CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 14

O tempo passou, e o casal de apaixonados continuava se encontrando as escondidas. Um dia, Eduardo, disposto a pagar o preço do amor que sentia por Laura, decidiu colocar um fim naquela desconfortável situação e propôs a ela assumirem o relacionamento.

A moça, vibrando de alegria, concordou com a idéia. O jovem revelou a seu pai que estava mantendo um relacionamento as escondidas com a filha do sistemático Salomão.

— Voce perdeu o juizo? — perguntou Juca, revoltado com a ousadia do filho.

— E qual e' o problema, pai? Nós somos solteiros e nos amamos — justificou o jovem apaixonado.

— Voce não tern medo de morrer, não?

— Fique tranquilo, meu pai.

— Como vou ficar tranquilo, Eduardo?

— O senhor esta' preocupado a toa.

— Meu filho, voce perdeu a noção do risco que esta' correndo?

Eduardo, divertindo-se com a aflição do pai, informou:

— Ninguém sabe de nada que esta acontecendo entre mim e Laura. Os nossos encontros ocorrem de forma muito discreta. Por incrivel que pareça, nunca houve nada de mais entre nds. A gente se encontra apenas para namorar.

— Voce deve estar brincando comigo, filho. Não e' possivel que um homem na sua idade consiga manter encontros com uma mulher dentro do mato e se contente apenas com beijinhos inocentes. So' pode ter sido um milagre voce não ter embuchado a filha do Salomão. Voce deve ser infertil — contestou Juca, inconformado.

— Pai, o senhor precisa acreditar na minha palavra. Eu Ihe garanto que a pureza da Laura continua intacta.

— Ah, meu filho, faça-me o favor, rapaz, conte outra história, vai! Eu não nasci ontem.

Eduardo saiu em defesa da honra da amada:

— Estou falando sério. A Laura e' uma moça direita e, mesmo a gente se encontrando no meio do mato, eu respeito a vontade dela de se casar pura.

— Nada vai me fazer acreditar nessa conversa, meu filho.

— Creia em minha palavra. O que estou Ihe falando e' a mais pura verdade — insistiu Eduardo.

— Voce esta' me deixando preocupado. Irritado com a descrença do pai, o rapaz indagou:

— O senhor esta' duvidando da minha masculinidade so' porque eu respeitei a escolha da mulher que amo, que optou por se casar pura?

— Voce vai me desculpar pela minha descrença em sua palavra, mas, se essa história que esta' me contando for mesmo verdadeira, de duas, uma: ou voce ama muito essa moça ou não e' macho — aventou Juca.

— Eu sou macho, sim, pai. E quero que o senhor saiba que esse seu comentário me ofende muito. Eu amo a Laura mais do que tudo nesta vida — afirmou Eduardo.

— E como voce tem conseguido se segurar por tanto tempo?

— O amor que eu sinto pela Laura e tão grande que serei capaz de suportar qualquer coisa para que ela seja feliz.

— Vamos resolver essa encrenca o mais rápido possivel. Afinal de contas, de nada vai adiantar a gente ficar discutindo a intimidade de voces.

— Quero pedir ao senhor que va' procurar o seu Salomão para a gente acertar de uma vez por todas essa questão.

Juca estava consciente de que aquele relacionamento estava pondo a vida do filho em risco e achou mais sensato ir logo procurar o pai da moça para revelar o romance entre os dois, ja' que Salomão havia se mostrado contra desde o inicio.

Quando o pai do rapaz chegou a casa do pai da moça e anunciou que o motivo de sua visita era tratar da felicidade de seus filhos, Salomão, irredutivel, nem o esperou concluir e foi logo avisando:

— Seu Juca, eu sinto muito em informá-lo, mas o seu filho não e' bem-vindo como membro da minha familia. Esse rapaz precisa colocar em sua cabecinha de minhoca que a minha filha não nasceu para o bico dele. Ela merece coisa muito melhor.

Juca, de maneira pausada, quis saber:

— E o que voce tem contra o meu filho, se ele e' um rapaz de caráter, honrado e trabalhador?

— Eu não tenho nada contra a pessoa de seu filho. Sou contra a vontade dele de querer entrar na minha familia a todo custo com essa conversa de grande amor — explicou Salomão de maneira enfática.

— Então me diga: o que voce observou de errado na postura do meu filho que Ihe deixou com tanta raiva e repulsa dele?

— Não gostei da atitude dele de ter aproveitado a minha ausência para vir ate' a minha casa assediar a minha filha — esclareceu o pai da moça, magoado.

Juca sabia que, desde que Laura e Eduardo se apaixonaram, ainda na adolescência, o verdadeiro motivo pelo qual Salomão rejeitava Eduardo era outro, e ditou:

— Eu sei que essa sua reprovação a união deles não e' de agora. Lembro muito bem que isso vem desde que eles eram adolescentes.

Salomão não disse nada, apenas fez cara de pouco caso, e Juca continuou:

— Eu ate' que tentei manter o meu filho longe da sua filha. Porém, quando duas almas afins se encontram e dois corações se querem, não ha' nada que possa deter a força de um amor verdadeiro.

Ainda se mostrando irredutivel, Salomão ficou de cara fechada, negando-se a continuar discutindo com o pai do rapaz sobre o relacionamento de seus filhos.

Embora o pai da moça não declarasse abertamente a razão pela qual rejeitava a familia de Juca, deixava transparecer que a sua reprovação tinha origem pre'-conceituosa, referente ao trabalho que ele desenvolvia como médium.

Juca, por ser uma pessoa esclarecida e tendo compaixão pela ignorância do preconceituoso homem, defendeu a atitude do filho, dizendo:

— Salomão, voce ja' foi jovem e sabe que um rapaz sem experiência, na idade do meu filho, por medo de não ser aprovado, esta' sujeito a agir errado.

Salomão apenas coçou a cabeça, demonstrando inquietude por não desejar mais prosseguir com o assunto, e Juca, desgastado por não conseguir convencer o pai da moça a ceder, despediu-se e partiu com a certeza de que o melhor seria aconselhar o filho a colocar um ponto final naquele relacionamento.

Quando Eduardo viu o pai chegando, notou, pela expressão de seu rosto desanimado, que Salomão novamente o tinha rejeitado.

Juca deu um carinhoso abraço no filho e relatou como sucedeu a conversa com Salomão. Com a negativa do pai de Laura, o jovem sentiu-se mais uma vez frustrado.

Mesmo sabendo que Eduardo e Laura se amavam muito, Juca aconselhou o filho a terminar o namoro com a moça e seguir a sua vida.

A principio Eduardo concordou em desistir de Laura. Mas so' na teoria, porque na prática continuaram se encontrando as escondidas como ja' vinham fazendo antes, e com mais frequência agora.

Durante o oculto namoro, uma coisa chamava a atenção de Eduardo: o olhar cobiçador de Olivia que, sem saber que ele e Laura estavam mantendo um relacionamento, se insinuava, interessada nele também.

Com o decorrer do tempo, Olivia, sentindo um desejo incontrolável por Eduardo, foi se aproximando do namorado da irmã e, a cada chance que tinha, aumentava ainda mais as jogadas de sedução, numa tentativa de conquistá-lo.

Oscar, o irmão da moça, várias vezes a observou abanando o calorão que sentia quando via Eduardo passar em frente a sua casa. Preocupado, o irmão comentou com a mãe:

— Tenho a sensação de que a Olivia vai trazer dor de cabeça para a senhora e para meu pai, aprontando alguma coisa errada.

— Por que voce diz isso de sua irmã?

— Sempre que o Eduardo passa aqui na porta de casa, ela fica toda assanhada, como uma cachorra no cio.

— Talvez ela esteja apaixonada pelo Eduardo — comentou Alzira.

— Tenho certeza disso — afirmou Oscar.

— Nessa idade isso e' normal — considerou Alzira, e prosseguiu: — Ainda mais em se tratando de um rapaz bonito como e' o Eduardo.

— Nem tanto assim, ne', mãe? — discordou Oscar, enciumado.

— Espero que ele não se aproveite dela — disse Alzira, preocupada.

— E' o que vai acabar acontecendo.

— Tomara Deus que não—relutou Alzira, apreensiva.

— So' não vai acontecer nada se o Eduardo não for macho de verdade. Eu acho impossivel um homem dispensar um brotinho como a Olivia. Ainda mais oferecida de bandeja como ela esta'. E' melhor a senhora ficar atenta e prender a cabrita — concluiu Oscar.

— Voce fez muito bem em ter me alertado — encerrou Alzira.

Nao vendo outra saida, Eduardo decidiu recorrer a uma prática muito utilizada pelos apaixonados naquela 'epoca: quando os familiares de uma moça não aprovavam o seu escolhido, o rejeitado apaixonado ia ate' a casa da donzela na calada da noite montado em um cavalo e carregava a amada para bem longe.

Para evitar que os parentes fossem atrás e resgatassem o fruto do roubo durante a fuga, o corajoso ladrão de moça pura era premiado pela donzela com a sua virgindade, tomando assim a romântica aventura em algo muito mais atraente.

Quando os familiares descobriam o paradeiro da foragida, iam imediatamente ao seu encontro, não para levá-la de volta para casa, mas com o desejo de realizarem o casamento o mais breve possivel. Perante a sociedade moralista, a moça sem virgindade perdia o valor, e seus pais, evitando ter uma filha desonrada dentro de casa, mesmo que o futuro genro não fosse do gosto de todos, acabavam concordando com a união.

Quando Eduardo falou com Laura sobre o seu romântico piano de roubá-la da casa de seus pais na garupa de um cavalo, ela concordou na hora com a idéia do amado. Marcaram o dia da aventura e assim o fizeram.

Amanheceu e Alzira notou que Laura estava demorando para acordar. Preocupada, a mãe foi ate' o quarto verificar o que estava acontecendo e la' encontrou apenas um bilhete deixado pela filha em cima da cama e a janela encostada, dando indicios de que Laura tinha fugido durante a noite.

Na folha de papel estava escrito:

Mamãe, obrigada pelo bom exemplo de mulher que a senhora representa, principalmente pelos seus conselhos e orações nos momentos dificeis, que tanto me fortalecem nesta minha 'ardua caminhada em busca da minha felicidade.

Papai, sei que a minha atitude não vai Ihe agradar nem um pouco. Mas quero que o senhor saiba que tenho muito orgulho de ser sua filha. Entendo que, por trás desse seu jeito bravo, na verdade existe um homem zeloso defendendo a honra de sua amada familia com unhas e dentes!

Como o senhor não aprova o meu relacionamento com Eduardo, decidi seguir os meus sentimentos e pagar o preço da vontade do meu coração.

Espero em breve poder voltar para receber as bençãos dos senhores.

Um abraço da filha rebelde que os ama mais do que tudo nesta vida.

Laura Cristina de Carvalho

Quando Alzira terminou de ler o bilhete, ja' estava com o rosto banhado em lágrimas e, sem demora, foi ate' o quintal, onde estavam Salomão e Oscar. Ela entregou o bilhete para o esposo e disse:

— Leia isso aqui, Salomão.

— Que bilhete e' esse? E que cara de choro e' essa? — perguntou ele, apreensivo.

— Leia e descubra o que a nossa filha fez — disse Alzira, emocionada.

Salomão leu o conteudo do bilhete e ficou furioso. Amassou a folha de papel com força e a jogou no chão, encarando a esposa:

— Voce sabia que a Laura continuava se encontrando com o filho do macumbeiro e que ela estava planejando fugir com aquela praga?

— Eu não sabia de nada, meu bem. Na verdade, eu desconfiava de que ela estava aprontando alguma coisa. Mas eu nunca imaginei que planejavam fugir.

— E voce não fez nada para evitar que acontecesse esta desgraça? Voce se esqueceu de que o papel de uma mãe e orientar os filhos?

Alzira contrapôs:

— Existem coisas que fogem do nosso controle. E manter duas pessoas que se amam afastadas e algo praticamente impossivel. Lembre-se de nossa própria história de amor. Quase ninguém da minha familia aprovava voce como meu companheiro e, mesmo assim, eu me fiz de surda para o que os outros diziam, me entreguei de corpo e alma ao nosso amor e nada nos impediu de ficar juntos.

Revoltado, Salomão desconsiderou a observação da esposa:

— Fale a verdade. Essa fuga foi facilitada por voce, Alzira?

— Eu jamais faria qualquer coisa contra a sua vontade — rebateu ela.

— Como as aparências enganam! — interveio Oscar.

— Por que, filho? — indagou Alzira.

— Eu jurava por Deus que a qualquer momento o Eduardo teria um envolvimento com a Olivia, não mais com a Laura.

— De onde voce tirou essa suposição? — questionou Salomão.

— Olha, pai, várias vezes presenciei a Olivia jogando charme para cima do Eduardo igual a uma quenga oferecida. Inclusive eu ate' comentei isso com a mãe.

Salomão devolveu:

— Não fale uma besteira dessas, rapaz. A Olivia nunca se interessaria pelo filho do macumbeiro. Ao contrário, ela sempre se demonstrou contra ele, desde adolescente, quando a sua mãe teve a infeliz idéia de levar a Laura para frequentar as sessões de macumba na casa do pai dele. Naquela 'epoca, para o meu desgosto, a Laura, certamente induzida pelo velho, começou com essa história idiota de que ela e o filho dele são almas afins que voltaram para viver um reencontro amoroso!

Portanto, não tern o menor fundamento essa sua desconfiança de que a Olivia, assim como a Laura, e apaixonada pelo filho do macumbeiro.

— E ai que voce se engana, Salomão — aventou Alzira, que prosseguiu: — Em casos como este, o ódio da pessoa que vive fazendo intrigas e, na verdade, uma paixão não correspondida que ela nutre por quem vive perseguindo.

— Então, se a Olivia e' apaixonada pelo futuro marido da irmã, agora ela vai ter que tirar esse amor do coração e aceitar essa desilusão — concluiu Salomão.

— E' melhor a gente ir procurar logo os pais do Eduardo para resolver essa situação, antes que o seu futuro genro, depois de ter provado o fruto proibido, desista de se casar com a moça desvirginada — propôs Oscar.

— Ele não e' nem louco de se atrever a abandonar a sua irmã desonrada — bradou Salomão. — Se ele fizer uma palhaçada dessas, eu capo aquele cabra da peste para que ele nunca mais desonre a familia de ninguem.

Após tomarem o cafe', Salomão e Oscar, ainda sem saber o paradeiro do casal de pombinhos, foram ate' a casa de Eduardo com o propósito de acertarem a união dos apaixonados.

Depois de uma rápida conversa, os pais se dirigiram a cidade, onde procuraram o padre e marcaram a data do casamento para dali a alguns dias.

Enquanto aguardavam a data da união dos filhos, os pais dos noivos reuniram os amigos das duas familias, como era comum quando alguém ia se casar, e fizeram uma modesta casa de sape' para o futuro casal.

Enfim, depois de certo tempo, chegou o tão esperado dia do sim para Laura e Eduardo. Olivia se recusou a ir a igreja assistir ao casamento da irmã. Chateada, Laura procurou saber o motivo de Olivia não querer participar da cerimônia de sua união com Eduardo, mas a justificativa que Olivia deu não foi convincente. Com isso, Alzira sentiu que Olivia realmente mantinha uma paixão não correspondida pelo futuro marido da irmã, como Oscar ja' havia comentado.

O dia do casamento foi de muita alegria para os convidados dos noivos, que partiram rumo a cidade montados em cavalos, formando uma escolta que seguia os passos galopantes da paixão que existia nos corações de Eduardo e Laura.

Depois de tantos desafios vencidos, estavam fazendo prevalecer o amor que os unia, abrindo com isso todas as portas.

A noiva usava um vestido simples, mas que trazia em si algo especial, pois fora confeccionado pela própria mãe da moça, que costurava muito bem.

Laura, ao ser escoltada pela cavalaria rumo ao altar, estava se sentindo uma verdadeira rainha. Depois de mais de uma hora galopando, chamando a atenção de todos por onde passavam, chegaram a capela da cidade.

Eduardo, que chegara antes da noiva como manda a regra, estava a sua espera, com as mãos suando de ansiedade diante do altar e dos olhares atentos de seus convidados, aguardando para ouvir o sim da mulher amada.

O padre abençoou aquela união. Laura e Eduardo, muito emocionados após a assinatura dos papéis do casamento, sentindo-se aprovados pela sociedade, sairam da igreja de cabeça erguida. Felizes com a conquista, voltaram para casa festejando o enlace que definitivamente selava o direito de viverem um para o outro livremente.

Aos poucos, Olivia foi se reaproximando de Laura, que, realizada com a vida de casada e acreditando que a irmã ficaria contente com a sua felicidade, ingenuamente aguçava a curiosidade dela Ihe confidenciando alguns segredos de sua convivência com o marido nos momentos de intimidade.

Olivia ficava subindo pelas paredes cada vez que ouvia os picantes relatos da irmã sobre as qualidades de Eduardo quando iam para a cama viver os intensos momentos a dois que o romântico casal mantinha.

Olivia, tomada por um desejo intenso ficava horas relembrando as cenas de amor descritas por Laura e, apaixonada pelo cunhado, via-se nos braços dele, ocupando o lugar de Laura e vivendo loucamente tudo aquilo que ouvia a outra Ihe contar.

Laura, esclarecida e sensivel o suficiente para se precaver das armadilhas que ela mesma estava criando, não se dava conta do erro que estava cometendo e, por muito tempo, seguiu revelando as suas intimidades e novidades que o marido inventava para satisfazê-la como mulher.

Os anos se passaram. Laura e Eduardo tiveram dois filhos, Augusto e Agucena, que se tornaram a felicidade da familia.

A convivência com o sogro médium fez com que Laura se aprofundasse no assunto que sempre fora motivo de tormento em sua vida.

— So' não entendi o porque de ter sofrido tanto desde pequena. A mediunidade me atrapalhou bastante. Eu quase fui internada num hospicio.

— A mediunidade e' o dom mais precioso que o ser humano pode ter — rebateu Juca. — Ela e' uma aliada, porque e a intuição pura. Conforme voce a educa, mais fácil fica perceber as energias ao redor, se as energias do ambiente são boas ou não, e ate' as intenções dos outros.

— Sim, seu Juca. Esse e' o lado bom. Mas sofri muito.

— Sofreu porque precisava aprender a ser forte. Ela espantou-se com o comentário. Estava acostumada a ser adulada, tratada como vitima. Juca não deixava por menos:

— Voce nasceu com uma missão: ajudar as pessoas por intermédio da sua mediunidade, ou seja, ajudar os vivos fazendo uma grande parceria com os mortos. Mas para ser um bom médium, realizar um bom trabalho, e necessário vencer a vaidade, ser modesto.

— Eu era pequena. Como uma criança pode se defender? — perguntou, irritada.

— Ninguem e' vitima no mundo. Cada um atrai para si as situações que precisa para burilar o espirito, não importa se recém-nascido ou com noventa anos de idade. Voce era obsediada porque precisou aprender a tomar posse de si. Quem toma posse de si não sofre influência dos outros, seja encarnado ou desencarnado.

Assim, Juca ia orientando, explicando, ensinando Laura. Desejando oferecer uma oportunidade para a nora colocar em prática a sua mediunidade, convidou-a a participar dos trabalhos espirituais que desenvolvia no centro que dirigia fazendo consultas, dando passes e orientações.

Laura aceitou o convite do sogro e, para trabalhar como voluntária nas sessões de assistência espiritual, aprofundou-se nos estudos. Ela aprendeu a tratar de casos de desequilibrio energético de muitas pessoas e passou a psicografar.

Desencarnados se aproximavam e ditavam-lhe mensagens de conforto e esperança aos familiares tocados pela dor da perda de um ente querido.

Diante da melhora de inúmeras pessoas que recebiam o seu auxilio espiritual, Laura acabou tomando confiança no trabalho que desenvolvia, e Juca, contente por tê-la como sua sucessora, aos poucos ia Ihe repassando todos os conhecimentos que adquirira durante décadas de atuação como médium.

Laura sentia-se lisonjeada com tamanha responsabilidade que o sogro depositava nela e, a cada nova descoberta, ficava mais encantada com a sabedoria daquele homem simples, mas que, ao mesmo tempo, se mostrava um profundo conhecedor das causas que provocam os sofrimentos da alma humana.

Juca não media esforços para ensinar a nora os tipos de ervas naturais que possuem potenciais de cura capazes de dizimar doenças fisicas crônicas. E, para os casos de interferência espiritual, o médium recomendava que Laura fizesse os infaliveis rituais de libertação — mistura de orações e passes — que ele ministrava com muito êxito.

EVALDO RIBEIRO