CAPÍTULO 22

CAPÍTULO 22

Amanheceu. Quando Laura foi servir o cafe' da manhã para os filhos, se deu conta de que precisava inventar uma desculpa para justificar a eles o sumiço do marido, ate tomar uma decisão de como tocaria a sua vida dali para frente.

Agucena, ao ver a cara tristonha de Laura, perguntou:

— Mamãe, cadê o meu papaizinho?

— O papai de voces teve que fazer uma viagem urgente para a cidade e não sei que dia ele vai voltar para casa.

— E com quem a senhora estava conversando de noitão? — tornou a menina, demonstrando que havia escutado a conversa da mãe com o mentor.

— Eu estava falando com o amigo espiritual que sempre vem ensinar a mamãe — respondeu Laura com doçura.

A garota, fixando o olhar na mãe e como se lesse a sua alma, indagou:

— E por que o papai não disse tchau pra gente, mamãe?

Laura, incomodada, retrucou:

— Tome seu cafe', minha filha, e va' brincar!

As crianças serviram-se a vontade e depois foram brincar no quintal, como faziam todos os dias enquanto a mãe se ocupava de colocar a casa em ordem.

Laura resolveu ter uma conversa seéa com a irmã para saber desde quando ela e Eduardo estavam tendo um caso. Foi ate' a casa dos pais, e Alzira intermediou o encontro das duas irmãs.

Laura sentiu o sangue ferver quando se viu frente a frente com Olivia, e, procurando forças para não atacá--la fisicamente, disse:

— Olivia, como e' que voce teve frieza no coração para agir igual a uma serpente traiçoeira, me causando um sofrimento desses?

Envergonhada e arrependida de seu erro, Olivia nada respondeu. Laura prosseguiu questionando:

— Voce não sente remorso do que fez?

Com mais essa pergunta julgadora, Olivia apenas baixou a cabeça.

— Existe tanto homem desimpedido procurando uma mulher solteira para se casar e voce decidiu roubar justamente o marido da sua própria irmã?

Acuada pela situação constrangedora, Olivia não encontrou justificativa para as perguntas que ela mesma ja' vinha se fazendo desde que descobrira estar grávida do cunhado. Sem argumentos, continuou calada.

— Abre essa boca, mulher, e me responde olhando nos meus olhos. Parece que engoliu a lingua! — bramiu Laura, ameaçando esmurrá-la.

Para evitar que Laura atacasse a irmã, Alzira acompanhava tudo bem de perto, com muita tristeza no coração.

Olivia não tinha palavras para se explicar e continuou em silencio.

— Desde quando voces estavam se encontrando? E quando foi a primeira vez que voces me trairam? — insistiu Laura.

— Nós so' estivemos juntos uma vez — balbuciou Olivia, rompendo o silencio.

— E quando foi que isso aconteceu?

— Naquele dia que voce foi atender o caso da moça la' na cidade e me deixou cuidando da sua casa.

As palavras de Olivia, revelando os detalhes da traição, acertaram o coração de Laura como uma espada afiada cortando por dentro o seu ser.

— Eu não acredito que voce teve a frieza de se deitar com o meu marido dentro da minha própria casa!

— Eu fui a culpada de tudo — assumiu Olivia.

— Como voce foi a culpada de tudo, Olivia? Voce colocou uma arma na cara do Eduardo e o obrigou a ir para a cama com voce contra a vontade dele? — perguntou Laura aos berros e gesticulando com as mãos na direção do rosto da irmã como se fosse agredi-la.

Alzira pôs-se em forma de escudo entre as duas e disse:

— Calma, Laura. Voce esta' muito nervosa, filha. Eu sei que essa conversa e' necessária, mas e' bom lembrar que voces estão grávidas e, nessas condições, não podem passar por emoções fortes...

Foi assim que Olivia soube que a irmã também estava esperando um filho.

— Pelo amor de Deus, mãe, deixe eu por para fora tudo que esta' entalado na minha garganta, senão a minha cabeça vai estourar — gritou Laura.

Alzira foi a cozinha pegar um copo de 'agua para a filha traida. Enquanto isso, as duas continuaram o acerto de contas.

— Eu sei que voce nunca vai me perdoar pelo estrago que causei em sua vida — disse Olivia, inibida diante da irmã.

— Não vou perdoá-la mesmo. Isso que voces fizeram não tem perdão — bradou Laura.

Colocando-se de maneira submissa e de cabeça baixa por não ter coragem de olhar firme nos olhos da irmã, Olivia sentia que a qualquer instante Laura poderia perder o controle e enchê-la de bofetadas.

Os olhos rancorosos de Laura denunciavam o quanta ela estava revoltada e dominada pela força do ódio.

Alzira retornou trazendo um copo de 'agua e disse:

— Tome um pouco de 'agua, Laura, para voce se acalmar.

— Eu não quero 'agua.

— Laura, eu estou mandando voce tomar a 'agua
— exigiu Alzira, com autoridade de mãe.

Reconsiderando o pedido enfático da mãe, Laura acatou a determinação. Depois dessa pausa na conversa, sentindo-se mais calma, ela voltou ao assunto:

— Desde quando voce sente desejo pelo meu marido?

— Desde quando eu era adolescente — respondeu Olivia, chorando.

— Olhe pra mim e diga a verdade — exigiu Laura com firmeza. — O Eduardo alguma vez Ihe prometeu que me deixaria para ficar com voce?

— Não, porque ele so' tinha olhos para voce — respondeu Olivia, com tristeza na voz e magoada por não ter sido a escolhida para se casar com o cunhado.

Laura irritou-se de tal maneira que, mordendo os lábios de raiva, parecia que a qualquer instante iria perder o controle e bater na irmã grávida.

— Como voce conseguiu seduzir o meu marido, ordinária?

Novamente Alzira intercedeu, dizendo:

— Calma, Laura. Voce tem o direito de exigir uma explicação de sua irmã e eu não vou colocar panos quentes em defesa dela porque sei da gravidade do erro que ela cometeu. Mas também não posso permitir que voce baixe o nivel da conversa ofendendo a Olivia so' porque voce esta' com a razão.

Para Laura, era irritante a cara fingida de Olivia, com ar de prazer, fazendo-se de coitada para não apanhar dela enquanto relatava a traição. Mas, obediente a autoridade da mãe, prosseguiu:

— Como voce conseguiu fazer o Eduardo se interessar por voce se acabou de me dizer que ele so' tinha olhos para mim?

— Acho que o Eduardo não resistiu a mim — provocou Olivia, fazendo voz de menina sedutora e deixando Laura a ponto de explodir de ira.

Aos prantos, Alzira interveio:

— Esse e' o pior desgosto que uma filha pode dar a uma mãe que ficou incontáveis noites sem dormir, preocupada com seu bem-estar.

— Deixe a piranha falar, mãe — pediu Laura, insatisfeita com a explicação.

Alzira foi ate' a janela e ficou ouvindo a confissão da filha traidora de costas. Olivia continuou:

— Eu sempre fui apaixonada pelo Eduardo... E esse desejo foi se tornando incontrolável dentro de mim quando voce me contava que ele era um sonho de homem quando voces iam para a cama.

Com essa revelação, Laura teve certeza de sua parcela de culpa na traição. Reconheceu que havia mesmo contado segredos de sua intimidade para a irmã, aguçando em Olivia um desejo que ja' existia. Seduzida pela fantasia das histdóias que ouvia, a jovem resolveu conferir se o cunhado era mesmo tudo aquilo que a irmã propagandeava.

— Agora que o meu casamento com o Eduardo foi destruido, voce teria coragem de assumir o meu lugar como esposa dele?

Olivia ficou em silencio por alguns instantes e respondeu:

— Ele não me ama e me disse que a mulher da vida dele e voce.

Isso foi o bastante para que Laura pudesse aliviar a dor insuportável que corroia seu coração. Por isso, deu por encerrado aquele encontro com a verdade. Despediu-se da mãe e voltou para sua casa.

Assim que Laura saiu, Alzira olhou para Olivia com desprezo e disse:

— Minha filha, eu fico impressionada com a sua falta de vergonha na cara! Voce foi muito fria em tudo que disse.

Olivia, sem remorso, desabafou:

— Saiba de uma coisa, minha mãe... Eu estou e me sentindo leve como uma pena por ter arrancado da minha alma o peso dessa culpa. A Laura veio aqui me procurar porque desejava ouvir a verdade, e foi exatamente isso que eu Ihe disse.

Diante do comentário irônico de Olivia, Alzira ficou com os nervos a flor da pele e, para não bater na filha grávida, saiu de perto dela e foi para a sala.

Durante os dias em que ficou afastada de Eduardo, Laura refletiu muito sobre os conselhos do sogro e de seu mentor espiritual, que insistiram para que ela perdoasse o marido. Pensou muito tambem sobre o que ouviu de Olivia a respeito do amor que Eduardo sentia por ela e sobre a traição ter sido apenas uma aventura.

Assim, ela ponderou perdas e ganhos que a separação estava Ihe proporcionando e, com o coração amolecido de tanto ouvir os filhos perguntando pelo pai, resolveu procurar o sogro para informá-lo de que tinha decidido perdoar Eduardo e recomeçar a vida ao seu lado.

Juca ficou muito feliz com a escolha da nora e, desejando a felicidade de todos, saiu para buscar Eduardo, que estava escondido na casa de um tio e ja' naã suportava mais viver longe da esposa e dos filhos.

Oprimido, Eduardo não dormia direito, tornou-se prisioneiro de sua imaturidade, pois a sombra do arrependimento o seguia a todo instante, trazendo de volta a lembrança de sua pulada de cerca.

EVALDO RIBEIRO