CAPÍTULO 24

CAPÍTULO 24

Laura sonhou que estava em um lugar onde se encontrava com uma mulher de fisionomia conhecida, mas não lembrava quem era ela.

— Como vai, Adelina? — quis saber a mulher, estendendo-lhe a mão.

Laura, sentindo-se contrariada por ter seu nome trocado, falou:

— A senhora esta' enganada, pois o meu nome não e' esse.

— Ah, e' verdade, eu me esqueci que voce esta' encarnada em outro corpo. Portanto, ganhou outro nome — comentou a mulher.

Laura, achando que tinha morrido, sentiu-se um pouco desconfortável e questionou:

— De onde a gente se conhece e que lugar e' esse?

— Sei que voce não pode se lembrar de seu passado, por enquanto. Mas nós somos velhas conhecidas, querida.

Laura impacientou-se e tornou:

— Onde estou, minha senhora?

— Voce esta' no mundo astral — respondeu a mulher.

— Então quer dizer que eu morri?

A mulher, mostrando-se compreensiva, fez cara de piedade e respondeu:

— Voce não morreu, pois a morte não existe! Voce se lembra de que o seu mentor ja' Ihe disse isso em outra ocasião? Vou explicar o que esta' acontecendo e o porque deste nosso encontro.

— Sim — concordou Laura.

— Na minha mais recente encarnação, eu fui Domitila, mãe de Cacilda, sua melhor amiga e a pessoa com a qual voce dividia todos os seus segredos. Voce foi Adelina, uma moça ambiciosa, que terminou o noivado com Baltazar, o grande amor de sua vida, para se casar com o rico fazendeiro Barão dos Lengdis, um homem pelo qual voce não sentia a minima atração.

Laura arregalou os olhos e a mulher prosseguiu:

— Barão era tão apaixonado por voce que so' faltava beijar os seus pés, tamanha era a devoção que nutria por voce. E quanto mais voce o rejeitava, mais ele desejava conquistá-la. Ele chegava a declarar abertamente que, se fosse preciso, abriria mão de toda a fortuna dele em troca do seu amor e da sua atenção. Em contra-partida, Baltazar, seu noivo, apesar de ser um rapaz de familia muito pobre, dominava o seu coração. Ele a traia com outras mulheres, sem se preocupar em esconder isso de voce, mas, mesmo assim, apesar do seu jeito cafajeste de ser, ele cativava de forma arrebatadora o seu coração carente. E voce cegamente o perdoava por suas traições, acreditando que, após o casamento, conseguiria faze-lo mudar de caráter e transformá-lo em um homem caseiro e fiel.

Laura continuava impassivel a narrativa. Domitila deu continuidade:

— Um dia, o apaixonado fazendeiro encontrou-a com o coração fragilizado pelas repetidas traições de seu incorrigivel noivo. Com a insistência do ricaço em desposá-la, voce concluiu que o futuro ao lado de Baltazar não Ihe daria a minima esperança de uma vida feliz e muito menos uma boa condição financeira.

— Sei...

— Decidida a vingar-se de Baltazar, voce aceitou a proposta de casamento do fazendeiro e abandonou o seu noivo dias antes de se casarem. Ao ser informado de que voce estava desistindo do noivado e de que havia sido trocado por um homem bem-sucedido, Baltazar desesperou-se, jurou de joelhos a voce que, se tivesse uma chance, mudaria de conduta, mas voce, pela primeira vez no comando de sua vida, encheu-se de coragem e não deu mais crédito a palavra daquele incorrigivel cafajeste que so' brincava com os seus sentimentos. Desejando dar uma lição em Baltazar, mesmo não amando o seu novo escolhido, voce se casou com o fazendeiro na ilusão de que, saindo de uma mentira, embora ao mesmo tempo entrando em outra e assumindo uma relação apenas por interesses materials, estaria deixando para trás a vida sofrida que levava.

"Ao contrário do que voce esperava, a sua vida se tornou outra prisão. O Barão se convenceu de que nunca seria amado por voce e, determinado a mantê-la longe de seu grande amor, colocou capangas para vigiá-la dia e noite. Para evitar que voce tivesse uma recaida por Baltazar, não a deixava ir nem mesmo a casa de sua mãe sozinha, assim como também exigiu que voce cortasse os lagçs de amizade com a minha filha Cacilda.

"O resultado foi que, mesmo casada com um homem rico, morando em uma imensa casa, cheia de empregados para atender a todas as suas vontades, voce continuou se sentindo a mais pobre e infeliz pessoa do mundo."

Laura sentiu um frio percorrer-lhe o corpo. Domitila acariciou seu braço e continuou:

— Embora tivesse sido a sua confidente desde a infância, Cacilda não entendeu o motivo de seu afastamento após o casamento com o Barão. Sentindo-se rejeitada por ser pobre, ela pensava que voce tivesse mudado o seu jeito de ser por causa do dinheiro e não quisesse mais manter amizade com pessoas de nivel inferior como ela.

"Enquanto isso, Baltazar conformou-se e acabou encontrando consolo nos braços de Cacilda, que não resistiu ao vê-lo sofrendo. A aproximação dos dois fez com que ela se apaixonasse perdidamente pelo homem que voce tanto amava. Quando voce soube que Baltazar e Cacilda estavam namorando e organizando o casamento deles, sentiu um ciúme incontrolável de seu ex-noivo.

"O seu sofrimento aumentava cada vez que voce os encontrava de mãos dadas e unidos como voce e Baltazar jamais tinham sido. Baltazar e Cacilda se casaram e, milagrosamente, o homem que nunca Ihe respeitara tornou-se um exemplo de marido nos braços de sua melhor amiga!

"O seu ódio foi crescendo ate' que um dia, não suportando mais ser infeliz e ver a felicidade do seu ex-noivo com sua ex-melhor amiga, voce pegou uma arma de fogo do seu marido e, dominada pelo ciúme, foi fazer um acerto de contas com os dois. Eles estavam em casa após o almoço, deitados no quarto, quando voce invadiu a residencia do casal com a arma em punho. Ao vê-los abraçados, voce perdeu a cabeça, apontou a arma contra Baltazar e Cacilda e, dominada pela raiva, apertou o gatilho várias vezes, acertando-os. Baltazar morreu na hora. Cacilda, ainda viva, sangrando muito, teve tempo para Ihe dizer:

"— Assassina, voce acabou com três vidas.

"E foi assim que voce soube que Cacilda estava grávida do primeiro filho dela com Baltazar. Arrependida do que fez e sem poder voltar atras em seu ato de loucura, voce deu cabo da própria vida ali mesmo, achando que a morte seria a solução para os problemas que a sua revolta havia criado."

Laura tinha a respiração entrecortada, e Domitila, depois de uma pausa, prosseguiu:

— Diante da imortalidade do espirito, além de não ter resolvido nada com a sua ação violenta, voce so' gerou desequilibrio para si mesma. Afinal, cada um acha seu próprio destino.

Enquanto a mulher relatava a dramaáica história de sua vida anterior, Laura chorava muito, sentindo-se triste por ter se envolvido em tamanha tragédia.

Domitila pousou sua mão sobre a de Laura e disse, com voz pausada:

— De minha parte, como mãe de Cacilda, aquele dolorido acontecimento ja' foi superado, e hoje reconheço que o sofrimento por que passei com a morte de minha querida filha grávida e de meu genro me levaram a rever meu jeito de pensar sobre as leis que regem a vida. Graças a bondade divina, compreendo que a vida e eterna e' infinitamente generosa, afinal, ela esta' sempre nos presenteando com novas oportunidades para que possamos fazer escolhas mais conscientes, inclusive praticando boas ações em beneficio do nosso semelhante, independentemente dos dissabores que tivemos com os outros. Todo mundo merece ter uma segunda chance para recomeçar, e eu escolhi por amor ajudá-la a livrar-se do seu passado, libertando-a tambem das energias nocivas da maldição que lancei sobre voce na data do crime.

— Tinha todo o direito de me amaldiçoar. Destrui sua familia.

— Sim. Mas cada um atrai o que e' necessário para seu crescimento, seja pelo amor seja pela dor. Não vou aqui apresentar o porque de a vida de todos voces ter chegado aquele ponto tão critico. Tudo poderia ter se resolvido de maneira menos dramática. Passados tantos anos e depois de muito aprendizado e reflexão, sou outra pessoa. Meu espirito e' mais consciente das coisas, mais lúcido. Sei que a vida sempre faz tudo para nosso bem. Quando deixei de amaldiçoá-la, senti enorme bem-estar. Porque tudo o que voce vibra para os outros, de certa forma, vibra tambem em voce. Eu quero paz e equilibrio ao meu redor. E que todo mundo viva bem. Afinal, errar faz parte do jogo divino!

Laura sentiu-se acolhida pela compaixão daquela serena mulher que, mesmo tendo a triste sina de ver a sua filha assassinada por ela, mostrava ternura em sua expressão, garantindo que tinha superado o dano que sofrera e que agora desejava apenas ajudá-la, de livre e espontanea vontade.

Encerrando a conversa, Domitila tornou:

— Restituindo os direitos aos espiritos envolvidos naquela tragédia, eles reencarnaram como membros de sua nova familia e vão precisar muito de seu amor para vencer o resquicio de ódio que ainda sentem por conta da sua desenfreada ação.

Mas lembre-se de que a reencarnação desses espiritos como seus parentes não se trata de carma, mas de uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento da capacidade de amar que a vida cria para reaproximar antigos desafetos, pro-movendo entre eles laços de amor incondicional.

— Por mais que tenha escutado tudo isso, eu tenho sentimento de carinho por todos eles.

— Voce mudou sobremaneira. O periodo que viveu no mundo astral depois de sua morte foi bem produtivo.

Claro, voce sofreu muito, mas também aprendeu bastante. Nessa última vida, voce foi criada por uma tia que muito a amava. Ela tentou, a todo custo, conduzi-la pelo caminho do bem.

Laura teve um lampejo e sorriu, emocionada.

— Dolores!

— Sim. Dolores foi uma pessoa especial naquela vida. E nesta encarnação mostrou-se uma grande amiga.

— Sempre senti muito carinho por ela. As cartas... — uma lágrima escapou pelo canto do olho de Laura. — Ah! como era bom trocar cartas com Dolores. Sinto saudade dela.

Domitila sorriu e prosseguiu:

— A ordem que rege as leis da vida e' sábia e reune os espiritos por meio de laços familiares para que os velhos inimigos abram portas que estão fechadas entre eles, ajudando-os a vencer os conflitos do passado.

Estas foram as últimas palavras do espirito de Domitila antes de partir. Laura acordou lembrando-se claramente de cada detalhe da experiência que teve por meio do sonho, quando a pessoa esta' dormindo e seu espirito desprende-se do corpo e sai para visitar a dimensão espiritual.

— Seria uma revelação? — questionou-se ela. Alaor estava ao seu lado acompanhando-a, mas nao podia revelar a Laura que o Barão dos Lengdis reencarnara como Salomao, seu pai, Baltazar como Eduardo, seu marido, Cacilda como Olivia, sua irmã, e o filho que Cacilda esperava quando fora assassinada, como Cecilia.

EVALDO RIBEIRO