CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 2

De volta a sala, Dolores disse:

Peço a voc6s que tenham so' um pouquinho de paciência. Dentro de alguns minutinhos a comida sera' servida. Tudo bem, crlançada?

— sim — reaponderam os pequenos.

Alzira emoclonada com a receptividade da desconhecida mulher, diss

- Eu nem sel como Ihe recompensar pela hospitalidade, dona Dolotes.

A mulher, expressando gratidão e humildade no seu jeito de falar, exprimiu:

— Voce não precisa me agradecer por nada, querida. O que estamos oferecendo a sua linda familia e' o mesmo que gostariamos que nos oferecessem se estivessemos na mesma situação. Porque eu penso da seguinte maneira, minha amiga: quem
tem o que oferecer e que deve agradecer a Deus pela graça de poder compartilhar um pouco de suas conquistas com o seu semelhante.

— Nem todo mundo age assim como a senhora — observou Alzira.

— Concordo com voce! — respondeu Dolores e enfatizou: — Cada um de nós esta em seu tempo de evolução e compreensão.

Alzira, gostando do tom maduro da conversa de Dolores, emendou:

— Agora, mudando de assunto... Voces tem filhos?

— Temos três filhos. Dois são biológicos e um e' adotivo.

— E quais os nomes deles?

— Roberto, Rita e Sebastião. Este último nos adotamos com um mês de vida, logo após a morte da mãe dele, uma querida moradora de nossa fazenda que morreu picada por uma cobra venenosa. O pai do menino, desesperado com a morte da esposa, longe dos parentes e sem condições para criá-lo, decidiu deixar a criança conosco.

— Nossa! Que história triste.

— Realmente e' uma história muito triste — considerou Dolores. — Acolhemos a criança com o mesmo amor que criamos os nossos filhos, e hoje ele e' um rapaz muito querido por todos nós.

Alzira imaginou o quanto o pai do menino havia sofrido ao perder a companheira e ter de se separar do filho por falta de condições de criá-lo. Reconhecendo a nobre ação do casal de fazendeiros, exprimiu:

— Este lindo gesto de voces mostra que ha' em seus generosos corações muito amor e compaixão para com a dor e necessidade alheia.

Dolores, com expressão reflexiva, como se estivesse voltando no tempo, e ao mesmo tempo demonstrando satisfação com o filho do coração, acrescentou:

— Como em toda ação a vida nos traz uma reação como resposta a altura de nossas atitudes, graças a Deus, o Tião se revelou um espirito forte, amoroso, dedicado e companheiro, como nem os nossos filhos de sangue são. Ele cresceu e se tornou o nosso braço direito nas atividades da fazenda. Resumindo: este meu filho e' realmente uma benção enviada por Deus.

Alzira sentia o amor inoculado nas palavras de Dolores e disse:

— Eu sempre ouvi a minha mãe afirmar que nós so' recebemos do universo os frutos das sementes que plantamos e cultivamos com as nossas ações e atitudes diante das situações que encontramos em nosso caminho.

Dolores completou:

— Com esta visão sobre a vida, sua mae devia ser uma pessoa sábia! E' exatamente isso que tenho observado acontecer comigo após as boas ações que pratico com amor em beneficio do meu semelhante. Fazendo o bem sem olhar a quem, as minhas colheitas tem sido fartas de respostas positivas, bençãos e abertura de portas, aparentemente impossiveis.

Alzira arrematou:

— Este e' um aprendizado que levarei comigo para sempre.

— Eu tambem — ajuntou Dolores.

— E cadê os seus filhos? — quis saber Alzira.

— Eles moram na capital do estado, onde estudam.

— Qual e' a formação que eles escolheram como missão de vida?

— Rita decidiu cursar medicina veterinária. Roberto, contra a nossa vontade, estuda contabilidade e optou por ser bancário. Tião, por gostar de morar em meio a natureza, decidiu não cursar uma faculdade para ficar ao nosso lado, cuidando do pai e de mim.

— A senhora ama muito esse seu filho do coração, não e' mesmo?

— Sim — concordou Dolores bastante emocionada.

— Realmente o amo muito. Mas muito mesmo. Inclusive gera muita ciumeira por parte dos meus filhos de sangue, que percebem o meu apego ao Tião e me cobram.

Alzira comentou:

— Eu notei em seu olhar um brilho intenso quando a senhora citou esse filho adotivo e senti que existe uma ligação muito forte entre voces dois!

— Realmente, quando o assunto e' o Tião, algo muito forte me comove e transborda nos meus olhos...

— confessou ela, enxugando as lágrimas e emendando: — Existe entre nós um laço reciproco de amor e companheirismo, não tenho palavras para descrever o que sentimos um pelo outro. A gente ja' conversou sobre isso várias vezes e a sensação que temos e' de que ja' nos conhecemos de algum lugar e o destino promoveu nosso reencontro.

— Eu entendo o que a senhora esta' dizendo — ajuntou Alzira.

Como se fossem velhas conhecidas, as duas mulheres prosseguiram proseando.

Enquanto conversava com Alzira, Dolores notou o olhar atento das crianças acompanhando o bate-papo. Então ela resolveu envolvê-las na prosa também:

— Agora eu quero falar com as crianças... E voce, Oscar, o que vai ser quando crescer?

— Eu quero ser forte que nem o meu pai — respondeu o garoto.

— Este ai e um grude com o pai dele! Isso as vezes me irrita — interveio a mãe, deixando transparecer o ciúme que sentia da admiração do filho pelo pai.

Evitando cometer o mesmo desconforto que havia causado em Olivia, desta vez Dolores se dirigiu primeiro a garota mais nova:

— E voce, Olivia, o que pretende fazer quando crescer?

A menina ficou intimidada. Se pudesse, teria se escondido embaixo da mesa para não responder ao questionamento.

— Deixa de ser acanhada, Olivia! — tornou Alzira, que prosseguiu: — Voce não ouviu a dona Dolores Ihe fazendo uma pergunta?

— Ouvi sim, mamãe.

— Entao, responda a pergunta dela dizendo o que voce deseja ser quando crescer — encorajou-a Alzira, tentando envolver a filha na conversa.

— Ainda não sei o que vou ser — devolveu Olivia com a voz baixinha.

— Pois quando alguém Ihe fizer uma pergunta e voce não souber a resposta, simplesmente diga que não sabe e pronto, minha filha.

Dolores, buscando amenizar a situação constrangedora na qual havia colocado a timida garota, interveio:

— Deixe a menina a vontade. Ela não precisa responder nada. Eu e que estou sendo chata e perguntando demais.

Por último, Dolores olhou para Laura e, sentindo um carinho genuino, indagou:

— E voce, Laurinha, o que vai ser quando crescer, meu bem?

— Eu vou cuidar das pessoas pobres.

— Então, querida, voce veio morar no lugar certo
— afirmou Dolores.

— Por que a senhora disse que aqui e o lugar certo?

— inquiriu Alzira.

Se o objetivo de sua filha e cuidar de pessoas pobres, ela vai ter serviço aqui pela vida toda — explicou Dolores, sorrindo.

Ainda na varanda, Salomão procurou saber sobre a região.

— Seu Viana, conte-me dos costumes de sua terra e de sua gente.

— 0 municipio de Carolina e' uma das regiões mais bonitas do Maranhão. E e' tambem um solo abençoado por Deus, pois aqui chove bem. Temos em nossa região rios de 'aguas cristalinas e uma paisagem agreste exuberante que deixa qualquer visitante fascinado com os seus encantos.

Salomão prestava atenção e Viana prosseguiu, cheio de orgulho:

— A nossa vegetação e' composta por cerrados, caatingas, chapadas, brejos... Ha' tambem madeiras de lei, inclusive as mais cobiçadas pelos madeireiros, que transformam essas preciosidades em móveis raros e carissimos, pegas essas muito apreciadas pelas pessoas que tern bom gosto e, claro, podem pagar altos valores por elas.

— E qual e' o meio de sobrevivência da população?

— A minha familia vive da criação de gado de corte. Ja' os nossos funcionários recebem salário. Os vizinhos tiram o sustento da lavoura, que e' basicamente o cultivo de arroz, feijão, milho e mandioca.

— Agora uma curiosidade...

— Pois não? — consentiu Viana.

— Os seus familiares seguem alguma religião e prática espiritual?

— Não, porque entendemos que as religiões deixam as pessoas alienadas e fanáticas pelos conceitos que suas filosofias pregam. Eu, particularmente, sou ecumenico, mas confesso que adoro ler sobre assuntos espiritualistas e filosóficos. Tenho preferência por obras de autores que não impõem regras classificando o que e' certo ou errado. Dessa forma, posso tirar as minhas próprias conclusões sobre aquilo que leio e estudo — explicou o fazendeiro.

— Penso dessa mesma maneira — corroborou Salomão.

— Por que voce perguntou sobre religião?

— Porque tenho a seguinte conduta como filosofia de vida: antes de falar sobre esse assunto, procuro saber quais as crenças das pessoas com as quais converso para poder me expressar sem confrontar pensamentos opostos aos meus.

— Parabéns pela sua postura sensata.

— E o que o senhor mais gosta de fazer nas suas horas vagas, vivendo aqui em meio a esse paraiso? — tornou Salomão, fugindo do assunto religiosidade.

— Embora tenha dito que não pertenço a nenhuma religião, gosto de ocupar as minhas horas vagas lendo livros que abordam a espiritualidade com coerência. Dizem os médicos que uma boa leitura faz bem para a alma e afasta a esclerose, que tanto afeta os idosos.

— Ja' ouvi algo sobre isso, mas sou contra os livros espiritualistas por serem obras alternativas. A minha esposa e' viciada nesse tipo de leitura e a gente acaba entrando em discórdia por causa disso — comentou Salomão.

— Voce não precisa discutir com a sua companheira por causa de algo em que não era ou de que não gosta, deixe-a curtir o que Ihe faz bem.

Salomão achou o jeito de pensar de Viana muito liberal, mas não contra-argumentou. Os dois seguiram conversando alegremente sobre temas diversos. O bom bate-papo foi interrompido quando a cozinheira apareceu e informou:

— Seu Viana, a comida esta' servida.

— Vamos entrar para voce almoçar — convidou o fazendeiro.

— Depois do senhor — disse Salomão, dando a vez ao dono da casa e esperando-o para segui-lo.

Foram ate' a cozinha para que Salomão pudesse lavar as mãos. Feita a higiene, Viana o convidou para se acomodar em torno da mesa junto a sua familia. Almoçaram a vontade e prosseguiram conversando.

Quando terminaram de fazer a refeição, Dolores pediu a Aracy que levasse as crianças para conhecer o pomar da fazenda. Enquanto isso, os adultos prosseguiram proseando na sala, de onde viam pela janela os pequenos se divertindo no quintal, correndo na sombra dos pés de frutas.

EVALDO RIBEIRO