CAPÍTULO 17

CAPÍTULO 17

Laura, reconhecendo que o marido não abriria o jogo, resolveu dar tempo ao tempo. Mas o que ela começou a achar estranho foi que, além de o marido ter se tornado indiferente, Olivia também passou a apresentar um comportamento suspeito. Sua irmã vivia dentro de sua casa ouvindo as suas secretas confidencias e, de uma hora para outra, simplesmente adotou uma postura de reclusão, ficando a maior parte do tempo trancada na casa dos pais, coisa que antes ela odiava.

Os dias foram se passando e, cada vez que Eduardo se deparava com Laura, o peso na sua consciência o oprimia e rebaixava a sua autoconfiança, fazendo-o se sentir o pior dos cafajestes.

Algumas semanas após a traição, Eduardo saiu pela manhã para comprar alguns mantimentos e, enquanto voltava para casa, Olivia surgiu do nada em um trecho da estrada. Desesperada, atirou-se nos braços dele, dizendo:

— Preciso ter uma conversa urgente com voce. Assustado com a surpresa, ele se benzeu. Desprendeu-se dela e, prosseguindo a viagem, falou:

— Eu quero e distância de voce, Olivia. Voce acabou com a minha paz de espirito. Estou ha' dias sem conseguir dormir direito. Se arrependimento matasse, eu ja tinha morrido de remorso por causa da besteira que nós fizemos.

— Espere um pouco — pediu ela, parando em sua frente.

— Sai do meu caminho, praga — determinou ele, esquivando-se.

— So' vou deixar voce ir embora depois de me ouvir — tornou ela, seguindo-o.

Com medo de ser flagrado em lugar inadequado na companhia da sedutora cunhada, Eduardo, alterado com a insistência da jovem, mais uma vez gritou:

— Sai da minha cola, tentação do demônio! Olivia não se deixou intimidar:

— Eduardo, por obra do destino, naquela noite de loucura que nós tivemos aconteceu algo que nos uniu para sempre — tornou ela, com a voz embargada.

— O que houve entre nós naquela maldita noite não foi obra do destino. Aquilo foi fruto da sua falta de caráter, que premeditou e armou contra a felicidade da própria irmã— rebateu ele, indignado.

Ignorando o comentário ofensivo do cunhado, Olivia disse:

— Eu sei que voce esta com raiva de mim. Mas é sério. A gente precisa conversar com urgência. Tenho uma revelação bombástica para Ihe fazer.

Mais uma vez ele se benzeu e falou:

— Deus me livre e guarde da sua maldade, Olivia. Coloque uma coisa na cabeça, menina... O que houve entre nós não se repetira nunca mais.

Nesse instante, Olivia tentou pegar nas maos do cunhado, dando a entender que Ihe faria a revelação, porém Eduardo deu as costas a moça e seguiu viagem.

Percebendo que ele ia embora, Olivia, com voz chorosa, suplicou:

— Eduardo, pelo amor de Deus, ouça o que eu tenho para Ihe falar... no que resultou aquela inesquecivel noite de loucura que nós tivemos.

Ao ouvir a cunhada fazendo aquele dramático suspense sobre o caso que tiveram, Eduardo sentiu um frio na barriga, parou um instante, voltou-se para Olivia e, ja' tremendo de medo do que viria pela frente, tornou:

— Conta logo o que aconteceu. Por que voce esta' apavorada assim?

— Voce nao vai acreditar no que tenho para Ihe falar — alertou ela, oprimida.

— Alguém a viu saindo la de casa naquela noite? — questionou ele, ansioso.

— Aconteceu algo muito pior que isso. Eduardo, com o olhar aflito, apenas coçou a cabeça.

Agugando a curiosidade do cunhado, Olivia avisou:

— Voce vai desmaiar quando receber a noticia que eu tenho para Ihe dar.

Sabendo como a cunhada era dominadora, ele adiantou:

— Se voce estiver armando mais um truque para me seduzir, pode ter certeza de que eu vou deixá-la aqui falando sozinha. E digo mais... — tornou ele com o dedo indicador apontado rispidamente para a cara da cunhada: — Fique sabendo que nem por todo dinheiro do mundo eu vou trocar uma mulher maravilhosa como a Laura por uma irresponsável como voce.

Olivia sentiu muito ódio quando ouviu Eduardo exaltando a esposa e desclassificando-a, mas, para não demonstrar a sua insatisfação, ficou calada.

— Vamos direto ao assunto — pediu ele, desejando encurtar a conversa. — Eu não quero que ninguem me veja aqui de papo contigo. Diga logo... o que voce quer de mim?

Ela tentou conter a vontade de chorar, baixou a cabeça, passou a mao na barriga acariciando-a e, em seguida, levantou o rosto desesperadamente.

Apavorado, Eduardo olhou nos olhos da cunhada e disse, trêmulo:

— Não pode ser verdade o que eu estou pensando, Olivia.

— E' verdade, sim, Eduardo, o que voce esta' pensando. Infelizmente, nós fizemos uma burrada irreparável e eu engravidei de voce naquela noite — confirmou ela, novamente acariciando a barriga.

Ainda duvidando da palavra da cunhada, ele rebateu:

— Olivia, isso so' pode ser um pesadelo.

— Voce disse muito bem, Eduardo. Realmente nós vamos viver um terrivel pesadelo a partir de agora.

— Eu não acredito que essa história seja verdadeira.

— Pois, então, espere. Daqui a nove meses voce vai tirar essa dúvida, quando o nosso filho nascer — declarou ela, com o olhar perdido.

— Voce tem certeza de que esta' grávida?

— E' claro que tenho. Nos últimos dias sinto enjôos, desejos, meus seios incharam, fiquei muito sensivel, choro sem motivo e o meu corpo esta se modificando diariamente. Esses sintomas so' podem ser sinais de gravidez — concluiu ela.

Chocado, como quem tinha recebido a noticia de uma tragédia, Eduardo pôs as mãos na cabeça. Desesperado, andou de um lado para o outro sem querer aceitar aquela informação como verdadeira.

Ele voltou-se para Olivia e questionou:

— E agora, o que vamos fazer?

Sem argumento, Olivia desabou a chorar e, buscando apoio no cunhado, tentou abraçá-lo, mas ele, como se não quisesse se sujar, não permitiu o contato. Afastou-se dela e, colocando-se como inocente na situação, disse:

— Bem que eu Ihe avisei que esse negócio não ia terminar bem. Mas voce e' muito teimosa e não pensa nas consequências de seus atos. Voce e' tão imatura que so' aprende com o sofrimento. Vive procurando sarna pra se coçar! Então agora aguente o franco, diabo! — explodiu ele. — Pessoas irresponsáveis como voce pagam um preço muito alto pelas escolhas erradas que fazem, achando que são mais espertas do que as outras. E como diz o ditado: "A mentira tem pernas curtas".

Essa e' a lei de causa e efeito trazendo o resultado de sua atitude errada. Ninguem se esconde do passado nem fica impune de suas trapaças. Mais cedo ou mais tarde, voce vai colher os frutos do que plantou. Voce agiu desonestamente e ainda me levou para o caminho do erro.

— Não... — ela tentou se defender.

Ele fez um sinal com as mãos e prosseguiu:

— Infelizmente eu fui um fraco, me deixei levar pelo seu jogo de sedução e agora vou colher o sofrimento como consequência do seu ato irresponsável. E como diz o meu pai: "A vida sempre nos mostra que viver na ilegalidade não compensa".

Essa gravidez aconteceu para que voce tivesse uma dura lição.

Enquanto escutava Eduardo usando aquelas palavras filosóficas e agressivas para julgá-la como única responsável pela gravidez, Olivia pensou: "Olha so' quem esta me desclassificando! Coitado, ele não aprendeu nada". Depois, em uma reflexão honesta consigo mesma, Olivia teve a noção da gravidade da situação na qual se metera levando junto o cunhado. Mentalmente a jovem se questionava: "Como levarei essa desagradável noticia ao conhecimento dos meus familiares, se em casos como este a honra da familia e' lavada com o sangue de quem ousa desrespeitar as regras?".

Ciente de que tinha escolhido um caminho sem volta, Olivia concluiu que os seus familiares, machistas como eram, não aceitariam o fato ao serem informados de que ela estava grávida do cunhado, e com certeza isso terminaria na morte dele.

So' de imaginar que ela seria a culpada pela morte do cunhado e pai de seu filho, Olivia se sentiu apedrejada pela opinião pública, que fatalmente também Ihe condenaria a morte por ser uma destruidora de lares.

Eduardo, esperançoso de que seria perdoado, disse:

— Eu repito... Nem perca seu tempo com a ilusão de que vou deixar a minha amada esposa para assumir um relacionamento com voce. Aconteça o que acontecer, eu vou lutar para salvar o meu casamento.

Ironizando a falta de bom senso do cunhado, Olivia rebateu:

— Querido, voce não entendeu a gravidade da nossa situação. Não ha' o que salvar depois do que voce aprontou comigo.

— E isso que nós vamos ver — apostou ele, confiante.

— Deixe de ser burro, rapaz! Aliás, homem com cabeça de vento como voce e' o que mais existe neste mundo... Não pode ver um rabo de saia que ja' se esquece do compromisso com a esposa e acaba perdendo aquilo que tern dentro de casa, ou seja, a familia, para sempre — disse ela, dando ênfase as últimas palavras.

— Vire essa boca venenosa pra la', sua cobra traiçoeira dos infernos! Eu não perdi a minha mulher e nem vou perdê-la por nada — rebateu ele, se benzendo.

— Como voce e' ingênuo, Eduardo! Sera' que voce ainda não percebeu que não restou nem os caquinhos daquela sua moral de homem exemplar?

Ele refletiu e não encontrou argumento para contestar os fatos! Mas não entendia o real motivo de Olivia querer o seu mal.

Olivia colocou as duas mãos sobre a barriga como se estivesse protegendo a criança que carregava em seu ventre e, usando de apelos paternais, lastimou-se:

— Voce quer me dizer que esse ser inocente que carrego dentro de mim tera' a infeliz sorte de ser abandonado pelo próprio pai antes de nascer? O que essa criança vai pensar quando descobrir que seu pai e' um covarde?

Ofendido com a acusação da cunhada, Eduardo retrucou:

— Eu não estou abandonando ninguem e tambem não sou covarde. Voce esta' colocando palavras em minha boca. Estou dizendo que não vou largar a minha familia para ficar com voce.

— Seja homem e assuma o seu erro! — redarguiu ela com força.

— Eu sei que tenho a minha parcela de culpa e nunca vou negar isso. Contudo, voce não precisa repetir mil vezes a bobagem que nós fizemos.

— E o que voce pensa em fazer agora? — questionou Olivia.

— Nós so' temos duas opções para resolver essa questão: ou voce some daqui para sempre, ou vamos revelar para a sua familia o que aconteceu entre nós, contando com o perdão deles — propôs Eduardo, fantasiando que conseguiriam a compreensão da familia.

Olivia gargalhou, ironizando o jeito otimista do cunhado.

— Voce não tern mesmo a minima noção do perigo que a sua vida esta' correndo. Vou ser bem realista com voce, Eduardo... Prepare-se para enfrentar o pior.

— Coisa pior não podera mais me acontecer — lastimou-se ele.

Ela aproximou-se do cunhado, zombando da cara de assustado dele.

— Voce não tem noção da enrascada em que se meteu, meu querido. Eu conheço o temperamento do meu pai e dos meus irmãos, e, se voce tiver a ousadia de confessar para eles que me engravidou, primeiro eles vão fazer picadinho de voce com um facão e depois vão me expulsar de casa.

— Sera' que eles teriam coragem de colocar uma mulher grávida para fora de casa e matar o pai de um inocente? — questionou ele, sentindo piedade por si mesmo.

— Essa e' a coisa mais comum em nossa cultura conservadora aqui do sertão. Não me diga que voce não sabe disso? Em que mundo voce vive, rapaz? Eu vou tentar clarear um pouco a sua mente inocente: os homens de nossa terra são ensinados desde pequenos a lavarem a honra de sua familia com o sangue do invasor safado como voce.

— Deixe de bancar a santinha do pau oco e de me julgar como um imprestável. Voce sabe muito bem que as coisas so' chegaram a esse ponto por causa da sua falta de vergonha na cara, que insistiu nessa loucura ate conseguir destruir as nossas vidas — defendeu-se Eduardo. — Voce agiu de caso pensado. E' um espirito maldoso. Voce tem espirito de porco, joga lama na felicidade dos outros.

Ela fingiu não escutar a ofensa e disse:

— Mesmo se acohtecesse um milagre e os meus familiares fossem tocados em seus corações machistas e aceitassem a canalhice que voce aprontou comigo, coisa que eu acho impossivel acontecer, voce ainda teria outro desafio: salvar o seu casamentinho do naufrágio.

— E qual e' o outro grande problema?

— Conquistar o perdão da Laura — respondeu Olivia, que emendou: — Ela nunca vai perdoá-lo pela cachorrada que voce fez.

— Mas foi voce quem premeditou e causou tudo isso!— retrucou ele.

— Ate' quando voce vai mentir para si mesmo, Eduardo? — indagou ela, tentando convencê-lo da própria culpa. — Lembre-se de que ninguem faz filho sozinho. So' falta voce dizer agora que essa criança veio parar no meu ventre por meio do meu pensamento de mulher iludida que viveu uma fantasia a distância e engravidou psicologicamente do cunhadinho fiel — zombou Olivia.

— Eu não estou negando a minha participação nesta loucura. O que eu quero e' que, na hora que a bomba estourar, voce diga a verdade. So' isso.

— Ah, que bonitinha essa sua conversa de pessoa moderna da cidade! Faça-me um favor, pare com esse papo mole de pessoa espiritualizada, porque aqui no sertão quem comete um erro grave como o que voce aprontou, engravidando a cunhada, acaba e pagando com a própria vida.

Desesperado e sentindo piedade de si mesmo, ele indagou:

— Ate' quando as pessoas irão corrigir erros cometendo outros erros?

— Entenda uma coisa, meu querido: aquela sua moral de homem fiel vai ficar manchada para sempre. Isso e' fato!

— E assim que voce se realiza? Destruindo a vida dos outros?

— Eu não destrui nada.

— Destruiu sim — repetiu ele, nervoso.

Ela novamente passou a mão na barriga e, com cara de quem estava esnobando um adversario desatento, troçando da cara de aflição dele, afirmou:

— Eu o avisei do que eu seria capaz para ficar ao seu lado.

— Quem Ihe garante que voce vai ficar comigo?

— Eu me garanto — respondeu ela, confiante.

— Me esquece de vez, por favor. Eu nunca mais Ihe darei o prazer de ficar comigo.

— E isso que veremos a seguir nesta história
— apostou Olivia, que continuou:

— Voce so' esta me rejeitando porque ficou nervoso com a noticia da gravidez, que o pegou de surpresa e o deixou apavorado pelo medo de machucar Laura.

— Eu não estou apavorado com nada — discordou Eduardo, com raiva.

— Esta' sim. Seja honesto com os seus sentimentos e admita logo que voce so' não me assume porque morre de medo de enfrentar a minha familia e o julgamento das pessoas, que, alias, são infelizes por viverem de aparência, mantendo relacionamentos falidos e condenando quem tern a coragem de se bancar e viver livremente o que sente! — ficou uma pausa no ar e depois ela concluiu:

— Por mais que voce diga que a Laura e' a mulher de sua vida, eu vejo estampado na sua cara quando me olha que voce me deseja loucamente.

— Voce esta' completamente equivocada, Olivia. Acorde para a realidade e pare de viver de fantasia. Desista dessa idéia doentia— rebateu ele, afastando-se.

— Voce nunca me valorizou — reclamou a cunhada, seguindo-o.

— Não correspondi porque amo sua irmã— retorquiu Eduardo, choramingando.

Sentindo-se vingada pelo desprezo que sofrera desde a adolescência, Olivia, vendo o desespero do cunhado, ironizou o seu pavor:

— Nossa! Estou surpresa com voce, Eduardo! Quando voce estava se aproveitando da cunhadinha virgem, parecia ser um macho tão destemido, e agora se revela esse menino frágil e indefeso?

Recompondo a postura de cabra-macho, ele rapidamente limpou as lágrimas do rosto, mas não retrucou a provocação.

Olivia prosseguiu:

— Se voce não morrer, quem sabe, com o tempo, cresça e vire homem, repense e decida me assumir como sua esposa.

— Chega! Cansei de ouvir as suas ironias! Voce e' uma mente muito perigosa, que se alegra com a desgraça dos outros — bradou, ameaçando esmurrá-la. — Como voce e' contraditória! Acabou de dizer que sua familia me matara' e, mesmo assim, quer que eu abandone a sua irmã e a assuma? Voce e' realmente louca.

— Antes de me agredir, lembre-se de que estara' ferindo o seu filho também. Aliás, homem com aga maiusculo sabe que não se deve bater em uma mulher nem com uma flor, muito menos se ela estiver grávida. Isso sera terrivel para a saúde da mãe e de seu filho.

Nesse instante, ele baixou a mão, se corroendo de raiva.

Olivia, ainda na provocação, continuou:

— A minha mãe diz que, durante a gestação, a mulher deve ser poupada ao máximo de passar por desgastes emocionais ou situações de estresse, porque nesse periodo o bebê absorve todas as sensações que a mãe sente. O feto grava na memória todos os acontecimentos e emoções por que passa enquanto esta na barriga da mãe, como as agressões, que afetam o seu desenvolvimento.

Diante da ironia da cunhada, Eduardo teve dificuldade para manter a calma, mas conseguiu controlar a raiva que sentia ao ouvir as suas provocações.

EVALDO RIBEIRO