CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 12

Assim feito mais uma vez, ela foi assertiva na sua estratégia. Salomão ficou com 'agua na boca ao chegar a mesa para jantar e constatar que a esposa havia preparado o seu prato predileto, a saborosa galinhada ao leite de coco babaçu, comida que havia tempos não era servida na casa.

— Hum! que delicia esta este jantar de hoje! — disse Salomão, levantando a tampa da panela e apreciando o irresistivel cheiro do tempero que subia pelo ar.

Todos os membros da familia ficaram muito felizes com a surpresa e, sem demora, logo cada um se apressou a fazer o seu prato. Serviram-se a vontade e muitos foram os elogios que Alzira ouviu.

Mais tarde, ja' no quarto, deitados para dormir, o casal conversava animadamente, e Alzira, sentindo que aquele era o momento apropriado para revelar o que estava se passando entre Laura e Eduardo, colocando-se como se não estivesse defendendo uma causa, disse:

— Meu bem, quero Ihe contar uma coisa muito importante sobre a Laura.

Antes de Alzira concluir a sua frase, Salomão, revoltado, cortou a esposa:

— Eu sentia no ar que voce estava armando alguma coisa!

— Mas eu nem acabei de falar... Voce ja' vem com quatro pedras nas mãos antes mesmo de ouvir o que eu tenho para dizer, homem de Deus? — defendeu-se Alzira.

Indignado, Salomão disse:

— Olha, Alzira, quero que voce saiba de uma coisa: eu demorei muito tempo para descobrir os truques que voces, mulheres, aparentemente obedientes ao marido, usam para levar os homens desatentos no papo, mas agora ja' estou com os olhos bem abertos, viu?

— Calma, me ouça primeiro — pediu Alzira.

— Uma coisa e' certa... Quando uma mulher esta muito boazinha e concordando com tudo que um homem fala, com certeza ela esta igual a uma cobra venenosa, so esperando o momento exato para dar um bote certeiro — disse ele, cismado.

— Meu bem, mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer.

— E o que tem a menina? — perguntou ele, irritado e apreensivo.

— A nossa filha cresceu e descobriu o amor — revelou Alzira.

— Com quern a Laura esta' se envolvendo?

— Ela e o filho do seu Juca querem a nossa permissao para namorar.

Como era esperado, Salomao ficou furioso quando ouviu a esposa anunciar com naturalidade o envolvimento de Laura com o filho do medium.

— Bem que eu desconfiei. O dia de hoje estava bom demais para ser verdade. Eu senti que voce estragaria a minha noite com uma noticia ruim. Estava na cara que o jantar especial que voce preparou foi motivado por algum pretexto traiçoeiro.

Alzira não retrucou as acusações do esposo, e Salomão, muito zangado, jogou o lençol longe, sentou--se na cama e questionou:

— Por que sera' que a mulher, quando percebe que o marido esta' feliz, e o motivo não e' ela, sempre da um jeito de acabar com a alegria dele?

Alzira ignorou a indagação ofensiva de Salomão, fingiu-se submissa ao autoritarismo do marido, baixou ainda mais o tom de voz e, ja' tirando a importancia do que tinha falado, para mais uma vez chegar ao seu objetivo, contrapôs:

— Eu so' estou cumprindo o meu papel de mãe, trazendo ao seu conhecimento o que a nossa filha esta' sentindo por um rapaz livre e trabalhador, que deseja receber a nossa aprovação para se amarem livremente. Mas se voce não quer autorizar o namoro, não tem problema. Ela vai ter que se conformar e aceitar a sua decisão.

— Voce ficou louca?—questionou ele, mais exaltado.

— Meu bem, voce precisa entender que a nossa filha ja' e' uma moça com maturidade para viver livremente as vontades dela.

— Eu sei que a Laura ja' e' uma mulher com maturidade para assumir os rumos da vida dela, e tudo que eu mais quero e que a minha filha siga um bom caminho. Porém, o que me incomoda nessa história e que, entre tantos rapazes trabalhadores e de boa familia que existem neste lugar querendo se casar com a Laura, ela foi justamente se apaixonar pelo filho do macumbeiro!

Alzira ponderou:

— Voce sabe muito bem que ninguém manda no coração, querido. Basta lembrar o que aconteceu com a gente.

Ouvindo a esposa falar em um tom afável, Salomão rebateu:

— O que mais me irrita em voce, Alzira, e esse seu jeitinho de falar manso comigo quando quer me dobrar na conversa!

Alzira, mostrando de qual lado estava o equilibrio, calmamente disse:

— Quer saber de uma coisa, Salomão? Se eu não tivesse aprendido a lidar com o seu temperamento e agisse da mesma maneira que voce, não teriamos ficado juntos por muito tempo. Porque dentro de um casamento não pode existir duas pessoas explosivas, senão o casal vai viver sempre em pe' de guerra ou acabar separado.

Salomão desconsiderou a observação da esposa e bradou:

— Não perca o seu tempo filosofando. Filosofia e fuga da realidade. O assunto aqui e' a escolha errada que a nossa filha quer fazer. Ja' não foi o bastante pra voce as perturbações dela desde criança? Em vez de manter a filha distante dessa gente que mexe com macumba, voce quer e' empurrar a menina pra dentro de uma familia de feiticeiros?

Acostumada com o preconceito e o ceticismo do marido, ela ficou calada como se estivesse dando razão para ele, que continuou a esbravejar:

— Nada vai me fazer acreditar nos absurdos que esses macumbeiros dizem. Para mim, eles não passam de estelionatários que se aproveitam da fe' de pessoas manipuláveis como voce e a Laura, que vivem buscando a solução para problemas irreais que voces mesmas criam em terreiro de macumba. Essa gente, esperta como e', leva uma vida boa, porque ganha dinheiro fácil enganando pessoas de mente fraca com essa conversa fiada de que solucionam histórias mal resolvidas de pessoas mortas que voltam para atazanar as vivas.

Alzira meneou a cabeça numa negativa, e ele continuou:

— Ah, faça-me o favor. Isso e' a coisa mais absurda que eu ja vi na minha vida. Onde ja' se viu resolver o problema de alguém que esta' morto? A verdade e' que, quando morremos, nossos problemas estão todos resolvidos. Olhe aqui na minha cara, Alzira.

Ela o encarou, e Salomão disse, colérico:

— Veja aqui se esta' escrito na minha testa a palavra otário? Debaixo de sete palmos de terra ninguém tem mais problemas, querida. Bateu as botas, acabou--se, escafedeu-se e fim de papo. Essa e' que e a grande verdade da vida. So' uma pessoa imatura vai acreditar nesse papo de vida após a morte. Não tem coerência a gente morrer e continuar vivo do lado de la'. Não faz sentido causar tanto sofrimento para os que ficam do lado de ca'. Sera' possivel que voce não raciocina, mulher? Pare de influenciar a nossa filha a seguir o caminho da burrice.

Quando Salomão silenciou, Alzira agiu como se não tivesse sido agredida verbalmente pelo esposo e tornou:

— Meu bem, a nossa filha não e' mais essa menininha sem conhecimento e desprotegida que voce pensa que e', não.

Salomão, exaltado, retrucou:

— So' falta agora voce me dizer que a Laura perdeu a pureza com aquele filhote de macumbeiro e engravidou do vagabundo.

Alzira seguramente defendeu a filha, dizendo:

— Laura nunca teve contato com o rapaz. Deixe de ser dramático, homem de Deus.

— Eu acho bom mesmo que aquele projeto de homem não tenha sido tao ousado a ponto de desrespeitar a honra da minha filha. Porque se ele tiver feito qualquer coisa com a Laura, voce pode ter certeza de que os dias dele aqui na Terra estão contados. Quer saber de uma coisa? Eu vou ter uma conversa com a Laura agora mesmo, para colocar um ponto final nesse assunto
— vociferou ele, levantando-se da cama.

Laura, que ja' tinha escutado a discussão dos pais, começou a rezar. Nervoso, Salomão bateu a porta e a chamou com a voz alterada:

— Laura, Laura, abra essa porta agora!

— Ja' vai, pai — disse a jovem, levantando-se. Quando Salomão se deparou com a filha, disse, tentando intimida-la:

— Voce prometeu que nunca teria como namorado alguém que não fosse do meu agrado. Mas acabei de concluir que, assim como a sua mãe, que mente de cara limpa, voce e' outra dissimulada e fingida que não merece crédito ao que fala.

Corajosamente, Laura olhou firme para o pai e, como se não soubesse do que ele estava falando, perguntou:

— O que eu fiz de tão grave para o senhor estar me ofendendo desse jeito?

— Não se faça de inocente. Chega de fingimento. Voce sabe muito bem do que eu estou falando.

Laura permaneceu calada, segurando a porta entreaberta.

— Que história e' essa que a sua mãe me contou de que voce esta' apaixonada pelo filho do macumbeiro?

— inquiriu Salomão.

Laura tornou coragem e, de forma assertiva, respondeu:

— Pai, o que eu sinto pelo Eduardo e' o mesmo tipo de sentimento que a minha mãe sentiu quando conheceu o senhor. E' uma força incontrolável que brota da minha alma, me deixa leve como uma pena, me faz perder o medo de tudo e sonhar bem alto. E' uma coisa eu quero que o senhor saiba: esse genuino sentimento me diz que somente quem tem a coragem de seguir o próprio coração consegue abrir todas as portas.

A resposta de Laura levou o pai aos momentos mais dificeis de sua vida afetiva, em que ele e a esposa, ainda menores de idade, tiveram de enfrentar a opinião contraria dos familiares de Alzira e, apaixonados, bravamente vencer esse obstáculo fugindo de casa.

Enfraquecido por aquela lembrança, Salomão disse:

— O filho do macumbeiro não e' o homem certo para se casar com voce.

Notando que o pai estava sem argumento para Ihe fazer desistir da vontade de seu coração, Laura aproveitou para colocar em prática as dicas que aprendera com a mãe, de como uma mulher, naquela 'epoca em que o machismo reinava, deveria agir para dobrar um homem autoritário na conversa. Então, ela respirou profundamente, encheu o peito de coragem e contrapôs:

— Pai, eu e o Eduardo descobrimos que nascemos um para o outro. Isso esta' claro para nós desde quando nos encontramos ainda na adolescência, ou melhor, quando nos reencontramos. Mas se não tivermos a sua aprovação, o nosso relacionamento vai terminar mais uma vez antes mesmo de ter começado, so' para não Ihe causar desgosto.

— Eu não acredito mais em suas promessas, Laura — bradou. — Voce age igual a sua mãe, finge concordar comigo, se prontifica a seguir as minhas ordens de chefe da casa, mas, quando eu dou as costas, voces fazem exatamente o contrário do que eu determino e traem a minha confiança.

Laura pensou: "Ele esta ficando esperto. Meu paizinho descobriu o nosso segredo!".

Salomão retornou ao comando da conversa:

— Para o seu próprio bem, trate logo de esquecer esse rapaz. Pela última vez vou Ihe avisar que jamais vou permitir que voce se envolva com esse tal de Eduardo, filho do macumbeiro. Não sei explicar. Não gosto dele. Ele não vai fazer voce feliz.

Laura arregalou os olhos. Nunca vira o pai falar com tanto sentimento. Salomão falou com a voz meio embargada e não tinha percebido, mas a filha notou. No entanto, como estava apaixonada, logo a observação do pai caiu por terra.

Usando o mesmo truque da mãe, deixou o pai achando que tinha vencido mais uma batalha e, da boca pra fora, concordou:

— Tudo bem, pai, eu vou respeitar a sua decisão. Salomão saiu falando alto e gesticulando com as mãos. Laura ficou sentada na cama chorando. Alzira foi ao encontro da filha, acolheu-a nos braços, afagando--Ihe os cabelos, e disse:

— Não fique assim, não, querida.

Logo escutaram a porta da frente batendo com força, indicando que Salomão estava saindo de casa para ir dar um chega-pra-la' no rapaz. As duas correram ate' a janela e viram que ele seguia na direção da casa de Eduardo, certamente para transmitir o mesmo aviso nada amigável ao jovem.

— Aonde voce vai, Salomão?— perguntou Alzira, do parapeito.

— Vou ter uma conversa com aquele cabra, para que ele entenda de uma vez por todas a minha mensagem — respondeu Salomão com um facão afiado na mão.

Alzira e Laura correram para tentar impedi-lo, porém a fúria o deixara completamente incontrolável. Percebendo que a esposa e a filha estavam seguindo os seus passos, Salomão parou por um instante e ordenou com braveza:

— Voltem imediatamente para dentro de casa, porque em conversa de macho não cabe presença frágil de mulher indefesa.

Obedientes, elas desistiram de segui-lo e voltaram para dentro de casa, preocupadas com o que poderia acontecer com Eduardo, caso ele tivesse alguma reação contrária diante dos insultos que iria ouvir de Salomão. Alzira e Laura começaram a rezar pedindo aos benfeitores espirituais que intercedessem, evitando que o encontro terminasse em tragédia.

Salomão, pisando firme como um soldado destemido, rapidamente chegou a casa de Eduardo e o encontrou na calçada em um divertido bate-papo com os amigos. De maneira nada amigável, o pai da moça apontou o facão para o jovem e bramiu:

— Precisamos ter uma conversa de homem pra homem, se e' que posso chamá-lo de homem, seu projeto de feiticeiro!

Pego de surpresa, o rapaz ficou tremendo de medo com a agressividade da inesperada abordagem, e, ja' querendo se proteger, perguntou:

— Aconteceu alguma coisa, seu Salomão?

— Quero avisá-lo pela última vez que vai acontecer algo muito ruim com as suas partes intimas se voce insistir em se aproximar da minha filha. Entendeu bem?

— Eu nao fiz nada com a sua filha, seu Salomao.

Prefiro acreditar que voce não tenha mesmo ousado. - gesticulando com o facão na mão como se fosse atacá-lo, Salomão continuou:- E antes de pensar em tirar a honra da minha filha, eu quero que voce saiba o formigueiro que está bolinando.


Eduardo tentou dialogar, mas o pai da moça o deixou falando sozinho.

Alcides, um dos amigos do rapaz, levantou-se da cadeira e perguntou:

— 0 que voce aprontou, Eduardo, que o seu Salomão chegou aqui demarcando território igual a um leao alfa se impondo como o rei do pedaço?

— Eu não fiz nada — respondeu Eduardo, tentando ainda digerir o desacato.

— Como nada, se o homem chegou aqui babando de ódio feito um cachorro louco e o atacou com palavras tão duras? — insistiu Alcides.

Juca estava conversando com a esposa na sala e, ao escutar os berros ameaçando seu filho, foi ate' a porta conferir o que estava acontecendo la' fora. Fingindo não ter escutado nada, questionou:

— O que houve aqui, pessoal? Escutei uma voz alterada fazendo ameaças. Foi isso mesmo?

— E' o seguinte, seu Juca, estavamos aqui na calçada, como fazemos todas as noites, batendo um papinho, quando de repente chegou o seu Salomão bufando de raiva igual a um touro bravo, com um facão na mão. Falou um monte de desaforos para o Eduardo e depois foi embora.

Juca olhou para Eduardo como quem perguntava: "O que voce fez para causar essa revolta no pai da moça?".

Diante do olhar indagador do pai, Eduardo tratou de explicar:

— Pai, o seu Salomão e' um homem muito ciumento.

— E por que ele veio aqui em casa ameaçar voce?

— Na verdade, ele não me ameaçou. Ele me avisou, claro que daquele jeitão bruto dele, para eu ficar longe da Laura porque não e' do agrado dele que a gente namore.

— E por que voce não colocou o velho para correr de sua porta, mostrando qual e' o leão que manda nesse territdrio que ele invadiu, filho?

— Eu agi como o senhor sempre me aconselhou, pai. No momento do insulto, procurei manter a calma e não devolver na mesma moeda. O valentão encheu o peito de razão e foi embora levando de volta a energia pesada que ele mesmo trouxe... e eu fiquei com a minha paz de espirito.

Orgulhoso da atitude positiva do filho, Juca disse:

— Muito bem, Eduardo. Voce fez a coisa certa. Parabéns pela sua postura. E' dessa maneira mesmo que devemos sempre agir quando somos ofendidos e atacados injustamente por alguem amargo e desequilibrado — e, virando para os amigos do filho, tornou: — E voces, rapazes, façam o mesmo quando alguem vier com pedras na mão. Nunca devolvam na mesma moeda, nem ajam com agressividade. E' melhor deixar que o outro "ache" que tem razão do que perder a saúde se desgastando em conflitos... — E, voltando-se para Eduardo, disse: — Novamente quero parabenizá-lo, filho. Voce agiu como uma pessoa sensata diante de uma provocação de alguem guiado pelas forças do ódio.

Sem clima para continuar conversando, os amigos do rapaz, coagidos pelo medo de o homem bravo retornar, decidiram encerrar o bate-papo e foram embora.

Juca abraçou o filho amorosamente e aconselhou:

— Afaste-se dessa moça e evite forçar a ordem dos acontecimentos.

O rapaz agradeceu ao pai pelo amor e ensinamento e foi se deitar.

EVALDO RIBEIRO