CAPÍTULO 20

CAPÍTULO 20

Alzira, sentindo-se contente por ter recebido o amparo espiritual, tornou:

— Filha, eu posso imaginar que alguém que passa por um desafio tão doloroso como este tenha a autoestima atirada ao chão e que fatalmente perca a confiança em si por um longo tempo. Então, quero Ihe dizer que não pode se esquecer de seu valor ou se culpar por um erro que não foi voce que cometeu. Erga a cabeça e lembre-se de que voce e' uma mulher linda, sensivel, inteligente, generosa e honesta.

Laura apertou com força as mãos da mãe e, secando as lágrimas, disse:

— Obrigada, mãe, por ter me lembrado disso! Realmente essa situação deixou a minha autoestima abaixo de zero. Por ter sido trocada por outra, eu estou me sentindo um lixo, não me acho boa o suficiente para preencher o coração do meu homem, e aquela minha fe' imbativel não existe mais dentro de mim. Parece que eles roubaram a minha força e a minha luz. Ainda não aceitei o que aconteceu. A sensação e de que estou tendo um pesadelo daqueles terriveis que eu tinha durante a minha infância e, quando eu acordar, tudo vai passar.

Alzira suspirou profundamente e disse:

— E' um pesadelo mesmo, filha. Porém, como tudo nesta vida, isso também vai passar. Quando tudo parece estar perdido, nos resta clamar pela intercessão divina, que sempre vem amenizar nosso sofrimento, nos traz amparo, suporte. Vamos continuar em oração, pedindo a Deus que limpe o seu campo espiritual de toda a energia pesada que Ihe cerca. E que, da mesma maneira, a luz divina impeça que o seu pai e o seu irmão encontrem o Eduardo.

— Vamos sim, mãe — concordou Laura. Mas, mostrando sua raiva, contrapôs: — Apesar daquele traste não merecer sair com vida depois do que aprontou...

Seguiram de mãos dadas em prece, mentalizando todos os membros da familia sendo cobertos por um manto de luz azul e buscando afastar a energia de ódio do coração de Salomão e Oscar.

De repente, Salomão e Oscar entraram no quarto. Embora Laura confiasse fervorosamente em Deus, quando avistou o pai e o irmão com suas armas na mão, tremeu na base. Preocupada, questionou:

— E ai, pai? Voces conseguiram encontrar aquela lástima do Eduardo?

— Para a sorte daquele safado, não — respondeu Salomão.

— Nós vasculhamos os arredores do riacho, mas nessa escuridão medonha a gente não enxergava um palmo diante do nariz. O miserável conseguiu fugir. Porém, amanhã sairemos cedo atrás do aproveitador e so' voltaremos para casa quando Ihe aplicar o mais dolorido dos castigos — bradou Oscar.

Laura estava tão magoada que, ao ouvir a declaração do irmão, sentiu vontade de pegar uma arma também, se juntar aos dois para procurar Eduardo e, de uma vez por todas, acabar com aquele sofrimento que devorava a sua alma.

Mas em uma reflexão honesta com os seus sentimentos, ela reavaliou os momentos de amor e trocas afetivas que viveu ao lado do marido, tentando perdoar o ato de fraqueza que ele havia cometido ao se envolver com Olivia. Porém, a mágoa parecia ter apagado as coisas boas de sua memória e' so' guardado o que dera de errado naquela história de amor.

Laura não foi capaz de desvencilhar-se da raiva e, por conta disso, atraiu e acabou incorporando um espirito revoltado que apontou o dedo para o pai dela e gritou:

— Ate' que enfim, Salomão, a gente vai ter a oportunidade de voltar os olhos para o seu passado sujo e derrubar essa sua pose de dono da verdade.

Como sempre, Salomão duvidou de que a filha realmente estivesse recebendo um espirito, mas dessa vez fingiu-se interessado em saber de quem se tratava e o motivo da visita inusitada. Com ar zombeteiro, perguntou:

— Quem e' voce, meu caro defunto? E de que passado sujo voce esta' falando?

Laura levantou a cabeça, rangendo os dentes como um cão feroz, e, assim como fez da outra vez, novamente ameaçou atacá-lo fisicamente.

Salomão sentiu muito medo quando viu aquele olhar raivoso da filha demonstrando que iria avançar em sua direção a qualquer momento. Preocupado com o que poderia Ihe acontecer, deixou o quarto e saiu apressadamente em busca da ajuda de seu Juca para libertar Laura da suposta presença intrusa que havia se aproximado de seu corpo.

Ao chegar a casa do médium, mostrando-se muito apavorado, ja' foi logo relatando o que estava acontecendo com a filha.

Mas Juca o interrompeu dizendo:

— Não me conte nada agora, Salomão. Vamos para la' imediatamente e, no caminho, a gente conversa.

— Tudo bem, seu Juca — assentiu Salomão.

— Espere so' um minutinho que eu vou pegar a minha valise com os elementos de trabalho que uso nesses casos.

— Eu espero sim — concordou Salomão, inquieto. O médium foi ate' os seus aposentos, pegou a sua inseparável pasta, voltou a sala onde Salomão o esperava ansiosamente, e os dois seguiram para a casa de Laura.

Chegaram ao local e Juca pediu aos familiares de Laura que se unissem a ele em uma oração. Em seguida, o médium se aproximou da nora e se dirigiu ao espirito, buscando identificá-lo e descobrir o motivo de sua manifestação.

— Caro irmão, o meu nome e' Juca Morais. Queira, por bondade, se apresentar. E, para que eu possa ajudá--lo, diga o que deseja comunicar a essa familia.

Laura levantou a cabeça, chorando e falando com uma voz masculinizada. Apontou o dedo para o pai e, aos berros, disse:

— Eu quero avisar ao Salomão que ele deve aceitar logo esse neto que ele esta' recebendo como presente, sem reclamar da sorte. Porque isso que o genro dele fez com a cunhadinha assanhada foi o mesmo que ele aprontou com a Lindalva, a prima dele que era casada e que traiu o marido com essa praga. Resultado: ela engravidou do Salomão e matou o marido envenenado.

Angustiado com a revelação de seu passado, Salomão perguntou:

— E quem e' voce?

Chorando desesperadamente, o espirito respondeu:

— Depois de tudo que falei, voce ainda pergunta quem sou eu?

Ficou uma pausa na conversa.

— Voce e' o Durval, marido da Lindalva? — perguntou Salomão.

— E quem mais poderia ser? — indagou o espirito.

Salomão ficou sem saber o que dizer após a revelação que a suposta entidade fizera sobre o seu secreto passado.

O espirito prosseguiu:

— Eu sou o único homem que verdadeiramente amou a Lindalva. Contudo, aquela ingrata, quando descobriu que estava grávida de voce, me matou, acreditando que, se livrando de mim, seria feliz ao seu lado.

Salomão, muito envergonhado por ter sido desmascarado, baixou o tom de voz. Admitindo que tinha mesmo culpa no cartório, justificou-se:

— Durval, eu assumo que tive um caso com a Lindalva, mas eu não participei do maldito plano que resultou em sua morte. Aliás, no momento em que ela me revelou que havia provocado a sua morte para poder ficar comigo, eu fiquei tão decepcionado com a maldade da Lindalva que imediatamente coloquei um fim em nossa relação.

— Voce não precisa se justificar — cortou o espirito. — Logo após o enterro do meu corpo, eu ouvi a Lindalva chorando no seu ombro, arrependida do que tinha feito comigo, confessando que a verdadeira causa da minha morte havia sido o veneno que ela tinha colocado na minha comida.

Alzira e Oscar entreolharam-se, incrédulos com aquela revelação.

O espirito, expressando muita dor pelo dano que sofrera, concluiu:

— Eu sei que voce não acredita em vida após a morte. Mas ja' que voce quer matar o seu genro, e' bom saber que não adianta matar alguem achando que vai se livrar da pessoa, pois a vida não acaba quando o corpo morre. Eu estou aqui para Ihe comprovar a continuação da existência.

Oscar, sentindo-se muito decepcionado com o pai, nem esperou o desfecho da história. Deixou a casa da irmã e seguiu para sua casa sem dizer nada.

Alzira ficou com tanta raiva do marido que, se pudesse, teria incorporado o espirito de um lutador de boxe e nocauteado Salomão com bofetadas fatais. Entretanto, teve suficiente presença de espirito para tratar do assunto em outro momento com o marido. Aquele não era o momento apropriado.

Após ser desmoralizado, aquele Salomão autoritário e dono da verdade ja' não existia mais. Houve uma profunda transformação em sua postura. O que se via agora era um homem cabisbaixo e convencido de que a filha realmente mantinha contato com espiritos desencarnados. Afinal, por intermédio dela, o espirito descreveu com detalhes um segredo seu que ninguém, além de Lindalva, sabia.

Por mais que Salomão quisesse rejeitar a informação passada durante a manifestação espiritual, as provas eram conclusivas e inegáveis, pois o espirito delatou a sua história secreta com exatidão.

Consciente de que sua moral tinha caido por terra, Salomão não queria mais saber de tirar a vida do genro para lavar a honra de sua familia. Intimamente, ele se questionava: "Quem sou eu para exigir respeito, se não respeitei a familia alheia?".

Juca equilibrou o ambiente, encaminhou o espirito que estava em posse da consciência de Laura e, quando ela se restabeleceu, o médium recomendou que a nora fosse tomar um banho com ervas que ele havia Ihe preparado.

Ainda atordoada, Laura perguntou:

— O que aconteceu comigo, seu Juca?

— Nada de mais, minha filha. Apenas tivemos a graça de receber a visita da verdade para que o amor pudesse abrir entre nossas familias todas as portas. Sobre o que de fato ocorreu aqui, a gente conversa depois. Primeiro, faça o que estou orientando — reforçou Juca.

— Não acredito que incorporei um espirito desequilibrado. De novo!

Alzira pegou a filha pela mão e disse:

— Faça o que seu Juca Ihe pediu, minha filha. Ela olhou para o sogro e ele consentiu. Laura acatou a orientação do médium e foi tomar o banho de ervas.

Enquanto isso, Alzira aguardava na sala. Olhava o marido com tanta raiva que os seus olhos pareciam fuzilar Salomão. Ele, sentindo-se desconfortável diante do olhar julgador da esposa, trocou o jeito de falar arrogante por um discurso pacifico, coisa que nunca fizera parte de sua conduta. Ao menos dentro de casa.

Agindo igual a um cachorrinho submisso, de cabeça baixa, ignorando o olhar reprovador da companheira, ele se dirigiu ao médium:

— Seu Juca, nos textos sagrados esta' escrito: "Errar e' humano". E, ca' entre nós, quem nunca errou que atire a primeira pedra, não e' mesmo?

Alzira ficou indignada com a justificativa do marido para a propria infidelidade, pois Salomão nunca havia citado a Palavra de Deus em suas falas. "E' muita dema-gogia desse canalha... Depois de tudo que aprontou, usar a palavra sagrada para justificar a sua falta de vergonha na cara!", pensou ela.

Sem paciência para ouvir as blasfêmias do marido, Alzira deixou Juca e Salomão conversando e foi ate' a casa do sogro da filha buscar os netos. Trouxe as crianças de volta, procurando manter um semblante tranquilo para que elas não percebessem nada, e as colocou para dormir.

Logo que as crianças pegaram no sono, Alzira voltou para a sala, onde Salomão, objetivando encerrar o assunto, propôs ao sogro da filha:

— Pensando bem, seu Juca, acho melhor a gente hastear a bandeira da paz sobre esse assunto desagradável e tocar as nossas vidas para frente.

Juca, gostando da nova postura de Salomão, disse:

— De minha parte, esta' tudo certo entre nós. Eu também acho que a melhor saida para resolver essa situação delicada e as nossas familias se aninharem na paz. Afinal, a morte do meu filho não vai trazer a pureza de sua filha de volta.

Salomão, humilde como nunca fora, fez cara de pessoa regenerada e disse:

— Eu reconheço que não tenho sido muito amável com sua familia. Mas a partir de hoje serei um novo homem e viveremos em harmonia.

Juca, satisfeito com a proposta e com a promessa, devolveu:

— Então, Salomão, ja' que voce escolhe ter um diálogo maduro, assim que o meu filho aparecer, eu vou dizer a ele que voce, em nome do bem de todos nós, deseja conversar sem remorso sobre a gravidez da Olivia.

— Vou aguardar o retorno do Eduardo para conversarmos de homem para homem em nome da paz — devolveu Salomão, despedindo-se de Juca.

Alzira, por sua vez, so esperou Laura voltar do banho. Assim que a filha chegou a sala, Alzira foi embora para que ela pudesse conversar com o sogro.

Juca contou para a nora minuciosamente a história que o espirito havia revelado e, enquanto ouvia os relatos, Laura sentia-se triplamente traida pelos membros de sua familia. Inconsolável, levantou-se e, em um ato de deses-pero, colocou as mãos na cabeça como se não fosse suportar a pressão e pediu:

— Pelo amor de Deus, seu Juca, me belisque e diga que estou sonhando. Isso não pode ser verdade. Que história mais estranha e' essa?

— Calma, Laura, muita calma, minha filha. Sente-se um pouco.

Ela se sentou, Juca pôs as mãos sobre as mãos da nora e disse:

— Filha, eu sei que e' muito chocante a noticia que Ihe dei agora. Mas essa dificil provação que voce esta atravessando faz parte de sua evolução espiritual e de todos os envolvidos nela.

— Não e' possivel que o meu pai tambem seja uma pessoa traidora! Tudo bem que ele sempre foi um homem autoritário, sistemaático, incrédulo e machista, porque foi essa a educação que ele recebeu dos pais dele. Porém, não entra na minha cabeça a idéia de que ele tenha sido desonesto com a minha mãe, descumprindo suas promessas de fidelidade matrimonial!

Juca novamente acolheu as mãos da nora, encorajando-a, e disse:

— Infelizmente, minha filha, essa e' a realidade e não podemos mudar a ordem do que ja' aconteceu. O seu pai teve sim um caso com a prima dele la' no Ceara' e, dessa relação extraconjugal, voce ganhou um irmão.

— O que? — disse ela, abismada.

— Sim. E' isso mesmo. Voce tem um irmão la' em sua terra natal — enfatizou Juca.

— Não e' possivel que isso seja verdade, seu Juca.

— O seu pai confessou e admitiu que teve um filho com a Lindalva, a prima dele.

— Mas a Lindalva so' teve um filho — contrapôs Laura.

— Pois e esse que veio como seu irmão. Laura, chorando, questionou:

— Sera' que essa traição que sofri e' uma maldição que estou recebendo como herança espiritual para pagar o erro que o meu pai cometeu?

Surpreso com a indagação que a nora levantou, Juca disse:

— Não a estou reconhecendo, Laura! Conhecedora que e' das leis espirituais, voce sabe muito bem que a vida nao comete enganos. Portanto, a vida não cobra de quem não deve e muito menos pune um filho pelo erro do pai, pois cada um de nós, inevitavelmente, esta' fadado a se responsabilizar pelas escolhas e opções que fizer usando o seu livre-arbitrio.

— Eu sei, seu Juca, que e' meio contraditório esse meu questionamento. Todavia, eu não dei importância para os sinais que a vida me apresentou, me deixei enganar pelas aparências e cometi comigo mesma um erro gravissimo.

Ele pestanejou, consentindo que ela continuasse.

— Onde ja' se viu alguem ter a capacidade de ler o destino dos outros e não perceber a presença do inimigo dentro da própria casa? — condenou-se Laura.

— Não se faça de vitima, minha filha — rebateu Juca. — Existem coisas na vida que ate' nós, clarividentes, não enxergamos e que fazem parte de algum aprendizado por que temos que passar para nos libertar de nossos equivocos. Afinal, antes de sermos médiuns, somos seres humanos ainda em evolução. Não e' porque atuamos como orientadores espirituais que a nossa posição de lider vai nos isentar de novos aprendizados.

Desencantada com a espiritualidade e frustrada com a surpresa desagradável que recebera da vida, Laura se pôs a lastimar-se:

— Onde estavam o meu mentor espiritual e o meu anjo da guarda? Por que eles não me protegeram dessa desgraça?

Juca, para relembrar a nora, disse:

— Laura, eu entendo que voce esteja profundamente machucada e não tiro a sua razão de se revoltar com tudo que esta' acontecendo em sua vida. Voce sabe muito bem que os amigos espirituais não podem interferir nas escolhas de ninguem e nem tem autoridade para evitar que alguém passe por algumas lições dolorosas como essa que voce esta' vivenciando.

Laura rebateu:

— Se os benfeitores astrais não podem interceder por nós quando mais precisamos de ajuda, então não faz o menor sentido a existência deles.

Juca acrescentou:

— Quando a gente esta passando por uma dor, esquece que, por trás de tudo que nos acontece, estão as leis do universo atuando nas entrelinhas das situações para nos levar ao crescimento e ao amadurecimento de nosso espirito.

Indignada, Laura rebateu:

— Eu fui vitima da minha própria familia, fui traida pelo meu marido com a minha irmã dentro da minha própria casa... E agora o senhor vem querendo me fazer ver o sofrimento como algo construtivo?

Ele ficou em silencio e Laura prosseguiu:

— E' muito duro lidar com tudo isso de uma vez so. Eu sou humana.

Juca sentiu que não era o momento certo para conversar com a nora sobre o aprendizado que aquela dolorida passagem Ihe trazia como lição. Evitando causar resistência na compreensão do fato, disse:

— Tudo bem, minha filha. Entendo a sua dor. Não vamos discutir acerca disso antes da hora, porque a partir de agora o que esta' em jogo e' a sua familia. Portanto, quero Ihe dar um conselho: acalme-se e, antes de tomar qualquer decisão, lembre-se de que voce e o Eduardo tern dois filhos pequenos para criar. Voce precisa ser forte para enfrentar o desafio de um recomeço com o seu marido.

— Na verdade, são tres filhos, seu Juca. Eu descobri hoje que estou grávida.

— Mais um motivo para voce pensar bem antes de agir — aventou Juca.

— Ja' esta' decidido o nosso destino e eu não volto mais atrás. O meu casamento com seu filho perdeu a validade e não tem recuperação. Eu so' vou esperar aquele desgraçado aparecer na minha frente para esfregar na cara dele essa aliança que representa o juramento falso que ele me fez.

Juca, falando agora com mais ênfase, afirmou:

— Talvez seja mais cômodo fugir nas horas dificeis e sair culpando os outros quando o resultado que obtemos e' aparentemente o fracasso.

Laura interrompeu o sogro e defendeu-se, dizendo:

— Eu não estou fugindo de nada e nem culpando ninguem injustamente. A verdade e' que a minha própria irmã esta grávida do meu marido. Sera' que o senhor não entendeu a dimensão da coisa?

O sogro apenas ficou ouvindo a nora, para que ela colocasse para fora sua raiva.

— E' natural que o senhor, na condição de pai, saia em defesa de seu filho, dizendo que ele e' uma pessoa maravilhosa, mas quern levou chifre fui eu. Portanto, so' quem ja' sentiu na pele a dor de uma traição como esta pode avaliar o quanto e' humilhante o que estou passando.

Juca manteve-se sem argumentar e ela prosseguiu:

— Isso não e' uma acusagao sem provas. Daqui a nove meses a criança vai nascer e, o que e' pior, ainda vai me chamar de tia pelo resto da vida. Resumindo, cada vez que eu me deparar com essa criança vou sentir uma punhalada no meu peito, afinal, sera' inevitável me lembrar da maldita traição que Ihe deu a vida e roubou a minha felicidade — concluiu ela, aos prantos.

Juca abraçou a nora carinhosamente e, enquanto ela soluçava em seu ombro amigo, expressando a sua dor, ele disse para encorajá-la:

— Tenho certeza de que voce ira reavaliar bem tudo isso antes de tomar uma decisão guiada pelo orgulho ferido, e, no fim da história, tomara o rumo mais inteligente para resolver essa situação tão desagradável na qual o meu filho e a sua irmã a colocaram. Com o passar do tempo voce entendera' a lição que a vida Ihe reserva por trás desse acontecimento aparentemente injusto — orientou ele. — Por hoje era o que nós tinhamos para conversar. Agora eu preciso ir embora. Mas, antes de partir, quero que voce saiba que eu confio na sua inteligência e tenho certeza de que voce decidira' pelo coração. Fique com Deus, minha filha — encerrou Juca, beijando as mãos da nora.

EVALDO RIBEIRO