CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 19

A noticia deixou Salomão tão desequilibrado que ele nem colocou a arma de caçar no cabide, como sempre fazia. Decidido a lavar a honra de sua familia com o sangue de seu malfeitor, foi chamar o filho Oscar, que estava na casa de um amigo, para, juntos, fazerem o acerto de contas com Eduardo.

— Eu sempre soube que esse cabra maldito ia aprontar com a minha filha. Sempre soube que, um dia, ele magoaria a minha Laura — ruminou entre dentes.

Enquanto Salomão fora plantar a energia do ódio no coração do filho, Alzira, mesmo com raiva do genro, nessa hora so' pensou em evitar que o esposo e o filho cometessem uma desgraga matando Eduardo.

Tentando impedir a iminente tragédia, ela correu na frente para avisar ao genro que Salomão e Oscar estavam atrás dele para matá-lo. No caminho, Alzira encontrou Dodo, um garoto filho do vizinho, que passeava a cavalo. Desesperada, ela pediu ao menino que corresse ate' a casa de Laura e avisasse a Eduardo que fugisse porque Salomão e Oscar iriam atrás dele para acabar com a sua vida.

O garoto prontamente atendeu ao pedido e saiu galopando em direção a casa do homem marcado para morrer. Quando o portador chegou a residência de Laura, foi informado por ela de que Eduardo havia saido para tomar banho no riacho ali perto.

Vendo a cara assustada do garoto, Laura perguntou:

— O que voce quer com o Eduardo, meu filho?

— E' so' com ele mesmo, dona — disse Dodo, ja' puxando o cabresto do cavalo e seguindo rumo ao riacho, para onde saiu galopando sem dar detalhes do que se tratava.

Ao receber a noticia, Oscar ficou indignado com a ousadia do cunhado e, dominado pela raiva, não parou para refletir. Da mesma forma que o pai, também pegou a sua espingarda e, unidos pelo ódio, foram atrás de Eduardo para fazerem o acerto de contas com o desonrador de familia.

Na companhia do filho, Salomão caminhava a passos determinados e com desejo assassino. Oscar, tal qual o pai, caminhava a passos duros, irado, com sua arma em punho. Durante o trajeto, Salomão confidenciou:

— Voce estava certo, Oscar, quando disse ter percebido alguma coisa entre a Olivia e aquele cabra safado. Mas hoje vamos dar uma lição naquele miserável.

— Vamos sim, pai. Vamos sim...

Laura preparava o jantar enquanto os filhos brincavam no quintal da casa dos avós paternos. De repente, escutou a voz de Salomao gritando na porta:

— Eduardo, Eduardo, Eduardo!

Ela foi atender e levou um susto ao se deparar com o olhar furioso do pai diante de sua porta, com uma potente espingarda de caçador na mão.

Salomão, esbaforido e expressando muito ódio no tom de voz, inquiriu:

— Laura, cadê aquele verme do seu marido?

— Ele saiu, pai.

— Para onde ele foi?

— Não sei — mentiu ela, pressentindo confusão no ar.

— Hoje eu mato aquele infeliz — bradou Salomão. O medo de Laura aumentou ainda mais ao notar que Oscar estava escondido atrás de um pe de manga, na frente da casa, com outra arma na mão, dando cobertura ao pai.

— O que aconteceu, gente? — sondou ela, tensa.

— Aconteceu uma desgraça e vai acontecer outra maior quando a gente encontrar o maldito do seu marido — devolveu Salomão, decidido.

— E o que ele fez, pai? — novamente perguntou ela, ja' chorando.

Salomão não respondeu a pergunta da filha e emendou:

— Bem que a avisei para nao se envolver com aquele cabra da peste. Desde o começo algo me dizia que aquele sujeito não prestava. Mas voce não me deu ouvidos, diacho.

— Pelo amor de Deus, pai, o senhor pode me explicar o que o Eduardo fez de tão grave? — insistiu Laura, tentando entender o que estava acontecendo.

— Minha filha, a única coisa que eu tenho para Ihe dizer e: se prepare para ficar viúva, porque de hoje aquele imprestável do seu marido não passa — afirmou Salomão, levantando sua arma de fogo, deixando claro que estava dominado pela raiva.

Laura implorou para saber o que tinha acontecido e, como o pai não respondia, Oscar decidiu sair de trás da mangueira e disse:

— A verdade, Laura, e' que o Eduardo embuchou a Olivia.

Quando ouviu o irmão dizendo que o Eduardo tinha embuchado a Olivia, Laura sentiu o chão abrir sob seus pés e o céu desabar sobre a sua cabeça. Uma tontura quase a derrubou. Demorou para ela voltar as idéias.

— O que voce disse, Oscar? Escutei direito?

— E' isso mesmo que voce ouviu, minha irmã. Aquela praga do seu marido embuchou a Olivia.

— Ai, meu Deus do céu, eu não acredito no que estou ouvindo!

Salomão e Oscar sabiam que, naquele horário, Eduardo poderia estar tomando banho no riacho, como todos faziam no fim do dia, ao chegarem do trabalho. Os dois seguiram correndo para la', com suas armas em punho, para definitivamente fazerem o acerto de contas com o seu malfeitor.

Sentindo-se arrasada, Laura parou na sala diante de um quadro de Jesus Cristo. Ali desabafou sua dor, brigando com a imagem do Messias e reclamando por Ele ter se descuidado de protegê-la daquele sofrimento:

— Onde e' que estava, Jesus? Por que permitiu que uma desgraga dessas acontecesse comigo? Eu guardei a minha sorte em suas mãos. Fiz tudo certo, como orientam os seus ensinamentos. Sou uma pessoa tão caridosa, ajudo todo mundo, sempre respeitei o meu marido, vivo so para cuidar dos outros, e em troca do bem que faço recebo como recompensa uma traiçãao de pessoas da minha propria familia?

Sem respostas para os seus questionamentos, Laura ficou revoltada com a falta de explicação daquela imagem imóvel que não demonstrou o minimo de compaixão para com o seu sofrimento.

O que ela não observou foi que, naquela imagem, o mestre Jesus carregava a sua própria cruz nas costas, como a responder:

— Filha, eu tambem fui traido e crucificado.

Alzira, compartilhando daquele doloroso aprendizado, chegou a casa da filha esbaforida e com os olhos banhados em lágrimas. Quando Laura percebeu a presença da mãe, imediatamente parou de brigar com a imagem de Jesus. Correu ao encontro de Alzira e atirou--se em seus braços, desesperada.

Comovidas, mãe e filha abraçaram-se com força.

— Obrigada, mãe, por ter vindo — disse Laura com a voz entrecortada. — Eu precisava tanto desse abraço!

— Cadê o seu marido, filha? — sondou Alzira.

— Ele saiu para o banho no riacho — informou Laura, soluçando no ombro da mãe.

— O seu pai e o seu irmão estiveram aqui?

— Sim, mãe. Chegaram aqui com as espingardas na mão, perguntando pelo Eduardo. Eu não disse onde ele estava, mas parece que o mal soprou no ouvido deles. Desconfiaram de que o Eduardo esta' no riacho, me deram a terrivel noticia da gravidez de Olivia e seguiram para matá-lo — respondeu Laura, aos prantos.

— Valei-me, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ó , mae protetora dos desesperados, interceda por nós — clamou Alzira.

— Antes do meu pai e de Oscar, quem esteve aqui foi o Dodô, que, aliás, parecia mais cansado do que o cavalo que o carregava. O moleque perguntou pelo Eduardo, eu quis saber do que se tratava e ele disse que era um assunto particular.

Expliquei para ele que o Eduardo havia saido para o banho, e o linguarudo saiu disparado em direção ao riacho, me deixando assustada. Afinal, a fama daquele cabeça-chata e de "anunciador de desgraça". Quando escutei aquela voz dramática do Dodô chamando desesperadamente pelo Eduardo, ja' fiquei com o coração quase saltando pela boca, porque pressenti que coisa boa não ia ouvir. E' impressionante como, na mente da gente, a presença daquele menino esta associada a desgraça.

— Mas desta vez ele teve utilidade... — defendeu-o Alzira. — 0 Dodô veio aqui porque eu pedi a ele que avisasse o seu marido que o seu pai e o seu irmão estavam vindo para matá-lo.

— Isso não vai terminar bem — tornou Laura, arrasada.

— Infelizmente, minha filha, os homens de nossa terra ainda são muito atrasados espiritualmente. Fico horrorizada de ver como eles so' sabem resolver os problemas dessa natureza com violencia, porque tem essa idéia cruel de que estão lavando a honra da familia com o sangue de quem cometeu a desonra.

— Se eles matarem o Eduardo, vão acabar com a nossa familia — disse Laura.

Alzira, preocupada com os netos, perguntou:

— As crianças viram o avô e o tio chegando aqui com as armas na mão, procurando pelo pai deles para matá-lo?

— Graças a Deus, não. Eles estão brincando la' no quintal da casa do seu Juca. Esse trauma ficaria marcado na mente deles para sempre — aditou Laura.

— Bem que voce disse, naquela conversa que nós tivemos, que o seu marido poderia estar se envolvendo com alguma rapariga — relembrou Alzira.

Laura apenas meneou a cabeça, e a mãe tornou:

— O que não cogitamos e' que a destruidora de lares seria a sua própria irmã. Realmente não ha' inteligência masculina capaz de enganar a sensibilidade feminina, muito menos ludibriar alguem sensivel como voce. O nosso espirito sente quando alguem esta tramando contra nós.

Laura, com o olhar perdido, interveio:

— Algo me dizia que aquele jeito frio que o Eduardo adotou ultimamente era porque ele tinha se esquentado nos braços de outra.

— Pois e', mas o que nunca passou pela minha cabeça e que os nossos inimigos estavam dentro da nossa própria casa — concluiu a mãe.

— Eu reconheço que fui muito ingênua, não guardei segredo das minhas intimidades com o Eduardo e revelei para a Olivia mais do que devia, despertando nela a curiosidade em conferir a masculinidade do meu marido — admitiu Laura.

— Esse e' um erro que muitas mulheres cometem quando estão felizes e realizadas com o homem que tem... acabam falando demais. A propaganda gera o interesse das outras mulheres — aduziu Alzira.

— E como voces descobriram a cachorrada deles? — perguntou Laura.

Alzira relatou tudo para a filha traida. Explicou-lhe desde a mudança de comportamento de Olivia, que passou a usar suas roupas largas e a se isolar, ate' o último acontecimento, que desencadeou na confissão da caçula, admitindo que tinha se envolvido com o cunhado na noite em que Laura esteve ausente.

— E onde esta' aquela descarada, mãe? — quis saber Laura, indignada.

— Na hora que a bomba estourou, a sua irmã ficou apavorada e, com medo da reação do pai de voces, correu para o quarto, se trancou la' e não saiu mais. Eu bati na porta várias vezes pedindo para falar com ela, mas ela não abriu. Aliás, a Olivia fez muito bem em não abrir a porta, porque, com a raiva que estou sentindo dela, eu poderia ter perdido o controle e Ihe dado uma surra, mesmo sabendo que em seu ventre existe uma criança inocente e indefesa.

Laura suspirou profundamente e disse:

— Essa e' a minha vontade também. Mas a criança que ela esta' esperando não pode pagar pelo erro da mãe.

— Eu sei disso, filha — ponderou Alzira. — E' que na hora da raiva a gente cega, age impulsivamente, resolve as coisas com agressividade e, o que e pior, se arrepende depois.

— Gragas a Deus a Olivia esta longe de mim nesse instante. Se eu me deparasse com ela, nao responderia por mim — disse Laura.

— Agindo com agressividade, so' atraimos mais desarmonia. Resta-nos esperar que o Dodô tenha conseguido avisar o Eduardo, senão o pior ainda esta' por vir — aventou Alzira.

— Vamos rezar e pedir a Deus que isso não aconteça — sugeriu Laura.

— Essa e' a única coisa que nós podemos fazer, filha: rezar.

— Ja' basta a desgraça que houve no meu casamento. A morte do Eduardo sera' terrivel para todos nds. Mas tem uma coisa...

— O quê?

— Sei que estamos aqui aflitas, mas, certa vez, antes de me casar, papai disse que não gostava do Eduardo, que achava que ele iria me magoar.

— Seu pai disse isso?

— Mais ou menos. Percebi que ele tinha sido sincero que, de certa forma, queria me proteger, mas eu, apaixonada, nem quis ouvi-lo. Deu no que deu.

— Não fique mais atormentada do que esta' — ponderou Alzira. — Seu pai pode ser bronco, mas a ama do jeito dele. Salomão tem uma intuição bem aguçada e, vai saber, talvez o espirito dele previa que Eduardo, de certa forma, aprontaria alguma coisa e machucaria seu coração.

— Agora entendo essa birra do papai com o Eduardo. Meu marido acabou com a nossa familia, mãe. Acabou...

— Não vamos ficar mais aflitas. Precisamos de um minimo de equilibrio que seja. Me dê suas mãos, filha. Vamos rezar e pedir ajuda a Deus e aos nossos amigos espirituais. Porque nesse caso somente a providencia divina podera nos livrar de mais tristeza e sofrimento daqui por diante. Deus e' misericordioso e eu tenho certeza de que o nosso Pai Celestial ira interceder por nós, atendendo ao nosso pedido de socorro.

Elas deram-se as mãos e fizeram uma comovente oração.

Eduardo havia acabado de chegar a beira do riacho. Estava tirando a roupa para se banhar quando, de repente, Dodô chegou correndo e brecou o cavalo quase o atropelando. Todos que ali estavam ficaram em estado de alerta, pois a fama do menino era de disseminador de noticias ruins.

Esbaforido, Dodô saltou do animal e, evitando que os demais escutassem o recado que daria para Eduardo, pediu que ele se abaixasse para dizer-lhe ao ouvido:

— Seu Eduardo, a dona Alzira mandou Ihe avisar que o seu Salomão e o seu Oscar estão vindo atrás do senhor para matá-lo pelo que fez com a Olivia.

Consciente do que havia feito, Eduardo nem fechou os botões da calça e saiu correndo para dentro da floresta que cercava o riacho.

Ambrósio, conhecendo a fama de fofoqueiro do menino, perguntou:

— Moleque, o que foi que aconteceu que voce deu com a lingua nos dentes e o filho do macumbeiro saiu tropeçando nas próprias calças?

Dodô simplesmente Ihe deu as costas, acelerou o cavalo fazendo um movimento com os pés e foi embora galopando, sem responder a pergunta do homem.

— Voce não vai responder o que eu perguntei, não, moleque mal-educado? — vociferou Ambrósio, irritado por ter sido ignorado pelo garoto.

O informante continuou se fazendo de surdo e nem olhou para trás.

— Ah, se voce fosse pelo menos meu sobrinho, moleque desaforado. Eu Ihe daria uma surra com cipó de galho seco so' pra voce aprender a respeitar os mais velhos — disse Ambrósio, bufando de raiva.

— O Dodô e assim mesmo, seu Ambrósio — comentou Ramiro.

— Eu tenho certeza de que o filho do macumbeiro fez alguma coisa errada. Pode guardar o que estou dizendo — previu Ambrósio, salivando veneno.

Alguns minutos depois, Salomão e Oscar chegaram com as espingardas em punho, mas ja' era tarde demais para fazerem o acerto de contas com Eduardo.

Assim como fez o garoto, Salomão também ignorou a presenga de Ambrósio. Dirigiu-se a Ramiro e, friamente, perguntou:

— Voce viu o Eduardo por aqui?

Ramiro, evitando se envolver em encrenca, respondeu:

— Acabei de chegar aqui, seu Salomão, e ainda não vi o seu genro hoje.

Mesmo tendo sido ignorado, Ambrósio comentou, voz irônica:

— Pela sua cara, com certeza o filho do macumbeiro aprontou alguma coisa.

Demonstrando-se irritado com a intromissão do outro, Salomão contrapôs:

— O que aquela praga fez não e' da sua conta, velho curioso. Va' cuidar da sua vida, porque hoje eu não estou com disposição para perder tempo ouvindo os seus comentários idiotas.

— Com a raiva que estamos daquele ordinário, hoje nós vamos atrás dele ate' no inferno — determinou Oscar, mudando a espingarda de mão.

— Em breve, ele vai aparecer com a boca cheia de formigas para pagar o mal que fez a nossa familia. Pode esperar — declarou Salomão.

Colocando mais lenha na fogueira, Ambrósio saiu da 'agua e disse:

— Eu estava aqui tomando meu banho quando o seu genro chegou... Na hora que ele começou a desabotoar a calça para tomar banho, o Dodô chegou montado a cavalo. O moleque linguarudo brecou o animal quase em cima do Eduardo, saltou no chão igual a uma perereca de brejo, com aquelas pernas finas e compridas, e segredou algo no ouvido do seu genro. O filho do macumbeiro ficou tão apavorado com a informação recebida que nem fechou os botões da roupa. Saiu correndo enquanto subia a calça e sumiu na floresta, arrastando moita no peito igual a boi arisco fugindo de vaqueiro.

Salomão, que ja' estava com o sangue fervendo de raiva, ao ouvir aquela voz sarcástica de Ambrósio narrando a fuga do genro, ficou mais irritado ainda, e, movido pela força do ódio, o interrompeu, dizendo com desprezo:

— Cala essa sua boca de sapo cururu e para de chamar o Dodô de fofoqueiro, porque voce e' farinha do mesmo saco e eu não Ihe perguntei nada.

Com mais essa rejeitada, Ambrósio sentiu que, se insistisse em provocar a fúria de Salomão, poderia acabar sobrando para ele tambem. Em silencio, pegou suas coisas e foi embora.

Ja' estava começando a escurecer quando Salomão e Oscar, com as armas em punho, sairam em perseguição a Eduardo por uma estrada vicinal.

Enquanto isso, para alivio de Alzira e de Laura, Dodô voltou do riacho e Ihes contou que havia conseguido chegar a tempo de avisar Eduardo para que fugisse. Elas se abraçaram e agradeceram a Deus pela graça alcançada.

Laura, conhecendo a fama de fofoqueiro do menino, deu-lhe alguns trocados como recompensa e pediu que guardasse aquele segredo consigo. Mas, ao contrário do que prometera, como era costume, Dodô saiu de porta em porta espalhando a noticia da vergonhosa gravidez de Olivia com o cunhado. Como todo fofoqueiro age da mesma forma e diz a mesma coisa — "Não fala pra ninguem que te contei esse segredo" —, em questão de minutos aquele era o assunto mais comentado da região.

EVALDO RIBEIRO