Ja' desnorteado de tanto enfrentar os repetidos golpes da estiagem que castiga algumas regiões do nordeste, assim como muitos outros cearenses, vencido e tangido pelas dificuldades que roubaram os seus sonhos, Salomão decidiu romper o elo com suas raizes e aventurar-se em terras estranhas.

Naquele tempo, as pessoas locomoviam-se montadas em animais de carga e, dependendo do destino, uma viagem poderia durar meses. Os viajantes enfrentavam estradas precárias e trilhas fechadas no meio de florestas. Com um no' na garganta, Salomão selava os animais que sua familia usaria logo mais como meio de transporte na viagem que fariam do Ceara' ao Maranhão.

Enquanto isso, Alzira chorava ao redor do fogão a lenha, preparando o cafe' da manha com o restinho de comida que ainda havia na despensa para alimentnr as crianças antes de partirem.

De repente, Alzira escutou os passos do esposo adentrando a cozinha e, como sabia que o marido odiava vê-la chorando, imediatamente conteve a emoção, baixou a cabeça e, disfarçadamente, enxugou as lágrimas com a manga da blusa. Essa preocupação tinha razão de ser: quando Salomão encontrava alguém chorando sem um motivo que o justificasse, com sua visão de cabra-macho, entendia aquela atitude como fraqueza de espirito. Mas de nada adiantou Alzira limpar o rosto para esconder que estava chorando. Os seus olhos avermelhados denunciavam a dor de sua alma.

— Que cara de choro e' essa? — perguntou Salomão ja impaciente.

— Estou muito insegura — respondeu, desabando a chorar.

— Voce esta' com medo de quê?

— Estou com medo de largar tudo e sair pelo mundo.

— Largar tudo o que, mulher, se ja' perdemos tudo que tinhamos? Ei, bicho apegado e' pobre, sabia? — concluiu, revoltado.

— A verdadeira riqueza do ser humano não esta nos bens materials que ele conquista, mas em seus valores Intimos — rebateu ela, justificando-se.

— Pelo amor de Deus, Alzira, desapega do sofrimento! Vamos lançar os nossos sonhos e destinos em terras favoráveis e partir com o coração cheio de esperança de que encontraremos fora daqui algo meIhor para oferecer a nossos filhos — propôs, tentando encorajar a esposa.

Foi enxugando as lágrimas de seu lindo rosto que Alzira perguntou:

— O que vamos levar de nossas coisas pessoais?

— Levaremos apenas uma mala com nossos trapos desgastados e alguns pertences mais leves para não sobrecarregar os animais. Lembre-se de que iremos fazer uma longa viagem.

Alzira, apaixonada por leitura, interveio decidida:

— Faço qualquer acordo com voce, menos deixar os meus livros para trás. Isso nem pensar!

Salomão, com desprezo pela literatura, refutou:

— Livros são futilidades que não acrescentam nada a vida de ninguém. São apenas palavras que os poetas lunáticos escrevem e em que os editores espertos colocam uma capa bonita para chamar a atenção de pessoas emocionalmente frágeis como voce, que não pensam com a própria cabeça e se deixam persuadir — rebateu, deixando evidente não gostar de ler.

Alzira contrapôs:

— E' nos livros que eu encontro distração para aliviar as tristezas da vida.

Salomão meneou a cabega negativamente e rebateu:

— A verdade e' que voces, mulheres, sentem prazer naquilo que traz a emoção do sofrimento.

Alzira, compreensiva, tornou:

— Respeito a sua forma de pensar, diferente da minha. Mas Ihe peço que não tire de mim o direito de buscar o que me faz bem.

Salomão sentiu-se tocado pelas palavras de Alzira ao defender suas obras literárias e, evitando entristecê--la ainda mais, permitiu que ela levasse os livros.

Após forrar o estomâgo, debaixo de um sol que queimava como brasa, a familia deu inicio a uma angustiante viagem partindo do Ceara' com destino ao estado do Maranhão, a rota de fuga mais utilizada pelos retirantes sedentos.

Naquela cansativa viagem, a familia viveu dias muito dificeis. Sem condições para adquirir mantimentos, os flagelados aceitavam qualquer migalha que encontravam pelo caminho para matar a fome.

A cada passo da amarga experiência, eram colocados diante de momentos de muita incerteza ao se depararem com as chocantes marcas da destruição deixadas pela devastadora força da seca: a deprimente cena de animais mortos de sede, atolados na lama dos açudes ao procurarem 'agua, e outros desnutridos, ja' caidos na beira das represas secas, em seus últimos momentos, observados pelos urubus do alto das 'arvores desnudas.

Nas localidades por onde passavam, acampavam para descansar e recebiam uma verdadeira lição de hospitalidade dos moradores, que, em um gesto de puro desapego e compaixão, acolhiam a familia de famintos e repartiam com alegria o pouco que ainda Ihes restava.

Depois de muitos desafios e um aperto infernal no peito, ocasionado pelo sentimento de culpa por terem deixado suas raizes para trás, alcançaram o solo maranhense. Bravamente subiram e desceram serras, percorrendo trilhas em meio a uma mata virgem, ate' que venceram suas cruéis dúvidas ao avistarem do alto de uma montanha algumas casas la' embaixo.

Foi o bastante para que a insegurança que sufocava o peito de todos se dissipasse, dando lugar a uma sensação de liberdade comovente. Olhando a imensidão a partir do topo da colina, a destemida familia enfim encheu os olhos de beleza, pois parecia estar em um paraiso a céu aberto.

O lugar tinha lindos rios e riachos de 'aguas cristalinas, cachoeiras, peixes, 'arvores centenarias e animais saudáveis correndo e brincando por toda parte. Sentiram-se tocados por um sentimento de gratidão transbordante e pela sensação de recompensa quando chegaram a sede de uma belissima fazenda situada no municipio da pequena cidade de Carolina, localizada ao sul do estado do Maranhao, onde avistaram bem na entrada da propriedade uma imponente placa de madeira expondo o nome do imóvel com letras maiúsculas: "FAZENDA LIBERDADE".

Passava da hora do almoço. Salomao e Alzira, com o corpo dolorido, estavam exaustos pelo desgaste da enfadonha viagem, mas ao mesmo tempo tinham a esperança renovada por verem a felicidade estampada no rosto dos filhos.

O proprietário da fazenda estava sentado em uma cadeira de balanço no alpendre do imenso casarão, proseando alegremente com os empregados.

— Boa tarde — cumprimentou Salomão, retirando o chapéu da cabeça e trazendo-o junto ao peito, demonstrando respeito e cordialidade.

Todos pareciam ter ensaiado o sonoro "boa tarde" quando responderam ao cumprimento de Salomão em sincronia. O fazendeiro se levantou e Salomão apresentou-se. O homem foi muito receptivo com a familia, dizendo:

— Muito prazer em conhecê-los. Eu sou João Ferreira Viana, mas podem me chamar apenas de Viana, pois e' assim que todo mundo me trata por aqui. Em que posso servi-los? — apresentou-se o fazendeiro com boa vontade.

Bem-humorado, Salomão devolveu:

— Olha, moço, para quem esta fugindo da seca como nós, uma rapadura com um bocadinho de farinha de mandioca e um copo de 'agua para desentalar o no que essa mistura faz na garganta ja' esta' de bom tamanho, por enquanto.

Todos cairam na gargalhada com a resposta do retirante. Viana, muito simpático, convidou a familia a descer dos animais e descansar um pouco antes de prosseguir viagem.

— Vamos entrar um pouco — propos o fazendeiro, alegremente.

Salomão desceu de seu animal e ajudou a familia a fazer o mesmo.

— De onde você esta vindo com essa familia tão corajosa? — sondou Viana.

Sentindo-se a vontade, Salomão mais uma vez foi rápido na resposta e, com a expressão facial divertida, ja' caçoando da própria situação, disse:

— Por tudo que nós passamos de ruim enfrentando a seca la' onde a gente morava, eu Ihe diria que na verdade estamos vindo e' do inferno!

Novamente todos gargalharam alto.

— Com este bom humor, voce certamente e' mais um cearense que Deus coloca em nosso caminho para encher as nossas vidas de alegria. Acertei? — perguntou Viana, ja' rindo antes de ouvir mais uma divertida resposta.

— Exatamente — confirmou Salomão.

Ao escutar as risadas, Dolores, esposa do fazendeiro, foi verificar qual era o motivo de tanto divertimento entre o esposo e os empregados.

Ao ve-la surgir na porta, Viana deu uma pausa na conversa e, puxando o sotaque carregado, amorosamente apresentou a companheira aos visitantes:

— Bom, pessoal! Esta e' Dolores, a minha adorável esposa.

— Boa tarde! — disse a mulher, estendendo a mão para cumprimentá-los.

— Boa tarde! — responderam.

— Nossa, que menina linda! — disse Dolores, pegando no queixo de uma das garotas, admirada com a beleza de seus cabelos longos.

— Qual e' o seu nome, princesa?

— Meu nome e' Laura Cristina de Carvalho.

— E qual e' a sua idade?

— Nesta vida tenho sete anos — revelou a garota, causando estranheza.

— Por que voce diz sete anos nesta vida? — indagou Dolores, curiosa.

— E' porque o meu amigo invisivel me disse que nos somos espiritos eternos vivendo histórias passageiras aqui na Terra — explicou Laura, com naturalidade.

— E como se chama o seu amigo invisivel?

Ele me pediu para ser chamado de Amigo Mágico.

Por que Amigo Mágico? Ele explicou? — quis saber Dolores.

Eu acho que deve ser porque ele aparece e desaparece quando quer - devolveu a menina, provocando a gargalhada de todos.

O fazendeiro interveio e se dirigiu ao pai da menina:

- A sua filha puxou o seu lado bem-humorado, Salomão. E' como diz o ditado: filho de peixe peixinho é" !

Salomão dou um novo sorriso so para disfarçar a sua insatisfação com o falatório estranho da filha e, desaprovando a espontaneidade da garota, cortou o assunto e tomou a frente da conversa apresentando o outro filho para o casal:

— Então, senhores, este e' meu rapaz — disse, ignorando a presença de Olivia, a filha caçula, e apontando o dedo so para o garoto.

Dolores pegou no queixinho do menino e perguntou:

— E esse menino bonito com cara de danadinho? Como e' que voce se chama?

— Oscar — respondeu, divertindo-se com o comentário da mulher.

Porém, Dolores notou, pelo olhar arredio e pela expressão corporal, que a outra menina estava se sentindo menos querida que os irmãos. Tentando agradar a pequena, a mulher fez o mesmo gesto de carinho, dirigindo-se a retraida garota.

— E voce, bonequinha, como se chama?

— Olivia—respondeu timidamente, de cara fechada.

— Sabiam que voces são duas princesas muito lindas?

Olivia balançou a cabeça concordando, mas com ar desanimado.

— A senhora também e' muito linda! — tornou Laura, retribuindo o carinho.

Alzira, consciente da personalidade reprimida da filha caçula, sorriu e pediu 'agua para matarem a sede.

— Voces ja' almogaram hoje? — inquiriu Dolores, mudando de assunto.

— Ainda não, e a fome e' tao braba que eu nem vou esperar a senhora nos oferecer comida, pois aceitaremos com gratidão o restinho do almoço, caso a senhora ainda tenha algo para nos servir — interveio Salomão, sem inibição.

— Meu bem, que pressa e' essa? — retrucou Alzira, envergonhada.

— A minha barriga esta' tão vazia que a fome me fez perder a vergonha — justificou, defendendo-se da represália da esposa.

Dolores, demonstrando muita satisfação e hospitalidade, disse:

— Esperem so' um instante que vou pedir a nossa cozinheira que prepare uma comidinha para alimentar a familia de voces. Aliás, a Aracy tem uma mão divina. E o carinho que ela coloca na comida que faz deixa tudo com sabor de amor. A
impressão que tenho e' de que o alimento feito com afeto se transforma em energia positiva, que, além de alimentar o corpo, nutre tambem a nossa alma.

— Realmente uma refeição feita com capricho nos alimenta a alma — concordou Viana, que, expressando carinho no jeito de falar, prosseguiu: — Devo admitir e reconhecer que a nossa querida Aracy tem um dom para cozinhar que ainda esta para
nascer outra pessoa igual.

— Mesmo? — interessou-se Salomão.

— Sim. Hoje mesmo ela preparou um prato muito especial que quase matou a gente de tanto comer — confirmou Dolores.

— E o que ela fez de tão especial? — tornou Salomão, ja' salivando de tanta curiosidade e vontade de provar o prato tão elogiado.

— Foi uma deliciosa galinhada caipira preparada ao leite de coco babaçu, acompanhada do nosso famoso pirão de parida, um alimento que traz muita sustância e que e o mais apreciado por nós, maranhenses, principalmente pelos que moram no mato — respondeu Dolores, enaltecendo a culinária de sua terra.

Sabendo que a familia estava com fome e vendo a esposa se estendendo muito com a conversa, Viana olhou amorosamente para a companheira. Antes que ele falasse qualquer coisa, Dolores ja' havia captado a mensagem e disse:

— Bom, pessoal, desculpem pela minha falação desenfreada. Sei que voces estão caindo de fome e eu estou aqui embromando. Vamos ao que interessa! Afinal, saco vazio não fica de pe', não e' mesmo?

Satisfeito com a esperteza da mulher, Viana deu um carinhoso abraço na esposa e um beijo em sua testa, dizendo em seguida:

— E' por isso que eu te amo mais que tudo nesta vida, querida. Pois, ate' mesmo pelo jeito de olhar, as nossas almas se entendem.

Alzira, casada com um homem que nunca tivera com ela um gesto tão nobre, quando viu a gentil cena do cavalheiro enaltecendo e valorizando a esposa, ate' suspirou profundamente, imaginando-se no lugar de Dolores, recebendo aquele tão valioso afago de seu marido.

Salomão, diante da mesma cena, em vez de se inspirar no belo exemplo de cumplicidade do casal, sentiu repulsa do que viu. Baixou a cabeça constrangido e, recusando-se a testemunhar o ato de carinho, pensou: "Que coisa mais melosa e patética".

Tomando iniciativa, Viana pediu:

— Meu bem, leve a dona Alzira com as crianças para a sala.

— Claro, querido. Levo sim.

Dolores conduziu Alzira e as crianças, enquanto o marido ficou na varanda conversando com Salomão e os funcionários.

Ao chegarem a sala, Alzira e os filhos acomodaram-se em torno de uma imensa mesa de madeira maciça. Dolores deixou uma jarra de 'agua a disposição para que matassem a sede, encheu um copo e foi ate' a varanda levá-lo para Salomão. Depois se dirigiu ao quintal, onde estava a cozinheira. Solicitou que sua fiel escudeira requentasse a comida para a familia.

Atenciosa, Aracy prontamente atendeu ao pedido da patroa.

EVALDO RIBEIRO