CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 4

Vem, meu bem, o jantar esta' pronto! Salomão rapidamente escondeu o rosto para que a esposa não percebesse os seus olhos lacrimejantes por causa da emoção que sentiu. Mas de nada adiantou, pois Alzira, esperta como era, logo notou que alguma coisa estava incomodando o marido. Como quem nao queria nada, ela aproximou-se dele e perguntou mansamente:

— Por que você esta' com essa cara triste e isolado, meu rei?

— Não e' nada. Não se preocupe, mulher. Apenas estava me deixando levar pela imaginação — respondeu ele, mesmo com os olhos cheios de lágrimas.

Ja' acostumada a conviver com a postura do marido, que evitava falar de seus sentimentos, ela não insistiu em questioná-lo para não aborrecê-lo.

Enquanto jantavam, Laura notou que o pai estava pensativo e perguntou:

— Papai, por que o senhor esta triste? O senhor não gostou de morar aqui na fazenda?

Irritado com a indagação da filha, Salomão respondeu:

— Coma a sua comida, garota, e não me tire a paciência com perguntas. Afinal de contas, voce hoje ja' se meteu demais nos problemas dos adultos.

— Desculpe, papai!— disse a menina e, demonstrando ser sensivel e amorosa, completou: — E' que eu te amo e não gosto de ver o senhor triste.

Tocado pela afetividade da garota, Salomão tentou se redimir:

— Tudo bem, filha! Quem pede desculpas sou eu pelo tom que usei para falar com voce.

Sentindo-se emocionada, Alzira fingiu que ia pegar mais comida e saiu para chorar na cozinha. Passados instantes, enxugou o rosto, retornou a sala com os olhos ainda vermelhos, sentou-se a mesa e, após o jantar, foram todos conversar um pouco na calçada, ate' que, vencidos pelo cansaço da longa viagem, decidiram dormir.

No dia seguinte, a familia estava tomando o cafe' da manhã quando uma voz chamou na porta da casa. Salomão tornou mais um golinho do delicioso cafe', pegou mais um pedaço de bolo e, ainda mastigando, foi atender ao chamado.

Era o fazendeiro, acompanhado da esposa e de uma jovem senhora.

— Bom dia!— disseram os tres simultaneamente.

— Bom dia! — respondeu Salomão com cordialidade, ainda mastigando o bolo.

— Caro Salomão, queremos Ihe apresentar a nossa amiga Odete Milagres — falou Viana.

— Muito honrado com a sua visita, dona. Odete estendeu a mão e devolveu:

— A honra e' toda minha!

— Vamos entrar, pessoal — convidou Salomão. Da porta, Viana viu Alzira e as crianças tomando o cafe'.

— Desculpem por atrapalhar o cafe' de voces — disse o fazendeiro.

Bem-humorado, Salomão amenizou:

— Imagina, seu Viana. A gente ja' estava terminando. Sejam bem-vindos! Vamos entrar que a casa e' de voces.

Ouvindo as risadas que vinham da sala, Alzira deixou a mesa e foi cumprimentar as visitas. Dolores adiantou-se:

— E ai, minha querida, como voce esta'? Posso avaliar o quanto deve estar exausta.

— Realmente estou me sentindo um pouco cansada ainda. Mas a felicidade da minha alma e incomparavelmente maior que o cansaço do meu corpo — confessou Alzira, puxando Dolores para abraçá-la.

— Deixe eu Ihe apresentar uma pessoa muito especial que mora aqui na fazenda — disse Dolores, que em seguida apresentou a visitante: — Essa e' Odete Milagres.

- Ola', Odete. Como vai?— cumprimentou Alzira, estendendo-lhe a mão.

— Eu vou bem, obrigada — respondeu a mulher, com um simpático sorriso.

Após os cumprimentos, Dolores explicou o motivo da visita, sanando a curiosidade dos novos moradores da fazenda:

— E' o seguinte, meus queridos! Queremos informá-los de que em nossa fazenda existe uma pequena escola rural criada e' mantida por nós com o objetivo de oferecer aos filhos de nossos colaboradores o estudo básico. Durante o dia, enquanto os pais trabalham, as crianças estudam, e a noite quem ocupa a sala de aula são os adultos que não tiveram oportunidade de estudar. A professora Odete e' responsável pela alfabetização das familias agregadas em nossas terras.

— Que maravilha! — exprimiu Salomão com alegria.

— Parabéns pela iniciativa dos senhores! E' raro encontrar um patrão que pensa em oferecer uma condição de vida melhor a seus empregados, investindo na educação deles.

— E o que mais me deixa feliz e' que o trabalho da professora Odete tem dado tão certo que temos aqui inúmeras histórias de homens, muitos deles ja' com a idade bem avançada, que não sabiam nem sequer escrever o próprio nome, e que, graças a dedicação desse anjo que Deus colocou em nosso caminho, hoje sabem ate' escrever cartas de amor para suas esposas — completou Viana.

Alzira também expressou sua admiração, feliz por estar sendo agraciada com tantos cuidados e preocupação com a educação das crianças. De prontidão, ela comentou essa alegria:

— Olha que beleza! Parabéns aos senhores pelo esforço.

— Estamos apenas fazendo a nossa parte devolveu Odete.

Apesar de ter elogiado a iniciativa dos envolvidos com a escola rural, Alzira sabia que o desejo de Salomão era colocar apenas o menino na escola, pois, seguindo os conceitos com que ele próprio fora criado, não era a favor de colocar as filhas para estudar. Percebendo o rumo que aquela conversa tomaria, Alzira manteve sua postura diante das pessoas e deixou o espaço livre na conversa para que o marido decidisse o que fazer.

Salomão pensou na proposta por alguns instantes e disse:

— Em nome de minha familia, eu agradeço a preocupação dos senhores em nos oferecer mais essa oportunidade.

Alzira novamente olhou para o marido como quem pedia autorização para se manifestar, e Salomão, com um leve sorriso, demonstrou que a esposa poderia fechar o assunto expressando a sua opinião. Então, contente com a gentil oferta dos patrões, ela se pronunciou:

— Nós vamos aceitar que os nossos filhos estudem, sim. Agora eu e o Salomão não vamos precisar ocupar as vagas, porque ja' somos alfabetizados.

Ficou combinado que no dia seguinte Alzira levaria para a professora os documentos para matricular as crianças.

— Pelo visto deu para a casinha agasalhar voces muito bem — comentou Dolores, aproveitando a oportunidade do encontro.

Salomão de pronto brincou:

— Para quem estava na condição em que eu me encontrava ontem, que so' tinha um chapéu como teto e varias cabeças desabrigadas, esta casa e' luxo.

As visitas cairam na gargalhada com a brincadeira do homem. Conversaram por mais alguns instantes e se despediram.

Com mais esse gesto de compaixão do casal, Alzira e Salomão sentiram que os tempos dificeis definitivamente haviam ficado para trás.

No dia seguinte, Alzira procurou a professora e os filhos do casal foram matriculados na escola, como havia sido combinado com os patrões.

Laura chegou da escola depois do seu primeiro dia de aula e foi brincar de fazer comidinha no quintal de casa com a irmã. A alegria das meninas durou pouco tempo, apenas ate' Salomão chegar perto e ver as conchas que as filhas usavam como panelinhas cheias de arroz e feijao. Rispidamente o pai perguntou:

— Que desperdicio e' esse, Laura e Olivia?

— Deixe elas se divertirem — interveio Alzira, em defesa das filhas.

— Desperdiçando o pouco de alimento que temos? — esbravejou ele.

Olivia, sem graça e com medo do pai, disparou a chorar. Laura, com delicadeza e ternura na voz, tornou:

— Não fica bravo com a gente, não, papaizinho. Porque estamos fazendo um almoço bem gostoso para o senhor.

Surpreso e tocado com o pedido da filha, Salomão abrandou a voz:

— Ah e', filha?

— Sim — tornou Laura, mexendo a comidinha com a colher.

— Vai demorar muito pra sair esse almoço, senhora cozinheira? — perguntou o pai, passando a mão na barriga e fingindo que estava com fome.

— So' mais um minutinho, papai, que ja' vai ficar pronto.

A garota encheu um pratinho de arroz molhado com feijão ensopado de 'agua, como se estivesse mesmo servindo o almoço, e entregou ao pai.

Salomão levou a mistura ate' a boca e disse:

— Nossa! A sua comida esta' crua e tem gosto de lavagem de porco!

— Oh, paizinho, o senhor estragou a minha brincadeira. Não era para comer de verdade. O meu almoço era de mentirinha — explicou a menina com os olhos cheios de lágrimas, chateada por seu pai ter quebrado a magia de sua brincadeira.

Alzira, observando tudo, meneou a cabeça negativamente e se lastimou:

— Jesus amado, tenha piedade da falta de lucidez desse homem.

Salomão percebeu que a esposa estava Ihe desaprovando e questionou:

— O que foi que eu disse de errado que voce ja' esta' ai me condenando, balançando a cabega igual a uma lagartixa, negando a minha presença?

Alzira tornou coragem, foi ao encontro do marido e disse:

— Como voce e' insensivel, homem! Não e' assim que se fala com uma criança que esta' se descobrindo. Essa mensagem negativa que voce, mesmo sem intenção, transmitiu para a sua filha pode ficar gravada na mente dela como uma reprovação para o resto da vida.

Na defensiva e com raiva da critica da esposa, ele rebateu:

- Como voce e' dramatica, Alzira! Eu sou insensivel so' porque disse a verdade para a menina? Ao contrário disso: eu sou e' uma pessoa muito realista — enfatizou.

Como nunca fizera antes, Alzira o retaliou com firmeza:

— Olha, meu bem, eu não vejo nada de errado em ser uma pessoa verdadeira, aliás, penso que a verdade e' sempre a melhor escolha em tudo. Mas o que voce não pode e ser tao duro com as palavras que diz, tirando de uma criança a única coisa que ela tem: a fantasia, a liberdade de sonhar.

Surpreso com a posição inesperada da esposa, Salomão indagou:

— Ue', o que deu em voce agora, mulher? De uma hora para outra ficou valente e esta' me confrontando?

Alzira abrandou o tom de voz e concluiu:

— Não fiquei valente e nem estou confrontando voce, apenas quis Ihe mostrar que agiu errado abordando de maneira grosseira duas crianças.

Demonstrando-se nervoso por ter sido repreendido, Salomão resmungou:

— Deixe de ser dramática, Alzira. Voce queria o quê? Que eu tivesse dito "Nossa! Que comida gostosa, filha!"... E' isso?

Alzira, num tom de voz sereno, esclareceu:

— Não e' uma questão de mentir para a criança, Salomão. Mas, nesse caso, como pais, devemos entrar no mundo da criança e participar de sua fantasia. O que poderia ter feito era fingir que estava comendo a comidinha que a menina Ihe deu para provar e dizer "Que almoço delicioso, filha!".

Salomão debochou da mulher:

— Jesus amado, a mulher e' um ser muito dificil de ser compreendido. Desde pequena esse diacho ja' vive em um mundinho de faz de conta. E' por isso que, quando cresce e se casa, se decepciona e sofre ao descobrir que o homem com quern ela se casou não tem as qualidades que ela imaginou. Na verdade, a mulher não se apaixona pelo homem com o qual se encanta, ela idealiza alguém que o homem escolhido, de fato, não e'.

Alzira, com bom humor, sem dar muita importância para as queixas machistas do marido, suavemente retrucou:

— Sabia que foi Deus quem criou a gente assim? Salomão novamente caçoou:

— Pois, então, quando Deus concebeu a mulher, com certeza estava muito insatisfeito e confuso com alguma coisa.

Alzira silenciou por alguns instantes. Aproveitando o momento, Salomão mudou de assunto e indagou:

— Agora, falando sério, a comida de verdade ja' esta' pronta?

— So' falta temperar o feijão — respondeu ela, demonstrando no olhar compreensão pela falta que o marido havia cometido com a filha.

Alzira seguiu para a cozinha e Salomão aproveitou a ausência da esposa para se redimir com as filhas, que ja' estavam entretidas com a brincadeira novamente. O pai, decidido a corrigir a sua falha, primeiramente abaixou-se diante de Olivia, a mais magoada, e se desculpou. Em seguida dirigiu-se a Laura, pegou em seu lindo rostinho e, encarando seus olhinhos tristes, disse:

— Filha, me perdoe por ter estragado a sua brincadeira. Eu não devia ter falado daquele jeito com a minha princesinha. Voce perdoa o papai?

— Sim — respondeu a menina, baixando o rostinho. Salomão pegou no queixo da filha delicadamente e tornou:

— Olha aqui nos olhos do papai! Se voce perdoar o papai, amanhã, quando chegar da escola, vamos brincar de fazer comida de novo e eu prometo que não vou nunca mais estragar a sua brincadeira falando grosserias.

Satisfeita com a promessa do pai, Laura abriu um lindo sorriso. Salomão pediu que as duas filhas Ihe dessem um abraço de uma vez so'. Olivia e Laura atenderam a solicitação do pai, e Salomão levantou-se com as duas filhas nos braços, rodopiando e beijando seus lindos rostinhos, selando a paz.

Alzira apareceu na porta da cozinha para avisar que o almoço estava pronto e, pela primeira vez em anos de convivência, ela presenciou aquela cena: Salomão expressando afeto e reconhecendo que não havia agido corretamente, desculpando-se por um erro, e as garotas sorridentes no colo do pai, sentindo-se respeitadas e queridas.

Emocionada, Alzira não conseguiu conter as lágrimas, voltou um pouco para dentro de casa e, como quem agradecia a Deus por um milagre, colocou as mãos no peito, dizendo em devoção:

— Obrigada, Senhor, por ter tocado com o seu infinito amor o coração de pedra do meu marido, que ainda não aprendeu como e que se trata as pessoas.

Ela retomou a porta e avisou-lhes que o almoço estava pronto. Aliviado do peso de consciência, Salomão foi almoçar com a familia.

Os dias se passaram e, após um mês, o quintal bem cuidado da casa parecia um canteiro, brotando folhas dos mais variados tipos de frutas que Salomão e Alzira haviam plantado com sementes que ganharam dos patrões e também de moradores vizinhos.

As crianças ja' estavam bem enturmadas com as outras e, no decorrer do tempo, Dolores, Aracy, Odete e Alzira tornaram-se amigas inseparáveis

EVALDO RIBEIRO