CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 27

Com a inquietação da esposa, Eduardo acabou acordando e perguntou:

— O que voce esta' pressentindo, meu bem? Enrolando os seus cabelos longos para trás, Laura respondeu:

— Olha, meu velho, eu vi o espirito de um homem incorporado em uma mulher, chorando muito. Com certeza era alguem que cometeu suicidio.

Eduardo deu as mãos para a esposa e começaram a rezar pedindo proteção, pois a visão que Laura teve era um sinal de que em breve ela teria que sair de casa para atender algum caso de perturbação espiritual.

Eduardo e Laura estavam dormindo quando escutaram o barulho de um carro parando na frente da casa deles. Em seguida, uma voz masculina expressando aflição e desespero chamou duas vezes:

— Seu Eduardo! Seu Eduardo!

Com a aproximação do veiculo, os cachorros da casa reagiram e latiram muito, cercando o carro e deixando seus ocupantes assustados.

Como na região, mesmo sendo uma 'area rural, vinha ocorrendo assaltos nos últimos tempos, antes de abrir a porta de casa Eduardo pegou uma lanterna e perguntou:

— Quem é?

— Seu Eduardo, eu sou Walter Simões. O senhor ja' deve ter ouvido falar muito de mim.

0 nome não era estranho, mas Eduardo não o reconheceu.

— Pelo amor de Deus, me ajude. Preciso falar com o senhor urgentemente. E' uma situação muito delicada
— insistiu a voz em torn dramatico.

Diante da súplica do homem, ficou claro para Eduardo que se tratava de mais um pedido de socorro espiritual para sua esposa. Então, com a lanterna acesa na mão, Eduardo abriu a janela, apontou o facho luminoso na direção do carro, conferindo quem o chamava, e notou que, dentro da luxuosa caminhonete, encontravam-se quatro homens.

Embora Eduardo não tivesse reconhecido nenhum deles, sentiu-se tranquilo. Repreendeu os cães para que pudesse ouvir melhor o homem. Ao primeiro comando do dono da casa, os animais se calaram e recuaram, mas permaneceram ali em sua retaguarda, atentos e vigilantes.

Com medo de serem atacados pelos cachorros, os visitantes acharam mais seguro aguardar Eduardo dentro do carro.

— Boa noite, senhores. Em que posso ajudá-los? — disse Eduardo com certa distancia.

De repente, os quatro homens mal-encarados desceram do carro, um deles, o motorista, estava sem camisa, usava apenas uma bermuda, sandálias, e portava na cintura uma arma de fogo, tinha brilhantes cordões no pescoço e anéis nos dedos.

Quando se viu diante daqueles desconhecidos, Eduardo sentiu um frio na barriga. Com o coração quase saindo pela boca, pensou: "Meu Deus, e' um assalto".

O motorista logo notou que Eduardo estava apavorado com a presença de seu grupo e, imediatamente, tratou de acalmá-lo, explicando-se:

— Seu Eduardo, eu sei que diante de tantas noticias de assaltos que vem acontecendo em nossa região ultimamente, e assustador mesmo abrir a porta de casa para atender alguem a essa hora da noite e se deparar com a pessoa armada. Mas o senhor pode ficar tranquilo que nada de ruim ira Ihe ocorrer. Como ja' Ihe disse, eu sou Walter Simões. Me identificando melhor, eu sou proprietario de várias fazendas na região. Recentemente comprei mais uma propriedade aqui perto, onde estou morando. Esses homens com cara de mau que me acompanham sao meus seguranças. Ando escoltado para garantir a minha defesa em uma eventual tentativa de roubo, ja' que o nosso municipio esta' completamente infestado por criminosos.

— Ainda bem que voce e' esperto e se adiantou — disse Eduardo. — Nossa, que alivio! Com o medo que eu estava sentindo de voces, bastava alguem ai fazer um gesto para arrumar a calça que eu cairia morto no chão. O medo nos paralisa. Vejam como estou tremendo do susto — ele mostrou as mãos.

— Perdoe-me pelo incômodo a essa hora da noite e, principalmente, pelo susto. Bem, seu Eduardo, encurtando a conversa: eu so' estou vindo aqui interromper o descanso de sua familia porque me disseram que a sua esposa e' uma eficiente curandeira e que ela resolve com maestria ate problemas incuráveis de saúde e perturbagao espiritual.

— Realmente a Laura e' um instrumento de Deus na vida de muitas pessoas que, desenganadas dos meios convencionais da medicina, recorrem ao seu dom espiritual para tratarem as doenças da alma. Mas devo Ihe informar que ela não se agrada com o termo curandeira. Prefere ser chamada de trabalhadora da Luz.

— Tudo bem, então — disse o visitante, apressando--se em falar. — O caso e' o seguinte: faz tempo que a minha mulher, Solange, vem apresentando um comportamento agressivo, porém isso so' ocorre no trato comigo. Com outras pessoas, ela age de maneira calma, gentil, educada, compreensiva, dedicada e amável, enfim, ela parece outra pessoa. Eu ja' a levei aos melhores especialistas da mente humana da capital do nosso estado e ate' de outros estados em busca de um tratamento que desse jeito nela, mas de nada adiantou tudo que fizemos. O trabalho de sua esposa e a nossa última esperança. A situação e' tão grave que, nos momentos de desespero, eu ate' ja pensei várias vezes em fazer uma besteira contra a minha própria vida, pois sou muito apaixonado pela minha esposa — ele começou a chorar doloridamente. — Não suporto mais ser atacado gratuitamente pela minha companheira que, estranhamente, após as crises, não se lembra absolutamente de nada que me faz — desabafou o homem.

Eduardo o convidou para entrar, mas Walter, demonstrando estar muito desesperado, explicou ali mesmo que precisava levar Laura ate' a sua fazenda para saber o que se passava com a sua esposa que, do nada, ficava estirada no chão falando com voz de homem e o ameaçando de morte.

Eduardo deduziu do que se tratava e não hesitou em ajudá-lo. Pediu que ele esperasse um instante e foi falar com Laura. A médium concordou em ajudá-lo e, em seguida, partiram para a fazenda, que ficava a alguns minutos dali.

Chegando ao local, Walter encaminhou Laura ao quarto do casal, onde se encontrava Solange. Enquanto se dirigia para dentro da residencia, a médium notou, mesmo apressada, com sua sensibilidade feminina apurada, o bom gosto do casal nos lindos móveis que decoravam a confortável casa. No quarto se depararam com Solange estirada no chão.

Quando a mulher ouviu a voz do marido, levantou-se com os olhos fixos nele e, com a voz masculinizada, disse:

— Voce e' o único culpado por tudo de ruim que aconteceu comigo, seu oportunista! Voce ainda vai me pagar pelo atraso que causou a minha vida.

A essa acusação, Walter reagiu afirmando:

— Voce esta' ficando louca, Solange? Imagina so' uma coisa dessas agora. Quando nos conhecemos, voce era uma moça de familia pobre que não tinha nem o que comer. Eu Ihe dei o meu sobrenome, uma vida digna, e agora voce, de uma hora para outra, tern esses ataques de nervos e começa a me dizer que eu atrasei a sua vida, mulher ingrata?

Mesmo sendo uma experiente médium, Laura quase não conseguiu segurar a vontade de rir quando viu Walter autoritário, brigando com um espirito incorporado em sua mulher, achando que estava falando com a esposa.

A médium chamou o homem para fora do quarto e pediu que ele não entrasse em confronto com o espirito que estava incorporado em Solange.

Foi ai que Walter começou a entender que aquela e tantas outras vezes em que entrou em conflito com a esposa tratava-se de interferencia de uma presença do Alem, coisa que ele nunca acreditou que pudesse acontecer.

Voltaram para o quarto, e Laura entrou em comunicação com o espirito, buscando identificá-lo. A principio o encosto resistiu em dizer o seu nome, mas ao ser informado de que, se colaborasse, receberia ajuda para sair da situação de sofrimento em que se encontrava, acabou revelando a sua identidade.

Tratava-se de Reginaldo. Segundo Walter, era um primo de Solange, que foi namorado dela e não aceitou o fim do relacionamento quando ela decidiu se casar com o fazendeiro.

Reginaldo era um jovem muito bonito e trabalhador, mas sem boas condições financeiras. Muito apaixonado por Solange, não suportou perder o seu grande amor para um homem bem-sucedido. Desgostoso, deu cabo da própria vida, acreditando que a morte colocaria um fim no sofrimento de sua alma.

Após o suicidio, Reginaldo descobriu que so' tinha destruido o seu corpo fisico e que a vida continuava. Seu espirito estava atormentado. Revoltado e desequilibrado por não poder voltar atrás e corrigir o seu engano, tentava a todo custo vingar-se daquela que o desprezou, levando-o ao caminho do erro.

Como Laura não tinha conhecimento da história do casal, Walter ficou convencido de que realmente o que estava acontecendo ali era verdadeiro.

Assustado, o fazendeiro perguntou:

— E agora, dona Laura, nós vamos ter que conviver com esse intruso do Além atrapalhando o nosso casamento pelo resto de nossas vidas?

Laura pediu que Walter saisse do quarto por um instante. Ele atendeu a solicitação da médium e saiu, inseguro com o futuro de seu casamento, que estava próximo do fim por causa dos constantes assédios espirituais que a esposa vinha sofrendo sem saber do que se tratava.

O que Solange não sabia era que, por meio de suas duras criticas a infeliz decisão do ex-namorado, atraia a presença do espirito do falecido para perto de si, inclusive abrindo espaço para que a energia dele se mesclasse com a sua e a influenciasse negativamente, fazendo-a passar por louca.

Laura acalmou o espirito dizendo:

— Meu irmão, eu entendo a sua dor e sei que nada pode preencher o lugar de um amor não correspondido, mas deixe este casal em paz e aceite esta nova e dura realidade que voce mesmo criou para si ao dar cabo da própria vida. Quando conseguir se manter sereno, a vida vai Ihe dar uma nova oportunidade para que possa recomeçar e realizar os sonhos que voce deixou para trás.

Emocionado, o espirito perguntou aos prantos:

— Por que essa traidora me mandou para esse lugar cheio de sofredores?

Laura respondeu com um torn de voz amoroso:

— Na verdade, foi voce quem escolheu morar na reclusão do mundo astral inferior quando decidiu fazer o que fez.

Desesperado, o espirito perguntou:

— Voce esta' dizendo que eu estou morto?

— Não, porque o espirito não morre.

— Mas voce acabou de falar que estou no mundo espiritual.

Laura não respondeu, e o espirito aflito continuou a falar:

— Pelo amor de Deus, dona, me diga o que esta' acontecendo! Por que toco nas pessoas e elas ficam fingindo que não estão me vendo?

Serenamente, a médium respondeu:

— Voce morreu. Aliás, voce destruiu o seu corpo na ilusão de que acabaria com sua vida. Agora voce esta' na realidade espiritual e precisa aceitar que, ate' conseguir o minimo de equilibrio emocional, tera' de ficar do lado do invisivel, refletir e repensar crenças e atitudes, principalmente as ligadas a posse. Ninguem e' dono de ninguem. As pessoas são livres para escolherem com quem querem se relacionar. Quando voce conseguir aceitar isso de fato, tera' chances de regressar a vida carnal para recomeçar — explicou Laura.

— Então a senhora quer dizer que eu morri, e isso? A médium aos poucos foi doutrinando o espirito e ele, resistente, disse:

— Eu não acredito que morri, meu Deus — apalpava-se, inconformado. — E como e' possivel alguém morto continuar se comunicando com os vivos, minha senhora? A senhora e' louca? — perguntou o espirito chorando e confuso.

— Esse contato acontece por meio da mediunidade.

— E o que e' isso?

— Mediunidade e' a sensibilidade dos sentidos que, bem desenvolvida, nos permite fazer a conexão entre vivos e mortos. Bem didático.

Mais confuso ainda com o vocabulário usado por Laura, o espirito se desesperou e começou a esmurrar o chão, dizendo:

— Isso e' mentira, dona. Eu não acredito em nada do que esta' falando.

Laura deixou o espirito atormentado desabafar a raiva que nutria contra o casal e perguntou se ele queria ajuda para se desligar de Walter e Solange.

— Tudo que eu mais quero e' distância desses traidores, mas eles estão sempre rindo da minha infelicidade. E eu so' fico calmo quando venho aqui e acabo com a alegria deles.

Laura prometeu que Walter e Solange nunca mais iriam rir de seu ato de desespero. Com essa garantia, o espirito foi afastado dali. Infelizmente, perturbado como estava, não aceitou ajuda. Continuou atormentando-se nas densidades do astral inferior.

Trazida a realidade, Solange ficou intimidada quando recobrou a consciência e deparou-se com aquela mulher estranha, de cabelos longos e levemente esbranquiçados, em seu quarto. Na hora ela pensou: "Meu Deus, sera' que eu morri e me encontrei com lemanjá?".

Laura deu um copo de 'agua fluidificada para Solange beber, explicando-lhe tudo que havia acontecido. Ela recomendou ao casal que, se quisesse ficar livre do assédio daquele espirito em particular, evitasse ficar falando mal dele para não atrair a sua presença por meio dos pensamentos criticos. Sugeriu ainda que o casal mentalizasse uma luz branca em volta do morto, fizesse uma oração e, assim, pudesse se libertar dele, esquecendo-o.

Concluido o trabalho de doutrinação e afastamento do espirito que importunava o casal, a médium pediu que Solange ficasse em repouso.

Walter, Laura e Eduardo deixaram o quarto e seguiram para a sala, onde ficaram conversando sobre a espiritualidade ate' amanhecer.

Durante o bate-papo, o fazendeiro, com ar de superioridade, disse:

— Dona Laura, uma coisa não entra na minha mente...

— Pode falar o que o incomoda — consentiu a médium.

— Como pode uma mulher tão sábia como a senhora, que ja' atendeu tantas pessoas ricas, ainda viver em um estado de tamanha pobreza?

— Pois e', meu filho, eu também não compreendo como e' que um homem tão rico como voce, que, apesar de ter tudo do bom e' do melhor, ainda viva uma vida tão vazia e infeliz em meio a própria riqueza.

— Eu não sou uma pessoa vazia e muito menos sou infeliz.

— Voce vai me desculpar pela minha sinceridade — avisou a médium. — Mas, observando o seu comportamento, esta' claro que uma pessoa que anda acompanhada por pessoas armadas não e' feliz e nem esta' com boas intenções.

— Eu so' ando com escolta armada porque carrego sobre o meu corpo jóias carissimas e muito cobiçadas pelos ladrões. Como ultimamente vem ocorrendo muitos assaltos em nossa região, eu não saio de casa sem a proteção dos meus homens — justificou Walter.

— Voce e' uma prova de que o dinheiro, na vida de certas pessoas, em vez de trazer liberdade, faz e transformar a sua existência em uma prisão de luxo.

— A senhora quer dizer que a riqueza afasta as pessoas da felicidade? O que leva o ser humano ao sofrimento e a falta de consciência.

— A pessoa verdadeiramente rica e' aquela que, morando em um casebre ou em uma mansão, tem uma fe' inabalável em Deus, expressa imensa alegria de viver, e' solidária, generosa, demonstra profunda gratidão pela sua existencia e um amor genuino a vida, pois os seus valores são internos. Ja' a pessoa que vive em uma condição de pobreza interna e' aquela que, mesmo conquistando uma fortuna, continua se comportando como necessitada, tem uma alma carente de atenção e, para se sentir acima das demais pessoas de seu convivio, precisa ostentar e exibir os bens materials que possui, objetivando apenas inferiorizar os menos abastados e se tornar o centro das atenções.

Walter refletiu e sentiu que a explicação da médium tinha fundamento, afinal de contas, ele tinha tudo que desejava materialmente, mas Ihe faltava algo que preenchesse a sua alma, pois sentia um vazio interior infernal.

Solange, com o campo espiritual reequilibrado e sentindo-se leve como nunca esteve antes, levantou-se da cama para fazer a sua higiene pessoal. Tornou um revigorante banho, colocou um lindo vestido longo, foi ate' o espelho conferir o visual, maquiou-se, penteou-se e, com a autoestima elevada, dirigiu-se a sala para apresentar a nova mulher que desabrochou de seu interior. Ao vê-la surgir na porta, Laura perguntou:

— E ai, minha filha, como voce esta' se sentindo agora?

— Estou sentindo uma sensação de bem-estar maravilhosa. Parece que a senhora tirou uma tonelada de pedras das minhas costas.

— Que bom que tudo deu certo — disse a médium, evitando falar do espirito.

Solange deu um carinhoso abraço na medium e, emocionada, agradeceu Laura por ter libertado a sua alma do encosto espiritual que a perseguia.

Walter, sentindo-se feliz ao ver a esposa reequilibrada, foi ate' o quarto e retornou com uma boa quantia em dinheiro, que entregou a Laura como recompensa.

A médium agradeceu a oferta que recebera e reforçou as recomendações que havia feito, deixando claro que, se não adotassem um novo comportamento, continuariam recebendo a visita indesejada do espirito que os importunara. Solange, decidida a livrar-se de vez daquela influência, prometeu que seguiria a risca tudo que Ihe fora recomendado.

Antes de partir, Laura disse:

— Guarde bem essa frase, minha filha: "A felicidade so' depende de nossa maturidade diante das adversidades".

Solange, observadora, logo captou a mensagem que Laura Ihe transmitiu nas entrelinhas da frase e, externando gratidão pela lição que recebera, disse:

- Muito obrigada, dona Laura. Que Deus Ihe de muitos anos de vida e saúde.

— Amém. Assim seja — anuiu Laura, pegando a sua bolsa para sair.

Walter deu um apertado abraço na esposa e, segurando em suas mãos, disse olhando em seus olhos:

— Hoje eu descobri que voce e' a minha verdadeira riqueza.

Feliz como nunca se sentiu antes, Solange retribuiu:

— Eu tambem descobri que voce e' a minha verdadeira riqueza.

Walter encostou perto do rosto da esposa e disse baixinho em seu ouvido:

— Vou deixá-los de volta em casa e, quando eu retornar, nós vamos para nosso quarto, o nosso cantinho de amor, recuperar todo o tempo perdido.

Com um sorriso malicioso, Solange consentiu com a cabeça.

Walter pegou no cabide o seu inseparável chapéu de cowboy, apanhou a chave do carro em cima da mesa e saiu acompanhando o casal em direção ao carro, que estava estacionado na porta da casa.

Como o assento do carro era alto e Laura ja' não tinha mais tanta habilidade para subir, Walter, comportando-se de maneira cavalheira com a senhora, pegou em sua mão ajudando-a a se acomodar na confortável poltrona da caminhonete. Em seguida, repetiu o mesmo gesto, abrindo a outra porta do carro e estendendo a mão gentilmente para ajudar Eduardo a entrar no carro.

Depois disso, o fazendeiro arrumou seu chapéu de cowboy, entrou no automóvel, ligou o motor do possante e, quando acelerou para sair, viu que estava chegando Torrada, um de seus capangas.

Walter fez um sinal com a cabeça, chamando Torrada para acompanhá-lo. O capanga apressou o passo, entrou no carro, cumprimentou o casal e acomodou-se no banco de trás. Walter deu partida e, minutos depois, deixou o casal em casa.

Enquanto retornavam para a fazenda, Walter disse para o capanga:

— Sabe, Torrada, se eu soubesse que a velha era boa mesmo nesse negócio de falar com defunto, ha' muito tempo ja' tinha me livrado dessas perturbações.

— Patrão, o senhor não percebeu uma coisa — ficou uma pausa.

Curioso, Walter olhou para Torrada esperando uma explicação.

— Esses velhos ai são os mesmos que o senhor encharcou de lama quando passou na poça d'agua naquele dia que a gente vinha da cidade. Lembra que o senhor riu tanto que ate' doeu a sua barriga?

— Como e' que e' a história, Torrada?

— E' isso mesmo, patrão! Lembra que outro dia, vindo de Carolina, quando o senhor avistou de longe o casal de idosos na beira da estrada, passou com o carro na poça d'agua so' pra rir do resultado de sua traquinagem?

Walter, sentindo-se muito envergonhado de sua brincadeira de mau gosto, parou o carro no acostamento, fez a manobra e, determinado a desculpar-se, voltou em direção a casa dos amáveis velhinhos. Com remorso, refletiu:

— Olha so', Torra, veja como e a vida... E como diz o ditado: "aqui se faz e aqui se paga". Justamente as pessoas que eu humilhei em um ato de irresponsabilidade, agora, com toda sua sabedoria e boa vontade, me livraram de cometer uma desgraça contra a minha propria vida e nem sequer tocaram no assunto.

— Pois e', patrão. Nessa vida nada fica sem um acerto de contas.

— Sera' que eles não tocaram no assunto porque não guardaram rancor ou não falaram nada porque não me reconheceram?

— Olha, patrão, eu acho que eles não quiseram constranger o senhor.

O fazendeiro mal podia esperar o momento de chegar diante do casal de velhinhos e desculpar-se pelo seu erro. Mas Walter tinha certeza de uma coisa: nunca mais cometeria aquele tipo de brincadeira de mau gosto com as pessoas. Ele ficara tão mexido em saber que aquele casal de velhinhos tinha ajudado ele e sua esposa, que a experiencia o transformara em outro homem, maduro e mais sensivel.

Laura estava preparando o cafe' para o esposo quando o fazendeiro parou o carro na frente de sua casa. Com o barulho do carro chegando, Laura apareceu na porta. Walter desceu do veiculo e, antes que ele abrisse a boca para se desculpar, a médium, com sua sensibilidade aguçada, disse:

— Olha, meu filho, eu ja' sei por que voce voltou aqui e quero Ihe dizer uma coisa: nesta vida podemos ate' não consertar um erro que cometemos... Mas so' de reconhecer que agimos errado, ja' merecemos o perdão.

Sentindo-se aliviado da culpa, Walter abraçou Laura, que, mostrando que não guardava ressentimento pelo ocorrido, o convidou para tomar um cafe'.

O fazendeiro olhou para o capanga que o aguardava dentro do carro com cara de leão faminto e, so' pelo olhar do patrao, Torrada entendeu que era para ele descer do veiculo e acompanhá-lo no cafe'.

Walter e o segurança acomodaram-se em volta da mesa, aguardando o delicioso cafe' feito no coador acompanhado de um irresistivel cuscuz de milho.

Laura notou que o marido estava demorando para sair do quarto e resolveu verificar. Ela o encontrou caido ao lado da cama.

— Meu Deus! Socorro! — gritou ela.

Com o pedido de socorro, Walter e Torrada imediatamente correram ate' o quarto do casal, onde encontraram Eduardo desacordado. Tentaram reanimá-lo, mas ele não demonstrou o menor sinal de vida.

O mentor espiritual da médium apareceu ao seu lado e disse:

— O seu marido concluiu o seu tempo de estadia na Terra.

Ao receber aquela triste informação do amigo espiritual, Laura reportou:

— O plano espiritual acabou de me avisar que o meu velho não se encontra mais aqui no meio de nós.

Walter e Torrada prestaram suas condolências a Laura, confortando-a. Em seguida, o fazendeiro, compadecendo-se do momento dificil que a médium estava atravessando, generosamente ofereceu seu carro para levar a noticia do ocorrido aos familiares do falecido.

EVALDO RIBEIRO