CAPÍTULO 23

CAPÍTULO 23

Era fim do dia. Laura estava preparando o jantar e as crianças brincavam no quintal de casa quando Juca chegou acompanhado de Eduardo.

Ao ver o marido retornar cabisbaixo, evitando olhar diretamente em seus olhos, Laura sentiu retornar toda a raiva que pensava ja' ter superado.

Consciente de que a esposa ainda precisaria de um tempo para se curar da ferida em sua alma, Eduardo ate' pensou em pedir desculpas, no entanto, preferiu permanecer calado. Entrou para o quarto, apareceu na janela e acenou para os filhos, que correram para abraçá-lo.

Feliz com a cena dos netos abraçando o pai, Juca abraçou a nora e disse:

— A parte que me cabia eu ja fiz, agora o resto e' com voce, minha filha.

Durante algumas horas, Laura e Eduardo trocaram poucas palavras, deixando que as crianças matassem a saudade do pai.

Mas, quando foram dormir, ela se sentou na cama, baixou a cabeça, passou as mãos na barriga e, muito emocionada, revelou:

— Eduardo, além do seu filho com a Olivia, esta' a caminho o nosso terceiro filho.

Surpreso, ele tentou abraçá-la, mas a esposa, indiferente, pediu:

— Por favor, não toque em mim.

Notando que ainda levaria um tempo para restabelecerem os laços, Eduardo respeitou a vontade da esposa de manter certa distância.

Decidida a checar as informações dadas por Olivia, Laura colocou Eduardo contra a parede, perguntando sobre o inicio da relação dos dois. Ela queria ver se eles caiam em contradição no que diziam.

— 0 que foi que voce viu de tao irresistivel na Olivia?

Ele baixou a cabeça e nada respondeu.

— Desde quando voces estavam tendo um caso? — perguntou, chorando.

— Na verdade, a gente não teve um caso. O que aconteceu entre nós foi uma única relação naquele dia em que voce deixou a sua irmã aqui e foi atender a moça la na cidade.

Irritada, Laura contrapôs:

— Não importa se voces tiveram apenas uma relação. O que voces fizeram foi o suficiente para gerar um filho. E essa criança sempre sera' a prova viva do erro de voces.

Eduardo, chorando e olhando fixo nos olhos da esposa, confessou:

— Eu reconheço que fui mesmo um fraco quando me deixei levar pelo truque de sedução da sua irmã naquela maldita noite.

Laura ficou em silencio, encarando-o.

— A Olivia e' uma pessoa invejosa e maldosa. Desde o nosso namoro ela planejava acabar com a nossa relação — acusou ele, tentando se esquivar.

— Isso voce não precisava me falar. Eu sei que desde pequena a Olivia sente inveja de mim. Agora, o que me surpreendeu foi saber que voce, o homem que eu acreditei que seria o meu companheiro para sempre, não era digno da minha devoção e muito menos merecedor do meu amor e do meu respeito.

As palavras irônicas da esposa doiam em Eduardo mais que chicotadas.

Laura ouviu o marido, e a história contada por ele correspondia a versão dada pela irmã. Por isso, resolveu perdoar o deslize do esposo.

Na manhã seguinte, Salomão pediu que Alzira avisasse ao genro que ele o aguardava para conversar sobre o futuro da criança de Olivia.

Eduardo foi ao encontro do sogro e, muito envergonhado, assumiu que era o pai do bebê que Olivia estava esperando. Como Salomão também estava com a moral manchada por ter um filho fora do casamento, resolveu encerrar o caso.

Laura ficou surpresa com a transformação repentina do pai, que se tornou um verdadeiro defensor das práticas mediúnicas que outrora tanto repugnava. Aos poucos, a vida do casal foi voltando ao normal.

Entretanto, durante o periodo de gestagao de Olivia, Laura evitava manter contato com ela e, mesmo tendo a consciencia da realidade espiritual, nao conse¬guia se desligar da magoa que guardava em seu peito.

Os meses se passaram e Laura deu a luz um menino, que recebeu o nome de Noam. Dez dias depois foi a vez de Olivia trazer ao mundo uma linda menina, que recebeu o nome de Cecilia.

Porém, como a vida não da' ponto sem no' e a relação entre as duas irmãs ainda estava estremecida pelo abalo da traição, a vida criou uma situação para reaproximá-las que exigia desapego de ambas as partes.

Olivia descobriu que o seu leite tinha secado. Sem leite para alimentar a pequena Cecilia, a mãe de primeira viagem ficou desesperada com o choro alarmante de fome da inocente criança.

Alzira, vendo que a menina corria sério risco de vida e sabendo que Laura tinha leite em abundância, tornou a neta nos braços e a levou para a tia amamentá-la. Chegou a casa de Laura com a criança chorando e disse:

— Filha, eu sei que voce ainda esta' muito magoada com a sua irmã, mas eu so' estou aqui porque e' um caso de vida ou morte.

— O que esta' acontecendo com a menina, mãe? — perguntou Laura.

— O leite da Olivia secou e não temos outra saida... Ou voce amamenta essa inocente criança ou ela vai morrer de fome — explicou Alzira, colocando ate' um pouco de drama na voz para convencer a filha a salvar a sobrinha.

Quando Laura viu aquela triste cena da criança chorando de fome, sentiu desabrochar de sua alma o instinto materno e, ja' sem o rancor que nutria pela mãe da criança, tornou a pequena Cecilia nos braços, Em um gesto repleto de ternura, levou um dos seios a boquinha da faminta bebê que, rapidamente, ao sentir o calor do afeto, calou-se sugando o leite.

Cecilia estava tão faminta que tentou agarrar o peito da tia com as duas maozinhas. Enquanto matava a fome, olhava nos olhos de Laura com satisfação, como se demonstrasse gratidão pelo alimento que estava recebendo.

Depois que deu afeto para a sobrinha por meio da amamentação, Laura se sentiu profundamente transformada. O rancor que guardava em seu peito desapareceu, e o que transbordava agora era um amor incondicional em forma de alimento materno.

Após saciar a fome, Cecilia acabou adormecendo, e Laura sentiu uma forte emoção com a cena da sobrinha suspirando em seus braços enquanto dormia.

Envolvida por uma energia amorosa que vibrava no ar, Laura nem percebeu que seu mentor espiritual estava ao seu lado emitindo ondas de sentimentos e pensamentos positivos. Satisfeito por ter conseguido seu intuito, Alaor disse:

— Graças a Deus o amor prevaleceu.

Alzira tornou a criança nos braços de volta e a levou para casa. Ansiosamente, Olivia aguardava na porta de casa o retorno da mãe. Quando Alzira chegou, ela estendeu as mãos para receber a filha que, para seu alivio, estava bem alimentada e dormia tranquilamente nos braços aconchegantes da avó.

Evitando acordar a bebê, Alzira entregou a neta suavemente para Olivia, que, curiosa e falando baixinho, perguntou:

— Como foi a reação da Laura quando viu minha filha?

Alzira meneou a cabeça e respondeu:

— Olha, minha filha, voce realmente e' uma pessoa de muita sorte.

— Por que, mãe?

— Ja' pensou se voce tivesse engravidado de outro homem e a mulher dele, por vingança, e com toda razao, não aceitasse amamentar o fruto da traição?

Olivia tentou refletir sobre a observação da mãe, mas a palavra traição Ihe causara um forte desconforto.

Então, com o olhar perdido e com a voz desanimada, ela disse:

— Ainda bem que a Laura não e' uma pessoa vingativa!

— Graças a Deus, a sua irmã nao deseja o mal de ninguem, nem mesmo de quem Ihe causou tanto sofrimento — concluiu Alzira.

Olivia fez-se de desentendida e puxou outro assunto.

O tempo passou e as feridas abertas pela traição foram cicatrizando aos poucos. Laura ja' não guardava mais rancor de Olivia e muito menos do marido.

Cecilia, devido ao forte elo afetivo criado com Laura durante o periodo da amamentação e por conviver na casa da tia, ao ver os filhos de Laura chamando-a de mãe, acabou entendendo que aquela mulher que a amamentava era sua mãe tambem.

Por isso, as primeiras palavras que a garota pronunciou foram chamando Laura de mãe.

No começo, Laura teve muita dificuldade para aceitar a situação porque, ao ouvir a menina chamando-a de mãe, inevitavelmente vinha a sua mente a desagradável lembrança da traição. Então ela tentava corrigir a pequena, dizendo:

— Cecilia, eu não sou sua mãe. Sou sua tia, querida. Mas, ao ser repreendida, a menina se sentia rejeitada e chorava muito.

Ao presenciar a filha dele com a cunhada chamando Laura de mãe e sendo corrigida por ela, Eduardo sentia vontade de pedir a esposa que deixasse a garota chamá-la assim, mas ele tinha consciência de que seria pedir demais para a mulher, que ja' se esforçava o bastante para cuidar de Cecilia. Então, nesses momentos, ele saia de casa para evitar o olhar de Laura.

Com o passar do tempo, Laura foi se acostumando com a idéia de ser chamada de mãe pela sobrinha. A presença alegre da menina brincando com os seus filhos biológicos acabou se tomando um santo remédio para cicatrizar definitivamente as marcas da discórdia que a traição provocara.

Nada era mais comovente para Laura que se deparar com a irresistivel cena de seus filhos, Augusto, Aguçena, Noam e Cecilia unidos se divertindo no quintal de casa.

Estranhamente, ela tinha a sensação de que aquele espirito, encarnado de maneira indesejada no seio de sua familia, era o retorno de alguém muito querido de outras vidas, que havia chegado para Ihe ensinar alguma coisa, pois não sabia explicar o que sentia pela sobrinha. So' sabia que, desde a primeira vez em que teve Cecilia em seus braços, um sentimento de amor maior que a razão pulsava acalentando o seu coração.

EVALDO RIBEIRO