CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 13

Eduardo, apesar de não demonstrar que Salomão tinha ferido o seu orgulho, intimamente sentia-se muito humilhado.

"A Laura sera' minha e nada nesta vida vai nos impedir de ficar juntos", pensou, após uns instantes sonhando acordado.

Assim que deixou a residência de Juca, Salomão continuou tornado pela fúria, e, ao entrar em casa, reforçou para a filha a sua opinião contrária a vontade dela de namorar o filho do médium.

Porém, a reprovação do pai despertou no coração de Laura uma vontade ainda maior de se entregar a Eduardo. Essa vontade era muito maior que o medo de ser punida e, dominada por aquele desejo ardente, ficou dias se imaginando nos braços do homem proibido.

Como Salomão estava decidido a dificultar a reaproximação dos apaixonados, não teve dúvida: colocou Olivia como um cão de guarda vinte e quatro horas por dia para vigiar os passos da irmã mais velha, tornando impossivel um contato entre os pombinhos.

Passados alguns dias, Eduardo, não conseguindo mais ficar longe da amada, outra vez recorreu a irmã para ajudá-lo na dificil tarefa de promover um encontro entre ele e Laura para tomarem uma decisão definitiva. Desejando a felicidade do irmão,
Rosana concordou em interceder no caso.

Como quem não queria nada, com muita discrição, ela foi se aproximando de Laura, ate' que conseguiram conversar, e a irmã do rapaz propôs que eles se encontrassem as escondidas em dias, horários e lugares secretos diferentes.

Sem mais resistir ao desejo de estar nos braços de Eduardo, Laura marcou um encontro a beira do riacho, onde ela costumava lavar roupas.

Rosana sabia do risco que Eduardo estava correndo por insistir em se encontrar com a moça contra a vontade do pai dela, e avisou ao irmão:

— Eu so' espero que voces tenham juizo e saibam o risco que estarão correndo com esses encontros proibidos. Portanto, não passem dos limites.

— Pode ficar tranquila, minha irmã, pois eu tomarei todos os cuidados para que ninguém descubra que estamos juntos — assegurou Eduardo.

No dia combinado, Laura acordou muito disposta, como nunca estivera antes, e logo cedo colocou em uma bacia as peças de roupas que iria lavar.

Ao ver aquela cena, Alzira desconfiou de que, por trás da boa vontade da filha, na verdade havia outro interesse, pois a moça demonstrava no olhar uma nitida inquietação, e na expressão de seu rosto, muita ansiedade. Curiosa, questionou o que estava acontecendo com a filha, mas Laura não revelou o segredo de seu coração.

Alzira pôs-se a pensar: "Ela deve estar planejando aprontar alguma coisa".

Contra a sua vontade, Laura foi ao riacho acompanhada de Olivia, que, obedecendo a determinação do pai, prazerosamente seguia cada passo que a irmã mais velha dava.

Ao chegarem ao riacho, as duas irmãs encontraram outras mulheres lavando suas roupas, mas, desejando se livrar do olhar vigilante da caçula, Laura sugeriu:

— Olivia, va se divertir com suas amigas. Pode deixar que eu lavo as roupas sozinha. Quando eu terminar, chamo voce para irmos embora.

Como Olivia não gostava mesmo daquele serviço, nem desconfiou da intenção da irmã e, antes que Laura pudesse mudar de idéia, ela saiu correndo na direção das colegas que brincavam na 'agua falando todas ao mesmo tempo.

Laura colocou as roupas de molho no sabão para amolecer a sujeira e, vendo que a irmã estava distraida, seguiu por uma trilha na direção em que estava Eduardo. Ele disfarçadamente pescava na margem do riacho, a espera da amada, conforme haviam combinado por intermedio de Rosana.

Laura aproximou-se de Eduardo com o coração batendo acelerado. Ao vê-la chegar, ele soltou o anzol no chão e correu ao seu encontro.

— Mais uma vez pensei que voce tivesse desistido de aparecer — disse ele.

— Pois voce pensou errado — devolveu Laura, com um olhar penetrante.

— Sei que o nosso encontro não pode ser demorado porque sua irmã logo sentira' a sua falta e desconfiara' de seu sumiço — afirmou Eduardo, preocupado com o risco que estavam correndo. — Mas depois que o seu Salomão proibiu o nosso namoro, uma chama intensa desabrochou dentro do meu coração e eu repito: nada neste mundo vai nos separar. Eu disse nada — enfatizou. — Voce entendeu?

— Sim, meu amor — respondeu ela, emocionada.

— Faço minhas as suas palavras. Nós ficaremos juntos, nem que para isso tenhamos que fugir daqui para bem longe, como os meus pais fizeram quando descobriram que se amavam e os pais da minha mãe não aceitavam o amor deles.

Eduardo estendeu as mãos para pegar em seu rosto com a intenção de beija-la, mas ela virou o rosto e saiu como se estivesse indo embora. Porém, após dar alguns fingidos passos de fuga, ela ficou parada de costas, esperando que ele a impedisse de partir.

Entrando naquele jogo de sedução, Eduardo se aproximou por tras dela, levantou os cabelos longos da moça com delicadeza, encostou os lábios em seu pescoço, deu uma mordida sensual perto da nuca dela e sussurrou ao pe' de seu ouvido:

— So' de olhar para voce, meu amor, eu fico louco de desejo.

A estratégia do rapaz foi fatal, pois, quando Laura sentiu o toque daqueles lábios quentes encostando em seu pescogo, mordendo sua pele suavemente, e a voz sussurrante se declarando ao pe' de seu ouvido, ela perdeu completamente o controle da situação e se deixou envolver.

A cada toque de Eduardo, um delirante arrepio Ihe subia pelo corpo todo. Ele continuou com as caricias, deixando-a mais enlouquecida.

Laura virou de frente para ele e, dominada pelo fogo da paixão, pegou no rosto de Eduardo com as duas maos, puxando-o com força para beija-lo ardentemente.

— Eu te quero muito — balbuciou ela, enquanto beijava-o com loucura.

— Eu tambem — disse ele, emocionado por ter conseguido o seu intento.

Bocas coladas pelo calor do desejo intenso, beijaram-se repetidas vezes com muita paixão ali mesmo, sem tomar cuidado para não serem vistos. Ficaram abraçados e trocando carinhos durante alguns minutos, e quanto mais se beijavam, mais sentiam vontade de se curtir.

Sairam da beira do riacho e foram para a sombra de uma 'arvore, onde existia uma camada de folhas secas em que fizeram um ninho de amor.

Quando a coisa ja estava seguindo para algo concreto, ouviram os gritos de Olivia, que sentira falta da irmã e começara a chamá-la aos berros. Deitados sobre as folhas barulhentas, ouvindo o chamado de Olivia, sentiram o clima despertar, trazendo-lhes uma sensação de prazer indescritivel por estarem vivendo um romance proibido. Um sobreposto ao outro, o casal trocou mais alguns calorosos beijos.

Eduardo ia falar, mas novamente escutaram os gritos de Olivia chamando por Laura. Então deram mais um demorado beijo e decidiram encerrar o encontro.

Laura voltou com a alma realizada, imaginando-se para sempre nos braços de seu amado, recebendo aqueles beijos quentes. Ela não conseguia conter o pensamento, que trazia de volta a sua memória a imagem de Eduardo abraçando-a por trás, acariciando-a e seduzindo-a. O seu corpo, ainda estimulado pelas sensações do toque que recebera, vibrava de prazer e clamava por mais um pouco daquela emoção proibida.

Mentalmente, ela afirmava para si mesma: "Agora sim eu senti o gosto do amor. Eduardo, além de ser um homem muito atraente, tem um beijo quente de enlouquecer e um toque tão forte que, so' de imaginar, a minha vontade e de repetir tudo de novo, e dessa vez deixar acontecer o que o meu corpo me pede".

Seguindo por uma trilha na margem do riacho, Laura levou um susto quando se deparou com Olivia, que vinha em seu rastro igual a um cão farejador, Fingindo estar aborrecida, a moça apaixonada deu uma bronca na irmã cagula por ter Ihe chamado tanto, alardeando o seu sumiço.

— Olivia, que gritaria era aquela? Morreu alguém?

— Eu não sabia onde voce estava — justificou a caçula.

— Eu fui dar um mergulho la na cachoeira — mentiu Laura.

— Pensei que voce tivesse ido embora — falou Olivia, dando uma volta em torno de Laura e olhando-a dos pés a cabeça.

— O que foi, que voce esta me olhando de cima abaixo com essa cara desconfiada? — perguntou Laura, incomodada com a marcação da irmã.

— Nada não, Laura — dissimulou a mais nova.

— E se eu tivesse mesmo ido embora? Voce não sabe o caminho de casa, não, diacho?

— E' claro que eu sei.

— E por que voce ficou alardeando feito galinha quando bota ovo?

— O papai me pediu para não desgrudar de voce um so' instante.

Laura pegou no braço da irmã com força e, encarando-a, disse:

— Escuta aqui, garota! Se voce inventar alguma história para encher a cabeça do papai de minhoca, vai se arrepender de ter nascido. Ouviu bem o que eu disse, sua peste?

— Ai, me solta, Laura. Voce esta' me machucando — reclamou Olivia.

Laura soltou o braço da irmã, dando-lhe um chega--pra-la', e as duas seguiram em direção ao local onde estavam as outras mulheres na margem do riacho, sentadas sobre as imensas pedras, ensaboando e esfregando as peças de roupas, enquanto falavam todas ao mesmo tempo em um divertido papo de comadres.

De volta ao grupo, Olivia foi se divertir com as amigas, mergulhando na refrescante 'agua, enquanto Laura foi concluir a lavagem das roupas.

Quando as colegas viram Laura chegando com os cabelos cheios de folhas e aquele brilho no olhar, logo desconfiaram de seu sumiço.

Rebeca, não suportando a curiosidade, maliciosamente perguntou:

— Onde voce foi, Laura? Ficamos todas preocupadas com o seu sumiço repentino, achando que voce tinha sido engolida por uma sucuri gigante. Conta pra gente! Que bicho pegou voce? Voce saiu daqui com esse seu cabelão de India brilhando ate' a cintura e voltou com ele todo encolhido, amassado, cheio de restos de folhas secas e com essa cara de espantalho...

Diante da avaliação irônica de Rebeca, todas cairam na gargalhada, menos Laura, que, desconcertada com a brincadeira da colega, respondeu:

— Como voce e' maldosa, Rebeca! Eu fui apenas relaxar um pouco, apreciando a queda da cachoeira.

— Pelo visto voce gostou tanto da queda da cachoeira que resolveu cair tambem, não foi? — insistiu Rebeca, novamente provocando risadas.

— Vão cuidar da vida de voces — rebateu Laura, impaciente.

Procurando consertar o mal-estar que havia criado, Rebeca parou o seu serviço por um instante e foi ate' Laura para se desculpar pela situação constrangedora na qual havia colocado a amiga.

Laura, ainda demonstrando estar muito chateada por ter sido exposta ao ridiculo, aceitou o pedido de desculpa so' para encerrar o assunto. Calou-se, terminou de lavar as roupas, chamou Olivia e foram embora.

No quintal de casa, enquanto colocava as peças de roupa para secar, Laura começou a cantar. Esse fato não passou desapercebido por Alzira, que, ouvindo a filha cantarolar feito um sabiá, ficou intrigada com aquela alegria.

Curiosa para saber qual era o motivo de tanta felicidade, a mãe apareceu na janela discretamente, acenou com a mão chamando Olivia, sem que Laura percebesse a sua presença, e perguntou:

— Olivia, o que aconteceu de tão especial com a sua irmã la' no riacho? Ela saiu de casa tão pensativa e voltou assim, feliz da vida...

— Não aconteceu nada — respondeu Olivia com um sorriso irônico, deixando transparecer que a alegria da irmã tinha sim um motivo.

Notando que a resposta da caçula não transmitia segurança, Alzira fez cara de autoridade e, com olhar intimidador, novamente perguntou:

— Voce tem certeza de que não houve nada com a sua irmã la' no riacho?

Olivia novamente foi cinica e, com um riso de deboche, disse:

— Não houve nada, minha mãe... Eu acho — insinuou ela, em seguida.

Alzira se irritou com a ironia da filha caçula, que se aproveitava de sua desconfiança para se divertir a sua custa. Restava-lhe tirar a dúvida diretamente com a filha mais velha. Alzira dispensou Olivia, que foi para o quarto se trocar.

Laura percebeu a mãe se aproximando e sentiu que seria investigada. Alzira decidiu questioná-la de forma amorosa, mas querendo saber a verdade:

— Nossa, filha! Quanta alegria nesse teu coragao! — exclamou a mãe, admirada. — Conta para a mamãe o que aconteceu de tão bom la' no riacho... Voce saiu daqui calada e voltou transformada e cantando essa música tão romântica!

Com a pergunta da mãe, Laura voltou mentalmente as picantes cenas de paixão e loucura que viveu sobre as folhas secas a beira do riacho, ao som da cachoeira que se misturava ao canto dos pássaros.

A jovem apaixonada, com a alma leve, suspirou profundamente e respondeu:

— Ah, mãe, eu deixei a correnteza do riacho levar embora toda aquela tristeza que estava apagando a luz da minha alma quando acordei hoje de manhã.

— Laura, pelo amor de Deus, não faça coisa errada, filha. O seu pai esta' atento a voce — alertou Alzira.

— Ue', por que o meu pai esta' me vigiando?

— Para voce não fazer besteira, menina.

— Como e que eu vou fazer besteira, mãe, se eu vivo o dia todo em casa? E, quando saio, a Olivia gruda em mim feito um carrapato?

— Filha, não se faça de inocente pensando que vai me ludibriar... Eu ja' fui jovem e sei quando uma mulher esta' aprontando alguma coisa errada.

Laura terminou de colocar as peças de roupa para secar e, enquanto se dirigia para dentro de casa, seguida pelos passos investigativos da mãe, declarou:

— A senhora e' a melhor mãe do mundo! E' por isso que eu a amo mais do que tudo nesta vida, minha flor.

Ja' conhecendo a esperteza da filha, Alzira disse:

— Nem pense que, com esse jeitinho sedutor, voce vai conseguir me enrolar e escapar de me contar o que andou aprontando, não, viu?

— Não se avexe, não, minha mãe — devolveu Laura, colocando a bacia vazia no chão e se dirigindo a cozinha em busca de algo para matar a fome.

Ainda seguindo os passos da filha, Alzira exprimiu:

— Olha, minha filha, eu não quero Ihe aporrinhar pegando no seu pe', não. E' natural que eu queira saber o que se passa em sua vida.

Laura parou um instante, voltou-se para a mãe, deu-lhe um carinhoso abraço e, puxando o seu dengoso sotaque nordestino, disse:

— Ó, maezinha, não se torture assim. Esta' tudo bem comigo. Deixe o seu coração em paz, deixe.

Tocada pelo chamego da filha, Alzira disse:

— Voce e' terrivel mesmo, Laura! Com esse seu jeitinho afetuoso e ligeiro de se comunicar, dobra qualquer pessoa na conversa para conseguir o que quer.

— Aprendi com a senhora, mãe, que, se a gente nao colocar o amor na frente de nossas ações, não teremos êxito em nossas relações.

Orgulhosa pela esperteza da filha, Alzira encerrou, dizendo:

— Vou deixar voce almoçar, senão vamos ficar filosofando de barriga vazia.

— E o que a senhora preparou de gostoso para o almoço de hoje, mãe?

— Fiz uma suculenta galinha caipira ao molho de óleo de coco babaçu que, de tão cozida, esta' derretendo na boca.

— Nem me fale isso, minha mãe. Eu ja' estou e com 'agua na boca so' de ouvir a senhora falar da minha comidinha predileta.

Laura estava com tanta fome e vontade de provar a comida preparada com carinho pelas mãos afetuosas de sua mãe que, enquanto fazia o prato, lambeu os dedos, degustando o irresistivel sabor do tempero de Alzira.

Quando Olivia chegou a cozinha e destampou a panela, como fizera Laura, também ficou com 'agua na boca so' de olhar a suculenta galinhada. Enquanto degustava aquela comidinha caseira, Laura concluiu que, apesar das dificuldades que sua familia enfrentava, a vida que levavam dentro daquela simplicidade era muito prazerosa e feliz.

EVALDO RIBEIRO