CAPÍTULO 26

CAPÍTULO 26

Laura viveu a mais amarga experiência de sua vida, que foi dar banho no corpo gélido de seu próprio filho. A mãe estava tão fora de si que nem voltou para recolher as peças de roupa estendidas na cerca. Apenas enrolou o corpinho do filho em uma toalha ainda úmida, acolheu-o no colo, chamou os outros filhos que, apavorados com a morte do irmão não paravam de chorar, e seguiram para casa.

Conforme Laura passava pelas casas a caminho de sua residência, levando o corpo do filho ensanguentado nos braços, despertava uma legião de curiosos, que, impressionados com a morte do garoto, seguiam-na formando um cortejo.

Dodô se ofereceu para levar a triste noticia a Eduardo, que estava trabalhando, e Laura, ainda muito abalada, aceitou a ajuda do rapaz. Preocupada com reação do esposo ao ser informado da morte do filho, recomendou ao portador que apenas avisasse a Eduardo que voltasse imediatamente para casa, pois seu filho havia caido e se machucado muito.

O ja' rapaz Dodô, montado em seu cavalo, saiu correndo pela estradinha de terra atrás de Eduardo. Em poucos minutos o informante chegou a porteira da roça.

Quando Eduardo avistou o garoto chegando, sentiu o coração acelerar, esperando o anúncio de alguma noticia ruim.

Dodô era apelidado de "Abutrelino", justamente porque agia igual a um urubu, que so' aparece para participar do fim de alguém.

Ao contrário do que Ihe fora recomendado, Dodô, dramatizando, disse logo a verdade a Eduardo, anunciando de maneira ofegante e sensacionalista:

— Seu Eduardo, a dona Laura pediu para eu vir aqui Ihe avisar que o Noam pulou da ponte, bateu a cabeça em uma pedra dentro da 'agua e morreu na hora.

Chocado com a frieza do jovem anunciador de tragédias e com a voz ja' embargada pela dor da noticia que recebera de supetão, Eduardo perguntou:

— Óh, meu filho, voce sente prazer com a desgraça dos outros, e'?

Dodô ficou calado diante da pergunta de Eduardo. Desesperado, o pai da criança saiu correndo em direção a sua casa.

Laura, quando avistou pela janela o marido chegando, rapidamente foi ao seu encontro, se atirou em seus braços e disse:

— O nosso anjinho se foi para sempre, Eduardo. Sentindo-se destroçado, o pai so' queria tocar no corpo de seu filho para poder ter certeza de que tudo aquilo era mesmo verdade. Com as mãos trêmulas, Eduardo descobriu o rosto de Noam, comprovou o fato e, inconsolado, indagou ao Pai celeste:

— Meu Deus, por que o Senhor permitiu que o meu filho morresse tão cedo?

A vizinhança toda estava ao seu lado Ihe oferecendo apoio. Mas, tornado pela dor, Eduardo não ouvia as palavras de apoio que recebia dos amigos e parentes que, solidários, Ihe prestavam condolências.

Enfim, inconsoláveis e chorando aquela perda irreparável, os pais decidiram enterrar o corpo do garoto no quintal de casa, como era o costume das familias naquela região do nordeste quando morria alguém querido.

Alzira, na beira da cova, muito emocionada, disse:

— Va' com Deus, meu anjo. A vovó te ama muito. Salomão soluçava inconsolável com a morte do neto. Oscar, que era padrinho do menino, não resistiu a cena do enterro e, ameaçando desmaiar, foi retirado do local nos braços dos amigos.

Juca, muito triste com a morte do neto, se aproximou do filho e disse:

— Eduardo, eu posso imaginar o quanto voce esta' sofrendo com essa tragédia.

— Pai, ate' aqui eu fui uma pessoa que confiava nos guias de luz, porém hoje perdi a fe' que eu tinha nesses espiritos que se dizem nossos amigos.

Juca, vendo o filho atravessando um momento de grande desespero, procurou não confrontar a sua revolta, apenas o ouviu silenciosamente e o acolheu, oferecendo o seu ombro amigo.

Mesmo tendo consciência da continuidade da vida após a morte, a perda temporária do filho deixou no coração dos pais um vazio imenso.

Durante a semana da morte do garoto, Laura passou várias noites em claro, relutando em aceitar a morte do filho tão prematuramente.

Alaor pediu que ela deixasse o espirito do filho seguir em paz e informou que, quando fosse permitido, teriam um encontro por meio de sonhos.

A dor da trageédia deixou os familiares sensibilizados, reaproximou e reuniu as pessoas como nunca antes do triste acontecimento.

Um mês depois, Laura, mesmo tendo consciência de que a vida continua apás a morte do corpo, permanecia com o coração dilacerado pela incessante dor deixada pela tragédia.

Tomada pela imensa saudade que Ihe destroçava por dentro, a mãe foi ate' o quarto do filho, pegou a mochilinha escolar dele e começou a olhar o seu caderno. Enquanto folheava as últimas lições que o garoto havia feito naquele fatidico dia de sua morte, Laura encontrou um bilhete da professora de Noam guardado entre as folhas do caderno. Ao ler a mensagem da educadora, não conseguiu confer as lágrimas com o elogioso recado da mulher:

Parabéns, papai e mamãe!

O filho de voces e' um aluno muito disciplinado e, por isso, e' um campeão de notas altas. Um aluno exemplar como este me faz sentir ja' ter cumprido minha missão de vida.

Laura sentiu um misto de dor e orgulho de mãe coruja e, soluçando, apertou o caderno fortemente contra o peito, como se estivesse abraçando o filho.

Ela guardou o bilhete novamente entre as folhas do caderno e foi ate' a casa dos sogros mostrar-lhes as lindas palavras da professora. Quando o avô do menino leu o recado enaltecendo a postura disciplinada do garoto, ele pegou nas mãos da nora muito emocionado e, olhando nos seus olhos, com a voz embargada, disse:

— Filha, eu sei que diante de uma tragédia dessas nada vai consolar o seu coração de mãe. Realmente a vida nos pregou uma peça muito dramática, que nos marcou para sempre, mas precisamos aceitar os designios de Deus e prosseguir a nossa caminhada. Eu vou Ihe ensinar um processo de cura emocional e espiritual que vai libertar a sua alma dessa dor insuportável, que parece sem fim e que acorrenta voce e o espirito do meu neto a triste lembrança daquela terrivel tragédia que o apartou de nós tão precocemente.

"Para amenizar esse sofrimento, aceite a morte de seu filho como algo irremediável. Eu sei que a morte de um filho e' uma perda irreparável e que esse corte deixa mesmo uma dor incessante que golpeia a alma vinte e quatro horas por dia, pelo resto da vida. Mas, diante desse triste fato, não ha' outra saida a não ser aceitar a vontade de Deus.

"Portanto, minha filha, pare de se violentar e se torturar com esse sentimento de culpa. Aquela fatalidade não foi planejada por voce e muito menos ocorreu por descuido de sua parte. O que aconteceu ja' estava traçado pelo plano espiritual ou destino, como quiser chamar. O espirito de seu filho viveu o tempo que tinha de viver, nem mais nem menos.

"Faça o seguinte, Laura, imagine que o seu filho apenas foi morar em outro lugar e que, no tempo de Deus, um dia voces se reencontrarão para uma nova Jornada juntos. E para que voce possa definitivamente se desligar deste elo de dor e saudade, escreva uma carta expressando tudo que sente por conta da ausência dele e, principalmente, relate as lembranças dos momentos bons que voces compartilharam como companheiros de viagem. Escreva tudo que Ihe vier a mente sobre a convivência que tiveram e, por fim, encerre o texto descrevendo exatamente o último momento em que voce o devolveu para a mãe natureza. Depois que voce desabafar, queime a carta como se fosse um ritual de despedida e desapego."

Aos prantos, Laura afirmou:

— Seu Juca, isso vai doer mais do que a dor do parte.

— Sim, minha filha. Vai doer profundamente. Eu sei disso. Mas sera uma ação libertadora. So' assim voce cortara' o cordão umbilical espiritual que os mantem unidos ao sofrimento daquela amarga experiencia que se abateu sobre todos nós.

Laura secou os olhos, deu um demorado abraço no sogro, agradeceu-lhe a orientação e seguiu o conselho dele. Pegou um caderno e escreveu: Filho,

Esses trinta dias sem a sua presenga foram os mais longos e mais dificeis da minha vida. Hoje mesmo eu acordei sentindo uma saudade de voce tão intensa que a minha alma parece não suportar mais esse silencio que ficou entre nós. Ah, como eu queria ouvi-lo me pedindo para preparar o seu bolo predileto de aipim...

Mas como a vida interrompeu a nossa convivência, hoje estou aqui tentando encontrar força para superar esse distanciamento e recomeçar a minha vida. Meu filho, não sai da minha mente a sua imagem alegre, correndo pelos quatro cantos, pisando em minhas plantas, que eu cuidava com tanto carinho no quintal de casa. Confesso que, quando voce fazia isso, na hora eu queria bater em voce, mas agora que voce se foi, se eu pudesse tê-lo de volta, eu o deixaria esmagar o jardim inteiro, meu querido.

Se eu pudesse voltar no tempo, não teria implicado tanto com as suas traquinagens. Eu teria aproveitado mais a sua companhia e o abraçado apertado muito mais vezes. Agora o meu jardim esta' intacto, mas perdeu a graça depois que partiu a mais bela das flores que eu cultivei.

A vida sem a sua presença, meu filho, esta' muito vazia. Hoje sinto falta ate' de suas manhas, me chantageando quando queria algo que eu Ihe negava.

Esta separação temporária que houve entre nós me fez rever o meu jeito de agir, a minha forma de viver. Agora dou muito mais valor a um abraço e a companhia das pessoas. Com a sua partida, ficou um vácuo silencioso, muitas perguntas e nenhuma resposta.

Ao acordar e ir preparar o cafe', na hora em que sinto o cheiro do cafe' subir, me vem a mente a sua presença alegre, devorando o cuscuz misturado com leite.

Quando ponho a mesa farta do almoço e vejo a sua cadeira vazia, automaticamente me vem a lembrança de que falta alguém muito especial. Falta voce, meu filho.

Ao sentir o cheiro daquele seu sabonete preferido, me vem a mente a sua imagem contente indo tomar banho para ir a escola saltitante e feliz com os seus irmãos.

Quando ouço alguma criança falar a palavra "mamãe", logo surge na minha mente voce, ainda pequeno, quando me chamou de mamãe pela primeira vez. Filho, esse dia e' inesquecivel para mim!

Quando vou lavar roupa no riacho, e como se eu voltasse no tempo e visse novamente a chocante cena de voce desfalecido e sangrando pela testinha em meus braços, enquanto eu, desesperada, tentava a todo custo Ihe trazer de volta a vida. Mas, infelizmente, o seu espirito ja' tinha nos deixado.

Por fim, toda vez que eu sinto o cheiro de uma rosa branca, volto a triste cena da última vez em que o vi, quando fecharam o caixão com o seu lindo corpinho e, lentamente, o desceram cova abaixo, nos separando, sabe Deus ate' quando.

Que os amigos e amparadores espirituais o conduzam para um bom lugar, meu querido filho.

Fique com Jesus, meu amor. E lembre-se de que a mamãe o ama mais do que tudo nesta vida e que estara' sempre orando por voce.

Beijos saudosos de sua mãe, Laura.

Naquela mesma noite, o plano espiritual permitiu que Laura vivesse uma das mais fortes emoções de sua vida. Enquanto dormia, o seu espirito saiu do corpo e, pela primeira vez, se encontrou com o espirito de seu filho, que, muito emocionado, Ihe deu um carinhoso abraço e Ihe encheu de beijos, como sempre fazia quando estava encarnado.

0 tempo passou, e os pais do menino desencarnado, embora arrasados com a dor da perda, aos poucos foram encontrando forças para recomeçar a vida.

Laura, apesar de aparentar ter superado a morte do filho, na verdade não passava um dia sequer sem pensar no garoto. Várias vezes ela teve a sensação de ser abraçada pelo espirito do filho e, em outras oportunidades, ele aparecia por meio de sonhos, onde estava sempre sorridente.

Eduardo voltou a sua rotina diária, tentando se agarrar aos cacos que restaram de sua alma, pois intimamente a tragédia Ihe causou uma profunda transformação. Ele revoltou-se e distanciou-se das práticas espirituais ao lado da esposa. Alaor recomendou que Laura retomasse as suas atividades, afirmando que com o tempo Eduardo reencontraria o seu caminho de volta.

Respeitando o sofrimento do marido, Laura deixou que ele tivesse um tempo para cicatrizar a ferida de sua alma.

Por um longo periodo, Eduardo permaneceu sem brilho nos olhos e calado. Ja' Laura prosseguiu a sua missão, cuidando dos necessitados.

Quando encontrava alguém com a alma aflita, Laura agia como uma verdadeira terapeuta que, buscando o bem-estar dos seus consulentes, usava mais os ouvidos do que a boca. Intuida pelo seu mentor espiritual, ela era assertiva nos seus aconselhamentos e remédios naturais que ministrava durante os tratamentos.

Muitas mulheres da cidade, que não conseguiam engravidar, buscavam o auxilio de Laura. Algumas delas, desenganadas pelos médicos que Ihes diziam que nunca receberiam a benção da maternidade, recorriam ao trabalho de Laura, que sabia
fazer garrafadas que ajudavam no desbloqueio da fertilidade. Milagrosamente, meses depois muitas dessas mulheres davam a luz, contradizendo os exames médicos.

Diante do sucesso de gravidez de inúmeras mulheres tratadas pelas garrafadas e curas espirituais de Laura, os médicos ficavam revoltados e recorriam aos documentos dos casos, reavaliavam os exames e não encontravam erros nos dados comprovados pela ciência e pela medicina como infertilidade nas pacientes.

Muito tempo havia se passado. Os pais de Laura e de Eduardo tinham falecido, os filhos se casado, constituido familia e enchido a casa deles de netos e bisnetos.

O casal, ja' com idade muito avançada, continuava unido e em harmonia.

A médium, apesar das dificuldades para se locomover, continuava desenvolvendo suas atividades espirituais, que encarava como sua missão de vida.

Havia chovido muito naquela noite. Idosos, Laura e Eduardo seguiam com dificuldade, de mãos dadas, por uma estrada cheia de poças de 'agua. De repente surgiu um carro, e o motorista, ao avistar o casal de idosos, maldosamente acelerou o veiculo e passou numa poça de 'agua, dando um banho nos velhinhos, sujando-os dos pés a cabeça. O casal ficou irreconhecivel.

0 irresponsável motorista gargalhou como se tivesse escutado a piada mais engraçada do mundo, enquanto olhava pelo retrovisor conferindo o resultado que a sua ação desrespeitosa causara naquelas frágeis criaturas.

O mal-educado ainda disse com a voz entrecortada pelos risos sarcásticos:

— So' assim o casal de tartarugas toma um banho! O outro ocupante do automóvel, um funcionário do motorista, não gostou do feito do patrão e mentalmente o condenou: "Ele ainda vai se dar mal por causa de suas brincadeiras de mau gosto".

Indignado, Eduardo questionou:

— O que esse filho de uma 'egua tem na cabeça? E o que ele ganhou fazendo isso com a gente, minha velha?

Laura respondeu:

— Não se preocupe, não, meu bem. Guarde na memória o que vou Ihe dizer: ainda esta semana a vida vai promover um reencontro entre nós e esse irmão perturbado para corrigir, literalmente, o seu passo errado.

Eduardo tirou a camisa ensopada de lama, arrancou algumas folhas das plantas, tentou limpar a esposa e amenizar a sujeira que escorria pelo seu rosto, caindo sobre os seus lábios, mas pouco adiantou.

Dias depois, Laura acordou no meio da noite com uma sensação estranha, perdeu o sono e ficou se virando de um lado para o outro da cama.

EVALDO RI BEIRO