CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 11

— Laura, voce e o Eduardo ja' se envolveram como namorados?

— Infelizmente, ainda não — respondeu ela, jogando os cabelos para trás. — Contudo, sinto-me preparada para algo sério, pois sei que o destino da mulher e se casar jovem!

— Concordo com voce que o curso natural da vida da mulher seja assumir as responsabilidades de um lar ainda cedo — disse Alzira, disfarçando o seu apego.

— Eu sei que o meu pai tem uma mente atrasada e que vive no passado, sem querer acompanhar a evolução do mundo. Porém, esta' chegando a hora de ele entender que os filhos crescem e se casam. Querendo ou não, os pais terão de aceitar que todos deixarão o ninho da familia para cuidar de seus próprios interesses.

Com essa declaração da filha, Alzira sentiu um no' na garganta so' de imaginar um dia ter que se acostumar a viver longe dos filhos.

— Eu sei que não devemos julgar todas as pessoas como iguais, mas lembre-se de que esse rapaz ja' experimentou o gosto da liberdade vivendo na cidade grande, onde o homem de mente moderna não quer nada sério com uma mulher. O homem de hoje se aproxima com falsas promessas, satisfaz seus desejos promiscuos e depois descarta aquelas ingênuas que caem em sua conversa. Por isso, eu a aconselho a, antes de se envolver com o Eduardo, agir com cautela para conhecer melhor o caráter e os interesses dele. Porque o homem, quando consegue conquistar o coração de uma mulher com muita facilidade, acaba não a valorizando.

— Mãe, eu ja' me sinto pronta para cuidar da minha própria vida, assim como a senhora fez ainda cedo, e posso Ihe garantir uma coisa: com os segredinhos que eu aprendi observando a sua relação com o meu pai, eu vou fazer o Eduardo comer aqui na palma da minha mão.

Alzira, resistindo a essa possibilidade, retrucou:

— As coisas não são bem assim como voce esta' pensando, filha. O comportamento das pessoas hoje e' muito diferente de antigamente. O jovem moderno não tem limites e faz tudo que Ihe vem a cabeça sem medir as consequências de seus atos.

Laura interveio no discurso da mãe:

— Antes que a senhora repita pela milésima vez a sua sofrida história de amor, eu ja' quero avisar que, se o meu pai tentar me impedir de viver a escolha do meu coração, farei o mesmo que a senhora fez para ficar ao lado de quem eu amo.

Alzira refletiu e concluiu que o seu relacionamento com Salomão foi uma experiência muito turbulenta por causa da postura machista do marido, mas, por amá-lo muito, valeu a pena tudo por que passou. Acuada após essa reflexão, disse:

— Tudo bem, filha, se e' isso o que voce realmente quer... E, eu so' peço que voce tenha um pouco de paciência ate eu encontrar o momento certo de conversar com o seu pai sobre a sua decisão de namorar o Eduardo.

Mas e' bom que voce saiba que não sera uma tarefa fácil convencer o Salomão a concordar com o relacionamento de voces.

— Sera' que o meu pai vai precisar passar pela mesma experiência que os pais da senhora passaram para entender que eu não nasci para viver as escolhas dele? — questionou Laura, deixando claro que fugiria de casa como a mãe fizera.

Alzira ficou pensativa por um instante e ponderou:

— Voce tem que lembrar que o seu pai e' uma pessoa muito preconceituosa e, quando souber que voce e o Eduardo voltaram a se relacionar, vai preferir morrer crucificado a aceitar o namoro de voces.

— Eu sinto muito se para o meu pai e preferivel morrer na cruz a aceitar a minha felicidade... Que ele se prepare logo para sentir a dor dos pregos perfurando a inflexibilidade dele, porque eu não vou deixar de buscar a minha realização so' para agradar a seus caprichos pre-conceituosos — declarou Laura, determinada.

— Calma, filha, tudo tem o momento certo para acontecer.

— Conhecendo o meu pai, eu ate' ja' sei qual sera' a reação dele. Vai gritar com a senhora ate' ficar rouco dizendo não — avaliou Laura.

— Eu concordo que a primeira reação de seu pai sera' essa mesmo. Mas fique tranquila e deixe esse assunto comigo que eu sei como lidar com a braveza dele e amansá-lo — amenizou e se incumbiu Alzira.

Salomão pressentiu que a esposa estava se aproximando com alguma noticia desagradável para Ihe contar e, evitando que Alzira tocasse em assuntos que o deixassem irritado, passou os dias que se seguiram agindo de maneira fechada, cara amarrada e falando apenas o necessário com os membros da familia.

Alzira, ja' sabendo como funcionava a cabeça do marido, mais uma vez procurou manter distância do companheiro, deixando-o em seu mundo solitário.

Cansada de esperar a mãe encontrar o momento certo para falar de seu interesse em namorar Eduardo, Laura chamou-a para conversar e desabafou:

— Mãe, esta' na cara que o meu pai vai tentar me impedir de ser feliz com o homem que eu amo, assim como os pais da senhora fizeram com voces.

Desejando orientar a filha, Alzira pegou sua mão e disse:

— Fique calma. Vamos nos sentar um pouco e conversar. Tudo vai dar certo.

As duas sentaram-se frente a frente e, de mãos dadas, olhando-se nos olhos, iniciaram uma enriquecedora conversa. A mãe começou a falar, demonstrando cumplicidade entre ambas:

— Filha, eu ja' passei por essa experiência que voce esta vivenciando, entendo a sua situação e acho normal que uma jovem que descobriu o amor queira que as coisas aconteçam rapidamente.

Sentindo-se acolhida e tocada pelas palavras de apoio, Laura, com os olhos cheios de lágrimas, saiu da postura de revolta e atirou-se nos braços de Alzira, que, tocando ainda mais a alma da filha, Ihe fez um carinhoso afago na cabega. Com isso, a moça soluçou no ombro amigo de sua genitora.

— Obrigada, mãe, por me escutar — disse aliviada e enxugando o rosto.

— Essa cumplicidade que ha' entre nds e o que deveria existir entre todos os pais e filhos, assim as relações teriam laços inquebráveis.

Desejando aprender com a experiencia da mãe, Laura perguntou:

— O que a senhora recomenda que eu desenvolva para construir um relacionamento duradouro como o seu?

Alzira, com a segurança de quem ja vivera o que ensinava, disse:

— Não existe uma receita pronta que sirva para todos os casais, querida. Eu acredito que, quando uma história de amor perdura, e porque ha' sinceridade, respeito, paciência, amor, fidelidade e cumplicidade entre o casal. Sem esses quesitos, nenhuma relação sobrevivera'.

— Que palavras lindas! — admirou-se Laura, emocionada.

— Por mais que uma mãe seja cuidadosa, repassando boas dicas para seus filhos, ensinando-os como devem agir para ter um relacionamento pacifico e realizador, nada e' mais construtivo que os desafios de uma convivência a dois, isso quando compreendemos que a pessoa que amamos não e' aquilo que imaginamos e nem tem a obrigação de ser o tipo que nós idealizamos, preenchendo as ilusões de nossa imaturidade.

— Senti em suas palavras que ha' no seu coração certa desilusão e muito remorso querendo vir a tona. A senhora perdeu a esperança de que um dia o meu pai mude, tornando-se uma pessoa mais fácil de lidar na convivência familiar?

— Depois de tantos anos de convivência com seu pai, tentando transformá-lo em alguém melhor, cheguei a conclusão de que ninguém muda ninguém. Resumindo, filha, devemos aceitar as pessoas como elas realmente são, com suas qualidades e defeitos, sem julgá-las como certas ou erradas.

Emocionada, Laura apertou as mãos da mãe, olhando em seus olhos com ternura e gratidão pelo aprendizado que acabara de receber.

— Poxa vida, mãe! Que lição de vida a senhora me deu neste instante.

Alzira emendou:

— O homem e' preparado desde pequeno pela sociedade machista para provar a sua masculinidade através da força bruta, e a mulher que não souber agir com sabedoria para contornar essa barreira vai se machucar por besteira. A mulher precisa usar a sensibilidade para saber o momento certo de falar aquilo que deseja e, de forma leve, sem assumir a postura de comando dentro do relacionamento, pois o homem machista não aceita isso em hipótese alguma, viver na condição de submissão, coisa que ele exige de nós, mulheres. Muita gente critica a minha forma de agir diante da postura autoritária de seu pai, dizendo que sou submissa e que eu deveria enfrentá-lo com mais firmeza. Ao contrário disso, eu sou e muito ativa e me relaciono muito bem com as pessoas conforme elas funcionam e não como eu gostaria que elas fossem. Ninguém conhece mais sobre o meu marido do que eu, que durmo com ele. O seu pai e' um homem honesto, trabalhador, não me deixa faltar nada. Apesar de seu jeito turrão, ele me ama ao seu modo e me satisfaz como mulher.

Alzira soltou um longo suspiro e prosseguiu:

— Homem e' igual a burro bravo, e' dificil domá-lo. Por isso, antes de montar em suas costas, devemos primeiro oferecer-lhe uma boa alimentação como agrado, amansá-lo com muito carinho e, depois, aos poucos, como quem não quer nada, colocar o cabresto no bicho sem que ele perceba que sua vida sera controlada por nós. Agindo assim, quando o machão vier acordar para pensar, ja' sera' tarde demais para mudar de idéia, pois ja concordou com o que a mulher quer sem notar que foi induzido por ela — concluiu Alzira aos risos.

Laura reconheceu que a mãe estava coberta de razão porque, na prática, Alzira era um exemplo vivo de que era assim mesmo que funcionava a cabeça de muitos homens. A sua própria história de vida, na convivência com o temperamento dificil de Salomão desde o namoro, revelava que, agindo com sabedoria, ela fazia com que o marido pensasse que ele era o comandante da relação. No entanto, quando os ânimos estavam calmos, Alzira estrategicamente se colocava usando um tom de voz delicado e respeitando a limitação do companheiro, e assim tirava de Salomão so' o melhor dele, dentro da mais perfeita harmonia.

Desejando aprender um pouco mais, Laura quis saber:

— Como devo agir para que meu casamento dure como o seu?

— No casamento e' natural o homem assumir a liderança da relação, porém e' importante que a mulher aprenda a ocupar o seu espaço, saiba manifestar aquilo que sente, mostrando ao companheiro, de maneira equilibrada no jeito de falar, que ela é a metade da peça que forma a união. Quando casamos, so' estamos buscando uma coisa: a felicidade na companhia de alguém. Para que haja harmonia entre o casal, e preciso que aprendamos a ceder e deixemos passar as coisas que nós desagradam no comportamento da pessoa que nós escolhemos como parceira.

Novamente Laura abraçou a mãe e beijou seu rosto, de maneira carinhosa.

— Outra coisa, minha filha... Não podemos levar a sério tudo que a pessoa nos fala quando ela esta com raiva, porque, na hora da furia, não medimos as consequencias de nossas palavras, agimos pelo impulso e falamos o que não e' a verdade do nosso coração. Aliás, as brigas que ocorrem entre casais geralmente são por coisas bobas, todavia, e no calor de uma discussão que se iniciam guerras intermináveis em que cada um, defendendo o seu ponto de vista, ataca o outro so' para provar que tem razão.

Laura fez um sinal afirmativo com a cabeça e comentou:

— Ainda mais nós, mulheres, que sempre achamos que estamos com a razão em tudo, não e' mesmo, mãe?

— Realmente, filha, a mulher e' um bichinho muito complicado de se lidar! Mas na maioria das vezes nós estamos mesmo com a razão — acrescentou Alzira, ressaltando a percepção intuitiva da alma feminina.

— Acho que e' por medo de se sentir inferior que o homem não abre espaço para a mulher opinar nas decisões que ele deve tomar.

— Com certeza, filha. Qual machão tera' a coragem de agir seguindo a orientação de uma mulher sem se sentir incapaz de resolver tudo sozinho?

— E' verdade, mãe. Os homens de nossa terra, então!

— Vixe Maria, filha, nem me fale. Os cabras-machos do sertão nem sob tortura vao perder a pose de coronel dentro do casamento. Graças a Deus, eu acordei para a vida e parei com aquela velha fantasia que muitas mulheres imaturas tem de que o homem ideal para casar e' um rapaz romântico, atencioso, companheiro, fiel e bem-sucedido, que as entenda e que fique sentado ao lado delas nos momentos de angústia, so ouvindo as suas queixas, igual a um cachorrinho obediente sob os comandos de sua dona... — ironizou Alzira, que emendou: — Isso e' coisa de mulher avoada que vive com a cabeça no mundo da lua, sonhando com um principe encantado que a faça feliz para sempre.

— E' — Laura balançou a cabeça.

— Algumas ate' conseguiram se casar com um principe encantado como sempre sonharam encontrar, mas, mesmo morando em um lindo castelo e tendo todas as mordomias que a realeza oferece, não foram felizes! Porque a vida não e' feita de ilusões, ou seja, quem vive de fantasia acaba recebendo uma visitinha da verdade para crescer e amadurecer espiritualmente.

— Isso e', mãe.

— Se eu pudesse, diria a todas as mulheres que vivem fora da realidade: "Naã percam o seu precioso tempo esperando um principe encantado que vai chegar em sua casa montado num cavalo branco, ate' mesmo porque isso e' preconceito contra os cavalos pretos" — definiu Alzira aos risos.

Laura riu gostosamente com o comentário da mãe e, emocionada com a bela lição que estava recebendo, abraçou Alzira e agradeceu:

— Reconheço que tenho muita coisa boa para aprender com a senhora.

Alzira suspirou profundamente e exprimiu:

— A vida criara as situações necessárias para que voce possa desenvolver as suas habilidades e descobrir soluções para as dificuldades que encontrara' na convivência a dois quando se casar.

— Eu vou seguir os seus passos como mulher — disse Laura, evidenciando a sua admiração pela postura equilibrada da mãe.

— Eu prefiro que voce siga so' o que pede o seu coração, minha filha. Dessa maneira, voce vai fazer escoIhas mais acertadas. Aliás, o caminho mais certo que existe nesta vida para quem deseja alcançar a realização de seus sonhos e seguir sempre o próprio instinto, ou seja, a alma — considerou Alzira, devolvendo a responsabilidade a filha.

— O meu amigo espiritual Alaor tem me dito isso sempre, mãe.

— E voce ja' consultou o seu mentor sobre este assunto?

— Ja', mas o Alaor disse que, em certas situações, a espiritualidade não pode interferir porque isso anularia o nosso livre-arbitrio e a gente estaria pulando etapas da vida importantes para o nosso amadurecimento.

— Ele realmente e' um espirito muito sensato — elogiou Alzira.

— Eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo por Deus ter me presenteado colocando a senhora no meu caminho como minha colaboradora nessa dificil Jornada rumo ao crescimento do meu espirito.

— A pessoa mais beneficiada aqui sou eu, minha filha, que five a benção de receber da graça divina em meu lar uma alma tão nobre como voce — disse Alzira, emocionada, tocando as mãos de sua filha amorosamente.

Laura, sentindo-se aliviada por ter encontrado apoio na mãe, disse:

— Como e' importante ter alguém que saiba ouvir, para conversar e desabafar... Essa nossa conversa tirou um peso das minhas costas!

Alzira suspirou profundamente e, com o olhar distante, disse:

— Durante anos de convivência com o seu pai, aprendi a duras penas que devemos deixar entrar por um ouvido e sair pelo outro as coisas desagradáveis que ouvimos de quem amamos, para não encher o coração de mágoa e, por consequência, adoecer.

Naquele instante, Laura percebeu a presença de Alaor, que acompanhava a conversa dela com a mãe. O espirito, tocado com aquela cena das duas trocando carinhos, pediu que a moça não revelasse a Alzira que ele estava ali.

Alzira sentiu um arrepio subindo por todo o corpo e perguntou:

— Filha, o seu mentor esta' aqui entre nós ou e impressão minha?

Alaor fez sinal com o dedo pedindo que Laura não confirmasse.

— Ele esta' pedindo para eu dizer que não, mãe. Alzira riu da resposta bem-humorada da filha e disse:

— Voce não guarda segredo nem de um espirito amigo?

— Alaor não precisa se esconder de ninguem, mãe. Afinal, para a maioria das pessoas, ele e' imperceptivel.

— Ah, e' verdade. Eu me esqueci de que ele e' uma presenga invisivel... — caçoou Alzira.

— Invisivel para quem não tem clarividência — defendeu Laura.

— Vamos voltar ao nosso assunto, porque discutir a sua capacidade de enxergar e se comunicar com os espiritos faz eu me sentir uma pessoa menos favorecida pela criação divina.

— Nossa! Que exagero, mãe! Depois de tanta sabedoria que a senhora acabou de me passar? Quanto drama em cima de uma coisa tão simples! — contestou Laura.

— Não e' drama, não, filha. E' a mais pura verdade. Conviver com alguém que e' médium, uma pessoa que nasceu com a capacidade de ver, ouvir e sentir o que nós, pessoas "normais", não percebemos, faz a gente se sentir um ser inferior sim — reafirmou Alzira.

— Ninguém e' superior a ninguém so' porque tem mediunidade.

— Mas se coloque no lugar de quem não tem a mesma visão que voce e observe como e' estranho encontrar alguem conversando com o invisivel como se estivesse batendo um papo de comadre — contrapôs Alzira.

— Eu sei que e dificil aceitar algo que não vemos e que alguém diz existir. Aliás, por causa das minhas visões, sempre fui chamada de louca pelo meu pai, que não entendia a minha sensibilidade mediúnica e achava que eu tinha alucinações.

Alzira ficou com o semblante entristecido, e Laura entendeu que ja' era o momento de encerrar o assunto que estava trazendo recordações ruins a mãe. Abraçaram--se e, piscando para seu mentor por cima do ombro de Alzira, Laura disse:

— Fique bem, minha mãe, pois nas travessias desafiadoras da vida sempre estamos amparados pelos nossos amigos espirituais, que por Deus são colocados em nosso destino para nos inspirar na escolha do melhor caminho.

— Eu sei disso, filha. Eu sei disso. E os pais que tiverem a mesma sorte que eu e o Salomão de receber um ser como voce terão muito mais a aprender do que a ensinar.

Alaor fez um gesto com as mãos como se estivesse batendo palmas para o relacionamento das duas, depois deixou mãe e filha a vontade. As duas sairam do quarto e, alegremente, seguiram para a cozinha.

Naquele mesmo dia, Alzira, arquitetando abrandar o coração do marido, decidiu preparar um jantar especial para agradá-lo, pois sabia que, quando Salomão estava feliz, ela conseguia arrancar dele tudo que queria e muito mais.

EVALDO RIBEIRO