CAPÍTULO 21

CAPÍTULO 21

Sentindo-se a pior mulher do mundo, Alzira entrou em casa arrasada. Foi direto para o seu quarto, jogou-se na cama e chorou copiosamente.

Mesmo sem conseguir pensar direito, após colocar para fora tudo que Ihe oprimia o peito, ela levantou-se, ergueu a cabeça, secou o rosto e resolveu enfrentar a dor avassaladora que ainda Ihe destroçava por dentro. Foi ate' a sala, onde encontrou Salomão sentado, cabisbaixo e pensativo.

Ele deixou Alzira falar tudo que precisava e, quando ela deu uma pausa em seu desabafo, plantou-se de joelhos aos pés da esposa e implorou:

— Alzira, pelo amor de Deus, coloque uma pedra sobre esse assunto! Essa história faz parte do passado e, se voce me der uma chance, juro que, com a consciência que tenho agora, jamais farei isso com voce novamente.

Ela refletiu e optou por continuar seu casamento, afinal, ja estava com idade avançada e morava em outro estado, longe da amante do marido. Além do mais, Salomão Ihe garantiu que depois de Lindalva nunca mais tivera nada com qualquer outra mulher.

Naquela noite, Laura não conseguiu pegar no sono. Buscando força na espiritualidade, colocou-se a rezar pedindo inspiração para vencer o desafio.

O seu mentor apareceu para Ihe oferecer amparo. Quando ela viu o amigo espiritual, questionou-o, dando inicio a uma longa conversa entre os dois:

— Sera' que essa traição que sofri e uma dívida de outra vida que estou pagando para cumprir um carma que eu criei para a vida atual?

O mentor não respondeu de imediato, e Laura, inconformada, emendou:

— Eu gostaria muito de ter uma justificativa que me convencesse da razão pela qual uma pessoa honesta e fiel como eu, que dedica a sua vida como serva da luz, so' fazendo o bem para seu semelhante, tem de enfrentar esse tipo sofrimento?

Com gestos mansos, porém com a voz firme, o guia respondeu:

— Pelo grau de compreensão que voce ja' alcançou, sinceramente eu esperava que esse tipo de dúvida não fizesse mais parte de sua vida. Mas, considerando sua dor, entendo voce e vou responder a sua indagação... Se reencarnássemos apenas para pagar inadimplências da vida passada, as leis cósmicas que regem o universo estariam andando para trás.

— Por quê?

— Porque, quando reencarnamos, chegamos a Terra sem consciência das supostas dividas que fizemos durante a vida anterior. Portanto, não faz sentido a justiça divina nos cobrar por erros que nem sequer lembramos que um dia cometemos.

Deus não e' um comerciante que tem cadastrado, em ordem alfabética, os nomes dos espiritos devedores que vão reencarnar.

Muito menos e' um Ser rancoroso que fica la' no departamento de cobrança do plano espiritual decidindo quem vai nascer com alguma dificuldade e sarcasticamente dizendo entre dentes: "Agora essa pessoa vai nascer em uma condição de vida desgraçada para pagar tudo que ela me deve da vida anterior". Laura sorriu e ele prosseguiu:

— Ao contrário disso... Por ser uma fonte infinita de bondade, Deus nos concedeu o livre-arbitrio. Dessa maneira, Ele nos garantiu o direito de decidirmos nosso próprio destino. Ou seja, o que de fato causa o sofrimento e' a imaturidade das pessoas, que abusam do livre-arbitrio, se deixam levar pelos encantos das ilusões e fantasias que elas mesmas criam e acabam pagando um alto preço pelas escolhas malsucedidas que fazem. Como a vida não deixa ninguém eternamente com os olhos vendados pelo véu da ilusão, quando alguém comete um engano, gera para si mesmo consequências indesejáveis e duras lições em forma de aprendizado. Enfim, devemos ter consciência de que Deus e' libertação, amor incondicional, perdão, saúde, compaixão, equilibrio, luz, paz e uma fonte inesgotável de prosperidade que abre todas as portas para a nossa realização.

— Pode ser...

— Talvez, analisando o espirito de luz que voce e' na vida atual, sinta-se vitimada pela situação em que se encontra neste momento. Mas, retirando essa idéia negativa de que isso que Ihe aconteceu e' um carma, e reconhecendo que somos espiritos eternos vivendo a história que nós mesmos criamos, podemos compreender que voce esteja tão-somente colhendo os frutos de suas ações anteriores. Quero enfatizar que as experiências desagradáveis e circunstâncias de dificil compreensão pelas quais passamos não são carmas, dividas de vidas passadas, castigos e muito menos punições de Deus.

— Não?

— Não, Laura. Serei mais sucinto: vivendo na condição de livre-arbitrio, nos tornamos responsáveis por tudo que cultivamos. Por isso, trazemos os resultados das escolhas que fizemos na vida passada como bagagem para a vida presente. Afinal,
Deus nos deu o poder de criar o nosso próprio destino.

— Eu não aceito que essa traição seja uma situação criada por mim, Alaor. Não sou masoquista para buscar a evolução no sofrimento. Por que sera', meu Deus, que eu tenho que passar por essa humilhação? — insistiu Laura, aos prantos.

Alaor serenamente respondeu:

— Vou repetir o que o seu sogro ja' Ihe disse: lembre--se de que nada nesta vida nos acontece por acaso. Sem medo de errar, eu posso Ihe garantir que todos voces estão passando por essa dolorosa situação porque certamente tem alguma coisa boa para extrair dessa dificil passagem de suas vidas. Uma coisa e' certa, minha filha: atrás das situações aparentemente ruins sempre ha' uma oportunidade de crescimento que so' o tempo pode nos revelar.

— Nunca mais vou confiar em homem — declarou Laura, decepcionada.

— Voce so' esta' dizendo isso porque esta com o orgulho ferido. Toda mulher, quando descobre que foi traida, faz essa mesma declaração. Porém, no decorrer do tempo, aquela que passou pela dor de uma decepção amorosa acaba conhecendo histórias de outras mulheres casadas com o mesmo homem ha' décadas sem nunca terem sido traidas. Com isso, a que fez a escolha do companheiro errado compreende que os homens não são todos iguais, como ela pensava, e que, se o amor deu certo para outra, pode dar certo para ela também. Então, ainda com o pe' atrás, aos poucos ela vai tomando confiança em si mesma, volta a sonhar com um grande amor, se apaixona por alguém e vence o medo de ser enganada outra vez, permitindo-se uma nova chance na vida afetiva.

Preocupada com a opinião pública, Laura nem prestou atenção na profundidade das palavras que seu mentor Ihe transmitia e questionou:

— Com que cara eu vou sair de casa a partir de agora, se todo mundo na redondeza sabe que sou uma mulher traida?

— Não conduza a sua vida pela opinião de terceiros. Quem vive para atender as expectativas dos outros esta' condenado a morrer de desgosto. Dê uma nova chance ao amor. Volte a viver com o seu marido e nunca mais toque nesse assunto.

Indignada, Laura questionou a sanidade do amigo espiritual:

— Voce enlouqueceu, Alaor? Eu não creio que voce esta' mesmo achando que eu vou fechar os olhos para essa decepção que o Eduardo me deu e ainda seguir convivendo debaixo do mesmo teto com o traidor como se nada tivesse acontecido.

Alaor, com mansidao na voz, observou:

— Não e' porque uma pessoa errou que vamos condená-la para sempre. Lembre-se de que voce ama muito o Eduardo. Aprenda a vencer os desafios de sua vida seguindo o exemplo de mulheres evoluidas espiritualmente, como sua mãe, que, ao serem traidas, saem da condição de vitimas, procuram descobrir em que erraram contribuindo para a entrada de outra mulher em seu relacionamento, perdoam o deslize do imaturo companheiro, fazem um novo voto de confiança, restauram a união e seguem felizes pelo resto de suas vidas, como se nada de errado tivesse acontecido entre o casal. Nesse caso, fica a certeza de que, quando decidimos relevar a fraqueza de alguém, permitimos, enfim, que o amor cumpra o seu verdadeiro papel, que e' o de abrir portas nos corações fechados, reunindo as pessoas que se amam acima de qualquer coisa.

Ironizando a observação do mentor, Laura rebateu:

— Ja' que voce citou a minha mãe como um espirito evoluido por aceitar a infidelidade do homem que prometeu honrá-la e respeitá-la, sinceramente reconheço que ainda não alcancei esse tão elevado nivel de maturidade espiritual que a minha mãe conquistou, a ponto de continuar convivendo com um traidor como se ele não tivesse me causado nenhum dano. Isso, na minha humilde opinião, e' falta de amor-próprio. Era so' o que me faltava — disse Laura, em tom de revolta. — Nem por todo o dinheiro do mundo eu aceitarei o Eduardo de volta como meu companheiro e muito menos quero olhar na cara da Olivia depois do que eles aprontaram comigo.

— Laura, querida, voce ama o seu marido e a sua irmã?

Ficou uma pausa e o mentor repetiu:

— Voce não respondeu a minha pergunta... Voce ama o seu marido e a sua irmã?

— Eles me enganaram — devolveu Laura, chorando.

— O meu papel como seu mentor e' fortalecer em voce as suas qualidades, e não reforçar a imaturidade de seu espirito rebelde e preso ao orgulho. Filha, a cura de sua alma esta' no perdão e na reconciliação — enfatizou o guia.

— Pois, então, voce pode aguardar a minha chegada ai no mundo espiritual em breve, porque, com o ódio que estou sentindo daqueles dois desgraçados, com certeza irei morrer logo, logo — anunciou Laura, ar dramático.

— Não ha' mal que não traga um bem — disse Alaor.

— Depois que descobri que sou uma mulher incapaz de preencher o coração de um homem, nada mais na minha vida faz sentido — avaliou ela, deprimida.

— Quando estamos com o orgulho ferido, a coisa mais certa a fazer e descansar a cabeça para não tomar decisões precipitadas. O sentimento de ódio so' vai trazer mais resultado negativo — disse Alaor.

Laura refletiu e reconheceu que o mentor estava coberto de razão, pois, nas condições em que estava, ela não tinha clareza para decidir nada. Mas também não cogitava a possibilidade de reatar os laços afetivos com o marido e com a irmã, que perderam definitivamente a sua confiança. Ainda dominada pela dor da traição, ela tentou se colocar acima da irmã, dizendo:

— Eu sou uma mulher linda, digna, honesta, me casei pura, nunca tive curiosidade de conhecer outro homem porque acredito que a fidelidade e' a mais genuina prova de amor que podemos dar a quem escoIhemos como parceiro. A minha irmã, ao contrário, e' uma imprestável.

Alaor expôs sua opinião mais diretamente:

— As pessoas que encontraram a verdadeira felicidade são aquelas que entenderam que as experiências que tiveram na vida, boas ou desagradáveis, foram apenas oportunidades criadas para desenvolver seu amadurecimento espiritual. Mas quem sabe esse acontecimento sirva para trazer de volta a humildade que voce perdeu, deixando-se levar pelo endeusamento e pela fama de curandeira! Certamente essa situação vai Ihe mostrar que voce não e' superior a ninguém. Com isso, ira se conscientizar de que ate' mesmo os médiuns que receberam da graça divina a benção de ter outros sentidos bem desenvolvidos ainda tem as suas limitações e estão sujeitos, sim, a surpresas desagradáveis durante a sua caminhada pela vida terrena — afirmou Alaor.

Com o puxão de orelha, Laura reconheceu que vinha mesmo se deslumbrando com a fama de curandeira que o seu nome havia conquistado.

Ficou um silencio e Alaor aconselhou:

— Procure a sua irmã e converse com ela para tirar a mágoa de seu coração. E se tiver que chorar a sua dor diante dela so' para despejar sua indignação, faça isso antes que a mancha escura do rancor se torne uma grave doença que podera Ihe furtar a possibilidade de ainda ser feliz ao lado de seu marido.

Chorando, Laura rebateu o argumento do mentor:

— Jamais aquela traidora vai ter a satisfação de se divertir a minha custa vendo uma lágrima caindo dos meus olhos.

— Não faça desse drama um motivo justo para desistir das grandes coisas que o seu espirito se programou para alcançar — insistiu o mentor.

Estas foram as últimas palavras de Alaor antes de partir.

Refletindo sobre os conselhos e orientações do mentor, Laura se perguntava: "Que grandes coisas são essas que eu ainda tenho para alcançar?". Exausta, ela adormeceu.

EVALDO RIBEIRO