CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 18

Depois de caminharem um bom tempo em silencio, Olivia atravessou a frente de Eduardo e Ihe propôs:

— Vamos pagar o preço do que sentimos um pelo outro. Podemos fugir daqui pra bem longe, e que se dane a opinião das pessoas hipócritas e fingidas que não tem coragem viver aquilo que Ihes pede o coração.

Irritado com aquela proposta indecente, Eduardo disse:

— Nem venha com esse joguinho de sedução barato, porque eu ja' estou vacinado contra os seus truques e não caio mais na sua conversa doce. Essa gravidez e' coisa sua. Agora se vira que o problema e' seu. Jamais vou abandonar a minha familia, fugindo da responsabilidade que assumi com a minha amada esposa diante de Deus, para assumir um relacionamento com uma pessoa devassa como voce.

Olivia mais uma vez fingiu que não foi ofendida e sutilmente rebateu:

— Essa gravidez e' nossa.

— Mas foi voce quem buscou isso — contrapôs ele, frustrado. — Eu não busquei nada. A gente teve uma relação e infelizmente aconteceu.

Os dois voltaram a ficar em silencio. Depois de um tempo, Eduardo propôs:

— Eu tenho um conselho para Ihe dar.

— Então fala — consentiu Olivia.

— Ja' que voce e' boa em inventar histórias para se livrar das encrencas, use a sua imaginação e criatividade e faça o seguinte...

— O quê?

— Revele para a sua familia que voce esta' grávida, mas não diga quem e' o pai da criança, porque voce teve relacionamento com vários homens.

— Que idéia genial essa sua, Eduardo! Como e' que eu não pensei nisso antes? — zombou Olivia.

Ele ficou confuso se ela estava falando sério ou gozando de sua proposta.

— Olha que idéia mais bacana essa que voce esta' me sugerindo colocar em prática — continuou ela, ironizando-o. — Então quer dizer que eu assumo sozinha a responsabilidade pela burrada que nós fizemos juntos, dizendo para a minha familia que, ao contrário do que eles pensavam, eu não sou uma menina pura, na verdade fui uma quenga usada por tantos machos que nem sei qual deles e o pai do filho que estou esperando? Não me diga que voce pensou que eu seria tão idiota de aceitar uma sugestão ordinária dessa so' para livrar a sua imagem de pai de familia exemplar?

— Essa seria a melhor maneira para evitar uma tragédia — tornou ele.

Irritada com a idéia do cunhado, Olivia disse:

— Não tenho mais nada para conversar com voce. Pela sua infeliz sugestão, ja deu para perceber que tipo de homem voce e'. Voce e' fraco e um covarde da pior espécie, que não tem a coragem de assumir o que sente e muito menos tem cacife para arcar com os erros que comete. Mas, olha, cunhadinho, quer saber de uma coisa? Ja' que voce esta' mesmo decidido a ficar com a Laura e me rejeitar, então eu vou tomar uma decisao que vai acabar com seu plano. Aguarde que voce tera' uma surpresa — vociferou ela, ja' indo embora.

— Olivia, espere um pouco — pediu ele, seguindo-a. Ela não atendeu e continuou caminhando a passos rápidos.

— Volte aqui, Olivia. Vamos conversar. O que voce vai fazer? — perguntou Eduardo, preocupado.

— Eu não vou fazer nada — respondeu ela, apressando os passos. — Quem vai resolver essa situação da forma que voce merece e o meu pai quando souber que a filha preferida dele esta grávida do cunhado safado.

Eduardo sentiu um frio na barriga ao ver Olivia seguir na direção da casa dos pais, dando a entender que iria revelar-lhes a gravidez.

Decidido a impedi-la de colocar a vida dele em risco, estrategicamente jogando com a situação, Eduardo resolveu fingir que Olivia tinha chances de assumir o lugar da irmã em seu coração e, tentando impedi-la de revelar o segredo, falou:

— Eu realmente sinto algo muito especial por voce. Quando ouviu a suposta declaração de amor do cunhado, Olivia sentiu o coração pulsar forte e, confiando na palavra dele, parou por um instante de costas e ficou esperando que ele corresse atrás dela para impedi-la de partir.

E foi isso que Eduardo fez. Plantou-se na frente dela com as duas mãos juntas e suplicou:

— Pelo amor de Deus, Olivia, vamos achar uma saida para essa situação.

Satisfeita por vê-lo curvado aos seus pés implorando por um minutinho de sua atenção, ela agiu com o mesmo desprezo com que ele a tratara antes:

— E' voce quem vai escolher qual sera' o nosso destino. So' existem duas alternativas: ou a gente foge daqui enquanto ha' tempo, ou ficamos aqui, abrimos o jogo e colocamos as nossas vidas e a do nosso bebê em risco, porque quando o meu pai e o Oscar descobrirem que voce abusou de mim, com certeza vão acabar na hora com a sua raça.

Eduardo ficou de cabeça baixa, chorando e se perguntando:

— Onde eu estava com a cabeça quando me deixei levar pela tentação? Por que não sai correndo daquele quarto, meu Deus? Por que não fiquei ao lado da minha esposa naquela noite, la' na cidade?

Botando mais pressão, Olivia disse:

— Agora e' tarde demais para voce ficar se lame-tando. Temos que decidir logo o que vamos fazer.

— Eu preciso de um tempo para pensar direito — disse ele, aflito.

— Então pense rápido, porque o ponteiro do reIógio esta' apressado, trabalhando contra nós. A minha barriga ja' esta' começando a crescer e, para disfarçar, inclusive estou tendo que usar as roupas largas da minha mãe. Sem contar que fico a maior parte do tempo trancada no quarto para não chamar a atenção dos olhos curiosos. So' que a minha mãe ja' esta' ficando desconfiada do meu comportamento. Ela e' muito esperta, capta as coisas no ar. Como observou que ultimamente fico muito tempo isolada no quarto e que passei a usar suas roupas, ela ja me perguntou o que esta' acontecendo comigo.

Eduardo enxugou as lágrimas que banhavam o seu rosto e disse:

— Estou muito abalado com essa história. Não consigo raciocinar com clareza e, por isso, pego a voce mais um tempo para estudar melhor como vamos proceder diante dessa situação.

Ela fingiu-se ansiosa para se libertar daquele segredo e perguntou:

— Quanto tempo voce precisa para decidir que dia vamos fugir?

Ele suspirou fundo e respondeu:

— Vou conversar com meu pai. Me dê dois dias. Depois de amanhã a gente volta a se encontrar nesse mesmo lugar e horário para resolver de vez este assunto. Pode ser?

— Aqui, nesse mesmo lugar, eu não quero.

— O que voce sugere, então? — indagou Eduardo, inquieto.

— Na hora do almogo os meus pais costumam tirar um cochilo. Então eu vou dar a desculpa de que irei lavar roupa e a gente aproveita para se encontrar la' na margem do riacho, no mesmo lugar onde voce e a Laura se encontravam quando namoravam escondidos.

— Eu não sei do que voce falando — negou ele, indignado.

— Voce sabe, sim. Não se faça de homem comportado porque eu sei de todos os seus podres. A Laura me contou tudo sobre os encontros picantes que voces tiveram.

Eduardo ficou revoltado com a ingenuidade da esposa e tornou:

— Eu não acredito que a Laura cometeu a burrice de revelar as nossas intimidades justamente para sua pior inimiga?

Olivia riu de maneira irônica e rebateu:

— Não diga isso de sua amada esposa. A minha irmãzinha não e' tão burra assim. Afinal, foi ela quem me ensinou que, para uma mulher dominar um homem, basta provocar suas fantasias e logo o tonto estara' comendo em sua mão.

Enquanto Olivia zombava de sua cara, Eduardo sentia-se um idiota. Olivia prosseguiu, debochando do cunhado:

— Ja' pensou como ficara a sua moral de homem exemplar, e principalmente a da Laura, a famosa médium de cura que este povinho sem cultura tanto idolatra e adora como se fosse Deus? Quais serão os comentários das pessoas quando a bomba estourar? E mais: que idiota ainda vai pedir aconselhamento sobre relacionamento para uma mulher traida, que se diz capaz de prever o futuro dos outros, mas que, na prática, não enxerga nem o que acontece debaixo de seu próprio nariz?

Eduardo perdeu o controle e gritou:

— Chega de me torturar, garota. Chega, chega! Voce esta passando dos limites. Voce quer levar uma surra nesse estado?

Assustada com o olhar furioso do cunhado fitando-a, Olivia decidiu não provocá-lo mais. Retirou-se e foi embora.

Eduardo, preocupado e transtornado, sentou-se em um tronco de madeira por alguns instantes, tentando encontrar uma saida para se livrar de uma tragédia.

Enquanto o arrependido traidor chorava, amargando o preço pela noite de paixao incontrolável, teve a estranha sensação de que alguém havia se aproximado por tras dele e, em seguida, sentiu um forte arrepio que subiu pelo seu corpo inteiro.

Com medo de ter sido flagrado discutindo com a cunhada, Eduardo levantou o rosto, girou para trás e, mesmo com a sensação de estar sendo observado, não viu ninguem ao seu redor.

Na verdade, tratava-se de uma presenga espiritual que, tentando persuadi-lo, ficou ao seu lado, próximo a seu ouvido, dizendo com muita força e determinação:

— Fale para ela tomar um remédio abortivo caseiro para dispensar esse intruso que se instalou em seu ventre, antes que a barriga dela comece a crescer.

De repente, Eduardo foi acometido por um sentimento de ódio contra aquele filho que não escolhera ter com a cunhada, e essa repulsa projetou em sua mente a idéia de aconselhar Olivia a tomar algum remédio abortivo caseiro, muito comum entre as moças da 'epoca quando descobriam estar grávidas antes do casamento.

Eduardo deixou o local e foi para casa se sentindo péssimo após concluir que, abortando a criança, estava era furtando de um ser indefeso o direito a vida.

Naquela noite, mesmo exaurido, Eduardo ficou ate' altas horas sem conseguir adormecer. As palavras agressivas de Olivia foram proferidas com tanta ênfase que se repetiam em sua mente, acusando-o de maneira torturante.

Laura, incomodada com a insônia do marido, que ficava se revirando de um lado para o outro da cama, levantou-se, acendeu a lamparina e perguntou:

— O que esta' acontecendo com voce, homem de Deus? Ha' dias voce apresenta um comportamento estranho. Se abra comigo, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Irritado, ele se virou para o lado e disse:

— Va' dormir, mulher, e não me amole com perguntas repetidas.

Laura ja' estava no limite de sua paciência com aquela indiferença com a qual o marido vinha Ihe tratando.

Evitando piorar a falta de diálogo com o companheiro e ciente de que estava cumprindo a sua parte como esposa, esperou o momento certo para ter uma conversa clara com Eduardo, que permanecia inquieto.

A madrugada ia alta quando Eduardo, enfim, conseguiu pegar no sono. Em vez de relaxar, ele teve um terrivel pesadelo, em que se viu correndo dentro de um matagal espinhoso, fugindo de um homem que Ihe perseguia com um facão na mão tentando golpeá-lo pelas costas. Ao se distanciar do inimigo, se deparava, la' na frente, com outro opositor que, da mesma maneira, surgia em sua frente tentando atacá-lo com um facão. Em outro momento, deparava-se com uma menina que Ihe suplicava desesperadamente, de joelhos:

— Papai, pelo amor de Deus, não me mate. Laura acordou ouvindo os gritos do marido pedindo por socorro e o acordou. Com o coração quase saindo pela boca e com respiração ofegante, Eduardo sentou--se na cama e disse:

— Graças a Deus, voce me acordou. Assustada, Laura disse:

— Nossa mãe do céu! Voce sacolejou tanto e gemeu com tanto desespero que eu ate pensei que voce estivesse tendo um ataque do coração. Ufa, que alivio!

— Tive um pesadelo horrivel — disse ele, levantando-se da cama e indo ate a cozinha tomar um pouco de 'agua.

De volta ao quarto, Eduardo novamente deitou-se ao lado da esposa. Para evitar que ela percebesse a sua inquietação, virou-se de costas para a companheira e fingiu que estava dormindo.

Laura estava tão cansada de mais um 'arduo dia de trabalho que nem notou que o marido estava acordado, velando a própria sorte, ao seu lado na cama.

Pensativo, Eduardo se questionava: "Sera' que vou ser pai de uma menina e o espirito dela veio me pedir que eu não aconselhe a mãe dela a fazer o aborto? Ou sera' que esse pesadelo foi um reflexo dos pensamentos negativos que tive antes de dormir e recebi um sinal do que vai me acontecer quando o seu Salomão e Oscar descobrirem que eu engravidei a Olivia?

Sem resposta para suas indagações, Eduardo passou o restante da noite em claro.

No dia seguinte, Alzira e Olivia estavam na cozinha preparando o jantar quando a jovem, de repente, saiu correndo em direção ao quintal de casa.

A mãe, preocupada, seguiu a filha para verificar o que se passava com ela. Chegando atrás da casa, Alzira encontrou Olivia tendo ânsia de vômito. Considerando que a moça ultimamente vinha apresentando um comportando anormal, Alzira, uma mulher experiente, logo suspeitou de que a indisposição da filha so poderia ser sinal de gravidez.

Quando Olivia melhorou do mal-estar, as duas voltaram para dentro de casa e Alzira, desconfiada, questionou a filha:

— Pelo amor de Deus, filha, o que e' que esta acontecendo com voce? Por que voce passou a vestir as minhas roupas e quase não sai do quarto? Explique-me qual e' o verdadeiro motivo desse desarranjo?

Diante dos questionamentos da mãe, Olivia ficou muda e se lembrou das palavras de Eduardo: "E como diz o ditado: A mentira tem pernas curtas'. Essa e' a lei de causa e efeito trazendo o resultado da sua atitude errada. Ninguem se esconde do passado nem fica impune de suas trapaças. Mais cedo ou mais tarde, voce vai colher os frutos do que plantou... Porque e' como diz o meu pai: A vida sempre nos mostra que viver na ilegalidade não compensa'. Essa gravidez aconteceu para que voce tivesse uma dura lição".

Alzira, irritada com a demora da filha em responder sua pergunta, tornou:

— Vamos, Olivia, me explique o que esta se passando com voce.

Acuada, ela desabou a chorar, confirmando o que a mãe havia pressentido.

— Perdoe-me, minha mãe. Eu fiz uma grande besteira e engravidei.

Alzira sentiu o coração acelerar so' de imaginar que a filha estivesse grávida antes de ter se casado. "Que vergonha", pensou ela, aflita Naquele tempo, uma mãe solteira era considerada uma mulher desqualificada, que passava o resto de seus dias com a imagem manchada, apontada como moça imprópria para que um homem pudesse reconhecê-la como legitima esposa diante do altar.

Depois dessa reflexão, com muito desgosto, Alzira sondou:

— Quem foi o desgragado que fez isso com voce? Pressionada pelo interrogatório da mãe, a jovem parecia que ia derreter-se em lágrimas. Sem outra saida, falando baixo, aos soluços, revelou:

— Foi o Eduardo que me embuchou, mãe.

— Como e' que e', Olivia? Eu ouvi bem o que voce falou? Voce esta' me dizendo que engravidou do seu cunhado?

— Sim, mãe. Mas a culpa foi toda minha. Nesse momento, Alzira sentiu-se a pior mãe do mundo e, condenando-se pela desonra da filha, questionou chorando:

— Ó, meu Deus, onde foi que eu errei, meu pai amado? Isso não pode ter acontecido comigo, Senhor.

Olivia interveio:

— Infelizmente, mãe, eu farei a senhora passar por esse desgosto.

— Desde quando voces tem um caso?

— Nós não temos um caso, mãe. Tivemos apenas uma relação, e eu acabei engravidando.

— E quando foi que isso aconteceu? — gritou Alzira, segurando-se para não bater na filha grávida.

— Foi naquele dia que a Laura me deixou cuidando da casa dela e foi para a outra cidade atender a moça que sofria ataques de espiritos obsessores. Eu fugi daqui de casa a noite, aproveitei que o Eduardo tinha saido para bater papo com os vizinhos, entrei na casa dele pela porta dos fundos e, quando ele voltou para casa e foi se deitar... eu ja' o esperava — finalizou, rubra de vergonha.

— Voce enlouqueceu de vez, Olivia? Houve uma pausa. Alzira continuou:

— Imagina a cena comigo, filha. Que homem encontraria uma linda moça como voce em sua cama e fugiria da tentação? Com um banquete desses, Olivia, e praticamente impossivel encontrar um homem honesto a ponto de pensar antes de agir e rejeitar a tentadora oferta.

Olivia permaneceu calada. E a mãe continuou:

— Com tanto homem solteiro neste lugar procurando uma mulher para formar uma familia, voce foi engravidar justamente do seu cunhado?

Alzira mal completou a última frase e escutou a voz agressiva do marido, que chegava do trabalho no exato instante em que a filha revelava estar grávida do cunhado. Muito nervoso, ele interferiu na conversa:

— Que história e essa de Olivia estar grávida do cunhado?

Alzira gelou de medo da tragédia que poderia acontecer em sua familia quando viu o olhar irado de Salomão, ja' com a espingarda na mão. Ao escutar a voz do pai, Olivia saiu correndo para se esconder no quarto.

Conhecendo o temperamento explosivo do marido, Alzira imediatamente moderou o tom de voz para amenizar a situação e, tentando controlar o nervosismo, disse num tom sofrido:

— E' isso mesmo, Salomão! Infelizmente, a nossa filha fez uma bobagem, assediou o marido da irmã, ele não resistiu a tentação, se envolveram e ela acabou embuchando do Eduardo.

EVALDO RIBEIRO