CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 3

A conversa fluia muito bem quando, de repente, Laura entrou na sala esbaforida e interrompeu o bate-papo dos adultos:

-DonaDolores, o espírito dee seu Mathias apareceu nesse instante para mim lá no quintal e me pediu que lhe desse esse recado.

Dolores consentiu e a garota completou:

- Ele pediu para a senhora não ficar mais chorando lá embaixo do pe' de manga, onde os corpos dele o do dona Carmem estão enterrados.

Dolores quase desmaiou de tanta emoção quando ouviu o aviso dado pela menina, que falou com detalhes precisos informações de sua vida.

O pai da garota, sentindo-se envergonhado, interveio:

— Filha, pelo amor de Deus, não comece com suas maluquices sobre comunicação com espiritos. De onde voce desenterrou esse tal de Mathias?

— Por favor, Salomão! Deixe-a transmitir a mensagem que recebeu do espirito do meu pai — pediu Dolores, comovida, dando crédito a palavra de Laura.

Constrangido, Salomão baixou a cabeça, e a garota prosseguiu:

— O seu Mathias falou que a tristeza da senhora pela morte dele e de dona Carmem, sua mãe, impede que eles se desprendam da Terra e sigam em paz.

Impaciente, o pai coçou a cabega, cerrou os dentes e, disfarçadamente, dirigiu um olhar repressor a filha, tentando sugerir-lhe que parasse de falar as coisas que supostamente havia escutado do espirito. Porém, Laura não se deixou intimidar pela represália do pai e concluiu a conversa que travara com o espirito.

Dolores foi tomada por uma sensação de conforto e, ainda sem querer acreditar que realmente estava vivenciando aquela mágica experiência, disse:

— Menina do céu! Que dom maravilhoso que voce tem de se comunicar com os espiritos!

Salomão sentiu um forte arrepio subindo pelo corpo inteiro e pensou: "Jesus amado, fugi da fome e vim parar no hospicio!".

Alzira, que apenas dava a vez na conversa para o marido, interveio:

— Que bom que voces entendem o que se passa com a nossa filha! Confesso que, assim como o pai dela, eu também achava que ela tinha alucinações ou era louca quando afirmava que se comunicava com espiritos.

Dolores, aliviada da incerteza que Ihe corroia o peito desde a morte de seus pais, enxugou o rosto, se dirigiu a menina, agachou-se e disse:

— Laurinha querida, ouça bem o que a tia vai Ihe dizer... Voce foi colocada por Deus em meu caminho para arrancar do meu peito uma dor insuportável que, desde a morte dos meus pais, devorava a minha alma e me roubava a alegria de viver. Que Deus Ihe conserve esse dom maravilhoso.

Salomao, ouvindo a conversa anormal, meneava a cabeça negativamente.

Dolores, sentindo-se reconfortada, prometeu para si mesma:

— De hoje em diante não vou mais chorar a morte dos meus pais, porque agora eu sei que, em espirito, eles estão mais vivos do que nunca, em outra dimensão.

Depois de transmitir a mensagem, Laura foi para o quintal, onde se juntou aos irmãos e voltou a brincar normalmente.

Assim que a garota saiu, o fazendeiro disse:

— Caro Salomão, não duvide mais das coisas que a sua filha fala. Eu posso Ihe assegurar que a garota realmente conversa com o espirito de pessoas que ja' partiram deste mundo para a morada espiritual. Pois a menina, além de falar os nomes de meus sogros corretamente, ainda descreveu com exatidão o lugar em que estão enterrados os corpos de seu Mathias e de dona Carmem, debaixo de um pe' de manga que fica la' no quintal do casarão. E outra informação que também procede e que a Dolores todo fim de tarde fica chorando sobre a sepultura dos pais por não aceitar a morte deles. Creia, meu amigo. E' incontestável a veracidade da experiência que nos vivenciamos aqui hoje.

Salomão sentiu-se desconfortável em falar sobre a comunicação com o desencarnado que se manifestou por meio da mediunidade de sua filha e, diante do ocorrido, protestou:

— Pelo amor de Deus, senhores! Voces são pessoas esclarecidas, não dêem mais corda para a conversa maluca dessa garota. Essa menina, desde pequena, nunca bateu bem da cuca.

O fazendeiro ficou calado por um instante e, em seguida, disse:

— Meu amigo, eu sinto muito em contrariá-lo, mas voce precisa rever os seus conceitos a respeito da vida após a morte. E principalmente aprender a lidar com a sensibilidade de sua filha. Caso contrário, quem vai acabar enlouquecendo e' você.

Salomão se benzeu e contrapôs:

— Deus me livre e guarde. Eu quero e' distância desse assunto.

— Esse fenômeno que se manifesta por meio de Laura e' chamado pelos pesquisadores de casos sobrenaturais de mediunidade — explicou Viana.

— Perdoe-me pela minha ignorância, mas eu nunca ouvi falar nisso. E alguma doença mental incurável? — quis saber Salomão, preocupado.

— Mediunidade e' a capacidade que algumas pessoas tem de sentir, enxergar, ouvir e se comunicar com espiritos, ou desencarnados, ou mortos — esclareceu Viana.

— Sinceramente, eu não acredito que um morto possa voltar para se comunicar com os vivos — disse Salomão, irredutivel.

— Eu Ii O Livro dos Espiritos, de Allan Kardec, o famoso pesquisador francês e codificador da doutrina espirita. Por meio de sua obra, Kardec explica os fenômenos que os olhos da ciência ainda não decifram. Fiquei convencido de que os dados apresentados ali são veridicos — argumentou Viana.

— Essa conversa de que a vida continua depois da morte não faz sentido. Afinal, se a pessoa vai continuar viva do lado de la', então por que morrer? So' para causar sofrimento aos familiares que ficam? — rebateu Salomão.

— Uma coisa eu Ihe garanto: enquanto voce permanecer com esse pensamento limitado e olhando os fatos so' por um lado, a vida continuara' promovendo situações como esse acontecimento fenomenal de hoje para Ihe fazer rever o seu ponto de vista e ampliar a sua visão acerca do assunto — ressaltou Viana.

Alheia aquela discussão entre os homens, Dolores ainda estava muito sensibilizada com a agradável surpresa que recebera. Juntou as mãos em um gesto de gratidão e disse:

— Ate' que enfim as minhas orações foram ouvidas! Eu pedi e a vida me deu uma prova concreta da imortalidade da alma. Receber essa mensagem me conforta muito e traz a certeza de que um dia nos encontraremos para matarmos a saudade deixada pelo distanciamento temporário causado pela morte.

— Quando sera' que eles vao reencarnar? — questionou Viana, saudoso.

— Sera' que nascerão em nossa familia? — indagou Dolores, esperançosa.

Salomão, achando delirante tudo que ouvia, exprimindo repulsa, disse:

— Meus amigos, eu Ihes peço... Por favor, não me levem a mal, mas eu não me sinto bem falando de espiritos e, por isso, não quero mais continuar debatendo sobre esse assunto, porque esse negócio de manter contato com defunto so' trouxe perturbação para a minha familia.

— Tudo bem, a sua vontade sera' respeitada — disse Viana, compreensivo.

— Nós respeitaremos a sua forma de pensar — interveio Dolores. — Porém, diante dos fatos que ocorreram aqui hoje, uma coisa ficou bem clara para nós: sua filha tern a capacidade de se comunicar com os mortos.

Ela nos deu uma prova concreta — considerou Viana

Salomão nada disse, apenas baixou a cabeça, mostrando-se impaciente.

— Ficamos muitas noites sem dormir por causa da presença de espiritos brincalhdes que provocam pesadelos na Laura — comentou Alzira. — Desde quando começou a falar, essa menina acorda quase toda noite apavorada, dizendo que esta' recebendo a visita de algum espirito.

— O que realmente acontece e que ela sonha que esta vendo alguma assombração e confunde os pesadelos com uma experiência real — replicou Salomão, resistindo em aceitar a sensibilidade da filha.

— Não vamos tentar convencê-lo a mudar de opiniao, mas repito: sua filha nasceu com o dom da mediunidade e tem facilidade em se comunicar com os espiritos — enfatizou Viana mais uma vez.

Desejando encerrar a incomoda discussão, Salomão disse:

— Por gentileza, vamos por um ponto final nessa conversa sobre defunto?

— Tudo bem! — anuiu Viana, que propôs prosear sobre outro assunto.

— E' melhor assim — disse Salomão, satisfeito por ter sido atendido.

Viana e a esposa, percebendo que o pai da pequena médium tinha pavor do assunto espiritismo, resolveram mudar o rumo da conversa e seguiram falando sobre coisas do cotidiano, deixando Salomão mais a vontade.

Algum tempo depois, o casal, compadecido com a dificil situação em que se encontrava a familia, pediu licença para ter uma conversa em particular. Depois de alguns instantes trancados no quarto, Viana e Dolores retornaram a sala. Foi Viana quem falou:

— Salomão e Alzira, primeiramente queremos dizer que ficamos muito felizes por receber aqui em nossa fazenda a linda familia de voces.

— Isso e' bondade dos senhores — retribuiu Salomão, contente com o carinho. — Nós e que tivemos a sorte de encontrar pessoas tão hospitaleiras.

— E voces chegaram aqui no momento certo — interveio Dolores, com um olhar cúmplice fixo no marido.

Salomão e Alzira, sem entender nada, se entreolharam curiosos.

— A Dolores disse que voces chegaram aqui no momento certo porque faz exatamente uma semana que um de nossos colaboradores foi embora da fazenda, e a casa onde ele morava esta' desocupada — completou Viana.

— E' uma casinha bem simples. Não esta em perfeitas condições de moradia, mas, se voces quiserem ficar em meio a nossa gente, podem se acomodar por la', ate' que possam reformá-la ou construir outra mais confortável no terreno, se assim preferirem — propôs Dolores.

Emocionada, Alzira colocou as mãos no peito, fechou os olhos por um instante e, como se estivesse conversando com os próprios sentimentos, elevou o pensamento a Deus e agradeceu a Providencia Divina pela graça recebida.

— Temos mais uma boa noticia! — anunciou Dolores.

— Ainda tem mais? — indagou Alzira, ansiosa para saber.

— Sim. Nós decidimos que, além de moradia, vamos tambem arrumar um trabalho para voces nos serviços da fazenda.

— Meu Deus, que maravilha! — vibrou Alzira, abraçando-a.

— So' mesmo uma fazenda chamada "Liberdade" poderia nos libertar da prisão que e' viver na miséria — comentou Salomão, contendo a emoção.

— Pois e', meus amigos, os tempos dificeis ficaram para trás — disse Viana.

— Que Deus ouça as suas palavras e que os anjos intercedam por nós dizendo "amém" — acrescentou o esperançoso Salomão.

— Tenho certeza de que, com essa garra que voces demonstram ter, em pouco tempo trabalhando conosco voces darão a volta por cima — tornou Viana.

— Que assim seja! — disse Alzira.

— Em nome de minha familia, novamente quero agradecer aos senhores pela oportunidade e confiança que estão depositando em nós — falou Salomão.

Dolores solicitou que Aracy conduzisse Alzira ate' a casa onde a familia iria morar e que ajudasse a nova moradora a fazer a limpeza no interior da humilde residência. Com boa vontade e disposição, Aracy atendeu ao pedido da patroa.

Salomão e Viana deram uma volta pelos arredores.

Dolores, ciente da dificil condição em que se encontrava a humilde familia, adentrou o recinto com um cesto cheio de alimentos e disse:

— Isso aqui e' para voce preparar o jantar de sua familia.

Emocionada, Alzira recebeu o cesto, colocou-o em cima da mesinha e tornou:

— Não sei como pagar a senhora por tanta generosidade!

Dolores, que se sentia muito feliz por poder compartilhar um pouco de sua prosperidade, apenas acolheu a sofrida mulher em seus braços. Emocionadas, as duas choraram uma no ombro da outra como se fossem velhas conhecidas.

Após mais esse gesto de solidariedade e hospitalidade, Dolores saiu.

O sol ja' estava desaparecendo lentamente por detrás da linda floresta que ladeava a sede da fazenda quando Alzira se deu conta do horário e disse:

— Aracy, deixe que eu termino de arrumar o resto das coisas. Va' preparar o jantar de seus patrões e de sua familia.

— Tem certeza, Alzira? — perguntou Aracy, ainda disposta a ajudá-la.

— Sim. Voce ja' fez muito por nós hoje e eu não quero abusar de sua boa vontade. Que Deus Ihe pague pela sua gentileza e principalmente por colocar tanto amor no que faz — agradeceu Alzira a nova amiga com um carinhoso abraço.

— Ja' fui agraciada quando conheci voces! — completou Aracy.

Alzira chamou os filhos que estavam brincando no quintal, e os pequenos, obedientes, imediatamente atenderam ao chamado, vindo ao encontro da mãe.

— Crianças, quando alguem faz alguma coisa boa por nós, como e que devemos agir para reconhecer o bem que essa pessoa nos fez? — questionou, testando a educação que dava aos filhos.

Laura foi a primeira que se dirigiu a Aracy, dizendo:

— Muito agradecida, dona Aracy. Que Deus Ihe abençoe sempre.

— Ai, que gracinha — disse a senhora com os olhos lacrimejando.

O mesmo gesto foi repetido por Oscar. Mas Olivia ficou de cabeça baixa, sentindo-se encabulada por ter que falar com a mulher.

— E voce, Olivia, vai ficar ai parada igual a uma estátua? Vamos, menina! Deixa de ser acanhada, parece que engoliu a lingua! Agradeça a dona Aracy pela ajuda que ela nos deu — ordenou a mãe.
Olivia, com as mãozinhas para trás, timidamente se dirigiu a senhora e, falando mais para dentro do que para fora, disse:

— Muito agradecida, dona, e que Deus Ihe abençoe sempre.

Aracy ficou muito comovida ao receber o agradecimento carinhoso dos pequenos e muito mais ainda por ser abençoada por eles.

Despediram-se e ela deixou a casa, seguindo para a sede da fazenda.

Antes de servir o jantar, Alzira deu banho nas crianças e, de volta ao quarto de mãos dadas com os filhos, fez com eles uma oração de agradecimento.

Salomão estava sentado na frente da casa observando os bezerros da fazenda no curral, em uma cena que o fez refletir: "Fazia tempo que eu não sentia o cheiro de terra molhada, e principalmente não via um animal nutrido e correndo feliz da vida".

Naquele momento, Alzira apareceu na porta chamando o marido para jantar:

EVALDO RIBEIRO